O caso dos dez ratinhos (parte 2)

Olá, como estão as coisas por aí?

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Um pouco do outono aqui na Nova Inglaterra para embelezar a página

No post dessa semana, conforme prometido, vou te contar o resultado do meu fatídico experimento de 14 dias e o final do mistério da placa desaparecida. Preciso acrescentar que fiquei muito feliz com as várias mensagens que recebi de “Ei, me conta, a placa era sua mesmo?”. Me senti (quase) a Agatha Christie! A propósito, apenas sete ratinhos foram utilizados nessa experiência, e não dez, mas eu não poderia desperdiçar a oportunidade de fazer uma referência à minha obra favorita da rainha do crime. E se você não está entendendo nada do que eu disse até agora, leia o post anterior a esse, que contém o começo do caso dos dez ratinhos, antes de prosseguir.

Onde paramos? Eu havia passado os últimos 14 dias no laboratório muito envolvida com um experimento que incluía a análise de diferentes meios de cultura para manter pedacinhos de pulmões de ratos vivos por mais tempo. Era o 14o dia, quando eu faria as análises finais, essenciais para a conclusão do projeto. Entretanto, para meu total desespero, minha placa desaparecera da incubadora do laboratório, e encontrei a peruana Daysi, pesquisadora de outro time que esporadicamente usa o espaço do Dr. Brain, manipulando uma placa idêntica à minha e dizendo que era dela.

  • Daysi, o que esta placa está fazendo aqui? – eu esbravejei, absolutamente certa de que aquele era o meu experimento, já que a tampa transparente fora identificada com a data pela minha letra.
  • Essa placa está aqui porque é minha. Olha só o meu nome nela! – ela gritou de volta, pegando-a das minhas mãos.

Eu não sou uma pessoa nada agressiva, mas admito que nesse momento eu considerei seriamente pular no pescoço da peruana. Com o indicador, ela apontou para as letras na tampa.

  • Aqui está o meu nome: Daysi. Como isso pode não ser meu?

Repentinamente, uma combinação estranha de alívio e raiva preencheu meu peito. Estava tudo esclarecido, e eu só consegui rir. Tirei a disputada placa das mãos dela, e foi minha vez de indicar as palavras na tampa:

– Daysi, aqui está escrito “DAY 14”, não “DAYSI”.

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– Ahhh, eu achei que fosse o meu nome – ela disse baixinho, com uma expressão de choque e vergonha.

Não me segurei e dei uma boa bronca (da maneira mais educada que eu consegui) antes de sair da sala levando o meu experimento. Daysi poderia ter destruído duas semanas do meu trabalho por causa desse erro. Onde já se viu entrar no laboratório alheio e pegar experimentos dos outros? E pior, como alguém pode simplesmente não lembrar das suas próprias placas? Os outros pesquisadores do laboratório Brain ficaram incrédulos com essa história, e as medidas de segurança foram reforçadas. Agora, a peruana me pede permissão dez vezes antes de mexer em qualquer coisa… Melhor assim, não é mesmo?

O mistério foi solucionado, mas eu ainda precisava cuidar do mais importante: a conclusão do projeto. Não totalmente recuperada da ira, passei o dia fazendo testes e análises estatísticas. Quando estava tudo pronto, comecei a interpretar os resultados e me dei conta de que o pior momento do dia não fora a discussão com Daysi, como eu supusera… A pior hora desse dia tão longo começaria naquele instante, pois os resultados não faziam o menor sentido.

Veja bem, no mundo da ciência, costuma-se dizer que todo resultado, positivo ou negativo, é um resultado válido. Contudo, em algumas situações específicas, há resultados verdadeiramente nulos, que mostram que o experimento deu errado. Era esse o caso: os números indicavam que a viabilidade dos pedaços de pulmões em todos os quatro grupos aumentava no último dia em comparação com os anteriores, o que é biologicamente impossível. Por acaso, você assistiu ao filme “O curioso caso de Benjamin Button”, em que o protagonista nasce idoso e vai rejuvenescendo ao longo dos anos? Então, os resultados do meu experimento indicavam que os pulmões dos ratinhos estavam comportando-se à la Benjamin Button, ganhando vida com o passar do tempo, o que simplesmente não pode ser explicado pela nossa ciência, pelo menos não por enquanto. Em suma, falemos um português bem claro: os meus 14 dias de trabalho foram para o lixo. O fato de Daysi ter tirado a placa da incubadora antes do tempo poderia ter contribuído para tal? Quiçá, mas também podem ter sido inúmeros outros fatores. Eu nunca saberei ao certo. De qualquer modo, não precisava de um culpado, e sim de uma solução.

Na manhã seguinte a esse dia tão conturbado, apresentei meus resultados para o Ramon, meu orientador, e pedi para repetir o experimento. Mesmo concordando comigo quanto à necessidade de repetir tudo devido aos resultados impossíveis obtidos, ele não ficou nada animado, por dois motivos. Primeiramente, seria muito custoso refazer o projeto, já que os ratos, o meio de cultura novo e as nanopartículas de prata são assaz caros. Em segundo lugar, o laboratório estava com outras prioridades naquele momento, e eu seria necessária em um outro projeto. Entretanto, apesar de sua objeção inicial, eu insisti, dizendo que queria muito concluir esse experimento, e que me comprometia a realizar os dois projetos concomitantemente. Assim, Ramon concordou, e lá fui eu recomeçar mais uma série de 14 dias: mais ratos sacrificados, mais 200 pedacinhos de pulmões, mais sábados e domingos no laboratório.

Enfim, depois de fazer leves ajustes para minimizar a chance de erros,  refiz o experimento inteiro por duas semanas e, dessa vez, para o meu deleite, obtive resultados interessantes e plausíveis. Toda animada, preparei uma apresentação em PowerPoint para a reunião do laboratório Brain do dia seguinte. Eu havia me envolvido muito com esse projeto, e estava ansiosíssima para dividir minhas descobertas com o resto do time. Contudo, infelizmente, a reunião foi bem diferente do que eu imaginara: ninguém mostrou o menor interesse pelos resultados.

Como expliquei no post anterior, esse projeto fora discutido inicialmente em julho desse ano, logo passaram-se mais de três meses da elaboração inicial até o dia da apresentação, 17 de outubro. Muita coisa muda em três meses, e o experimento claramente deixara de ser uma prioridade para o laboratório. Caberia a mim apenas aceitar essa realidade, pelo menos por enquanto. Mas não posso negar que fiquei extremamente chateada e decepcionada com toda essa história: foram semanas de expectativa e trabalho intenso em vão.

E foi assim que eu planejei que esse post terminaria. Um pouco melancólico, eu sei, mas sinto que tenho a obrigação de ser realista e mostrar tanto o lado maravilhoso de fazer pesquisa em Harvard, quanto as partes frustrantes e desagradáveis. Às vezes, ganhamos; às vezes, aprendemos. E eu havia aprendido uma lição valiosa: tenha paciência, menina, saiba a hora de controlar sua intensidade.

Fim.

Porém… (Sempre tem um porém.)

Eu não estava super satisfeita com esse post, – quem não prefere um final feliz? – mas saí para escrevê-lo mesmo assim. Peguei meu laptop e fui para um parque perto de Harvard para aproveitar enquanto o clima me permite escrever ao ar livre.

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Estava começando a digitar o título quando chegou um e-mail, O e-mail: era uma colaboradora do Brain lab dizendo que os resultados do meu projeto serão parte de um abstract que será submetido para a conferência anual da American Thoracic Society (ATS 2018), maior congresso de pneumologia da América. UAU. Consegue imaginar o sorriso que eu abri com essa notícia?

Depois dessa, creio que o final mereça ser atualizado, porque não há absolutamente nada melhor do que sonhar alto, trabalhar duro e, de pouco em pouco, conquistar o que você sempre quis.

Até a próxima!

Carol Martines

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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“Eu sei o preço do sucesso: dedicação, trabalho duro, e uma incessante devoção às coisas que você quer ver acontecer.” (Frank Lloyd Wright)

Uma questão de sorte?

Indo atrás de histórias de outros brasileiros que estudam no exterior, conversei com Derek, 25 anos. Aluno de medicina da Unesp, está fazendo um estágio de 1 ano no laboratório do Miguel Nicolellis (que, inclusive, é ex aluno do Band) na Universidade de Duke. Como sua história, para mim, é muito inspiradora e, acima de tudo, reforça a ideia de ”dar a cara a tapa” e sempre sonhar grande (sobre o que eu venho falando bastante ultimamente), achei que valia o espaço de um post.

Nicolellis sempre foi, para Derek, uma inspiração. Já havido lido sobre ele e se inteirado sobre seu trabalho quando, em 2012, o neurocientista foi dar uma palestra na faculdade de medicina de Botucatu, onde Derek estuda.
Ao final, entrou na fila de autógrafos, mas, quando chegou sua vez, pediu para conversar com ele em particular. “Sou apenas um aluno do segundo ano e faço iniciação científica só há 6 meses”, disse ele, receoso, mas sabendo que não tinha nada a perder. A empreitada saiu melhor do que o planejado e Derek manteve contato por e-mail com o laboratório do cientista até 2013, quando, viajando para apresentar um trabalho num congresso, aproveitou e passou para conhecer o lab no qual sonhava, um dia, poder trabalhar.

Derek no campus da Duke University

Derek no campus da Duke University

Contato mantido e interesse demonstrado por ambas as partes, em 2014, Derek,então quarto anista de medicina, resolveu que seria um bom momento para ir. Acreditou que o “Ciências Sem Fronteiras” poderia bancar seu estágio, porém, quando o edital para o ano de 2015 abriu, ele se deparou com uma notícia inesperada e desagradável: não haveria mais bolsas para os EUA para alunos de medicina (assim, sem mais nem menos).

É aí que a história fica interessante. Derek simplesmente não aceitou um não como resposta, não se conformou, e foi lutar por um jeito de realizar o que ele sonhava há tanto tempo. Entrou em contato com fundações filantrópicas brasileiras e norte americanas, mas todas afirmavam que ele não se encaixava em nenhum projeto. Recorreu ao crowdfunding, onde você divulga sua causa e pede dinheiro – a idéia é que muita gente se interesse para que, assim, pequenas doações se tornem significativas. Infelizmente, não conseguiu mais do que 4 mil reais, o que o sustentaria por apenas um mês no exterior.

Desesperado, porém não sem esperanças, decidiu que ia apelar até para celebridades. Cogitou até mesmo tentar contato com David Luis, por ambos serem crentes, achou que houvesse alguma chance de conseguir algum apoio financeiro. Essa parte da história pode parecer insignificante “nossa Carol, mas por que você tá contando isso?”. E eu respondo, sem pensar duas vezes: estou contando isso para mostrar o quanto o Derek, em momento algum, não teve medo de se arriscar, de ouvir um não (ou vários deles), o quanto ele não deixou de acreditar, mesmo quando a batalha parecia perdida (afinal o jogo só termina quando acaba, não é?).

Até que, um dia, foi a um almoço da empresa em que sua mãe trabalha e conheceu Thiago*, um empresário coincidentemente também muito interessado no trabalho do Nicollelis. Contou resumidamente da sua situação e viu que a história tinha causado comoção. Uma semana depois, foi chamado por Thiago para uma reunião. Revoltado com a situação (‘’como um aluno poderia perder uma oportunidade dessas” dizia), se ofereceu para pagar os estudos de Derek no exterior. Derek conta que Thiago, assim como ele, é um cara idealista e sonhador, muito interessado em saúde e educação e com o desejo não de sair do Brasil, mas sim de tornar o Brasil um lugar melhor. Essa reunião aconteceu no começo de janeiro de 2015, aos 47’ do segundo tempo e é assim que Derek está, hoje, há 6 meses estagiando no laboratório do famoso neurocientista. Sim, eu sei que muitos vão me dizer que ele teve sorte e, para vocês, eu respondo com uma famosa frase do Senna: “quanto mais eu treino, mais sorte eu tenho”.

*o nome foi mudado para manter a privacidade

Outono na Nova Inglaterra

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Chegou o outono! Folha secando “de fora pra dentro” (eu pelo menos achei legal pois nunca tinha visto isso no Brasil)

Para quem não sabe, Boston e suas redondezas pertencem a uma região dos EUA conhecida (informalmente) como a “Nova Inglaterra”… isto é devido tanto ao background histórico (muitas destas cidades foram colonizadas por ingleses) quanto ao contexto atual: o clima, o jeito das pessoas, muitos traços de cultura e várias outras coisas que remetem à “Inglaterra Clássica”. Uma das coisas que mais me surpreendeu por aqui é como as pessoas gostam de manter as tradições e, ao mesmo tempo, incorporá-las aos novos costumes. Não sei porque, mas especialmente agora no outono várias destas tradições específicas vieram à tona. Decidi fazer um post sobre tudo isto pois, além de apresentar algumas “curiosidades” que (assim como eu) muitos brasileiros não sabiam que existiam, também acredito que estes são os tipos de detalhes que ninguém vai parar pra contar aos outros, a menos que exista um blog sobre o seu cotidiano e suas experiências – o que é o caso rsrsrs… Estas experiências são o tipo de coisa que fazem um intercambista “abrir a cabeça” e descobrir a existência de um mundo com coisas que jamais passaram pela sua cabeça.

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Apple Picking!

Há alguns fins de semana atrás participei de uma das atividades favoritas dos moradores da “Nova Inglaterra” no outono: o “apple picking”! Eu nunca tinha ouvido falar disto no Brasil…mas basicamente o “apple picking” (traduzido como “colheita das maçãs”) consiste em reunir os amigos para – obviamente – colher maçãs (rsrsrs). Num primeiro momento parece algo bem estranho, mas na verdade é bem divertido. Nesta época da colheita, os produtores de maçãs abrem suas fazendas para visitação e consumo. Na entrada, você paga pelo tamanho da sacola na qual você vai colocar as maçãs que colher pra levar e, enquanto estiver colhendo, pode comer quantas maçãs quiser. É bem legal, há inúmeros tipos diferentes de maçãs e é uma experiência única comer uma fruta que acabou de ser colhida naquele exato momento, além de se divertir com seus amigos.

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Crianças brincando nas abóboras

Além das maçãs, é também época das abóboras. Há abóboras em TODOS os lugares. Abóboras dos mais diversos tipos e tamanhos. Além do famoso “pumpkin craving”, as crianças também amam brincar com as abóboras.

 

 

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Caramelized apple cider donuts

Além do divertido “apple picking”, também tive a oportunidade de experimentar os tradicionais e deliciosos “caramelized apple cider donuts”. O “apple cider” é tipo um suco de maçã mais concentrado (já que há TANTA maçã, os americanos têm que inventar vários jeitos de dar vazão a elas). Os donuts normais já são uma delícia…mas estes são ainda mais especiais, pois são regados a apple cider e cobertos por uma calda de caramelo deliciosa. É uma sobremesa “sazonal” (assim como o Panettone no Brasil).

Conheci também as Alpacas – animais bem estranhos que parecem uma mistura de girafa com poodle:

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Como se não bastassem tantas experiências novas e diferentes quanto a programas e comidas, algo que me chamou MUITO a atenção foi a beleza espetacular da paisagem. Além do clima que, pra mim, é perfeito (um friozinho gostoso, “a la Campos do Jordão”), as folhas ficam em tons bem vivos de amarelo, laranja e um vermelho-rosado, mas são cores que eu nunca tinha visto em folhas no Brasil. No fim de semana fui para um acampamento que ficava mais ao norte (onde as árvores começam a mudar de cor mais cedo) e, lá, presenciei uma das paisagens mais bonitas que já vi em toda minha vida. Aí vão algumas fotos pra mostrar do que eu estou falando:20151010_174419-01FB_IMG_144461794622320151010_174833FB_IMG_1444715611045

É uma beleza estonteante!

Bom, se existe apple picking, pumpkin craving, apple cider donuts e folhas vermelhas na “Inglaterra Clássica” eu não sei… mas sei que isto tudo na Nova Inglaterra faz este lugar ser apaixonante!

Do mundo a Harvard

Tenho recebido algumas perguntas do tipo mas, Carol, eu não faço a mesma faculdade que você, há outros meios de chegar em Harvard/nos EUA?; Há alternativas se a minha faculdade não tiver nenhum programa como a sua?. Pensando nisso, resolvi ir atrás de outros brasileiros que moram aqui nos Estados Unidos, que fazem ou fizeram intercâmbio, não só em Harvard, mas em outras faculdades e contar a história deles.

Vou contar, nesse post, a história de dois meninos que, cada um da sua forma, acabaram em Harvard.

Yuri, hoje com 28 anos, começou cedo seu percurso até aqui e jamais imaginou que o desfecho seria esse. Joga tênis desde os 13, quando morava em uma academia no interior de São Paulo. Em 2004, com 17 anos, conseguiu uma bolsa para jogar e morar em Murray (Kentucky). Começou, então, seu undergrad, com major em biologia e minor em computer sciences.

Yuri jogando tênis pela sua universidade

Yuri jogando tênis pela sua universidade

Aqui cabe um parênteses para explicar, mais ou menos, como funciona o sistema de ensino nos Estados Unidos. Acabando o high school, o próximo passo é fazer o College, onde você escolhe um major e um minor. São 4 anos e, depois disso, você pode ou não escolher fazer um grad. Se essa for a escolha, você tem que passar pelo processo de seleção de novo. Com medicina, por exemplo, são 4 anos de undergrad e 4 de grad (a medical school propriamente dita).

Ele conta que, no final do 3º ano, já sabia que não seguiria a carreira de tenista. Quando se formou, foi para a Universidade da Flórida fazer um P.H.D. em bioquímica. Durante o P.H.D., percebeu que o assunto “ doenças e sintomas” lhe trazia muito mais interesse do que bioquímica propriamente dita. Decidiu, então, que queria entrar na faculdade de medicina. Assim, começou a se dedicar a certos pré requisitos que ele sabia que dele seriam exigidos para ter sucesso.

Aqui cabe outro parênteses. O sistema de seleção deles é bem diferente do nosso. Não existe o tão temido vestibular. Existe, sim, uma prova, o MCAT, mas não é a única coisa. É um sistema mais completo, em que seu histórico escolar é analisado, assim como atividades extracurriculares. Um personal statement (uma espécie de carta motivacional) também é exigido. A fase final é uma entrevista. No caso de Harvard, 7 mil pessoas, mais ou menos, se inscrevem, das quais 900 em média são chamadas para entrevista e, apenas 160 são selecionadas.

Yuri conta que, para se preparar, se dedicou a atividades como trabalho voluntário e acompanhar médicos no hospital, mas acha que o fato de ter feito um P.H.D. ajudou muito, pois, segundo ele, o foco da Harvard Medical School é mais medical research (pesquisa) e não tanto primary care (clínica) Na entrevista, conta que foi valorizado o “de onde ele veio e onde ele chegou”, o salto que ele deu. Hoje ele está começando o segundo ano dos 4 da medical school, se considera adaptado e não pensa mais em voltar ao Brasil. Quando perguntado sobre as dificuldades, diz que, no começo, pensou muitas vezes em desistir, principalmente quando morava em Kentucky, onde acredita que havia bastante preconceito.

Igor, 22 anos, nasceu em Vitória e, atualmente, mora no Rio de Janeiro, onde faz medicina na Universidade Federal Fluminense. Terminou o 3o ano da faculdade e conseguiu uma bolsa pelo “Ciências Sem Fronteiras” para vir estudar nos Estados Unidos. Pelo programa, não é possível escolher a universidade, apenas o país em que se vai estudar; Igor foi selecionado para passar um ano em Reno, na Universidade de Nevada.

Aqui, era aluno de undergrad, então não podia escolher matérias da medical school. Como sempre se interessou por saúde pública, mas nunca teve muito espaço para se dedicar a tal no Brasil, achou que aqui seria uma boa oportunidade. Escolheu, então, matérias como Introdução à saúde coletiva, epidemiologia e ‘American health system: management and admnistration’.

Aqui cabe, também, um parênteses para contar um pouco do que ele me contou sobre o undergrad. É bem diferente do sistema brasileiro; aqui a carga horária em sala de aula é menor e os professores pedem que os alunos já leiam o conteúdo do dia antes, para que cheguem preparados para discussões em sala de aula. O guideline diz que para cada hora de aula em sala de aula é exigido 2 horas de trabalho/estudos em casa.

Igor na Universidade de Nevada

Igor na Universidade de Nevada

Chegando em maio, quando acaba o ano letivo, o “Ciências Sem Fronteiras” tem como opção manter as bolsas para um estágio de verão. A questão é que o programa não ajuda os alunos a encontrar um estágio, apenas fornece as bolsas, cabendo ao aluno conseguir o estágio. Entrou em contato com professores, secretarias de saúde e pesquisadores e foi indicado pelo seu professor de epidemiologia, por ter se destacado no curso, para fazer um estágio de verão em pesquisa aqui em Harvard (uma revisão sistemática sobre aids nos adolescentes no Brasil).

No final da entrevista, contando um pouco sobre suas impressões e sentimentos, Igor relata que nunca se imaginou chegando onde chegou e que, talvez a sua maior lição seja que “tendo iniciativa dá para conseguir muita coisa”. Disse que aprendeu a acreditar, a ser proativo, a “dar a cara a tapa”. “E dai que nenhum amigo seu tá fazendo isso?” disse ele sobre a coragem de se arriscar, ao que completou com “se você quer chegar longe, tem que pensar antes da massa, ter atitude e não ter medo de quebrar a cara”. No fim, completou a entrevista com uma frase que eu sempre uso “você cria suas oportunidades”.

e, depois, em Harvard

e, depois, em Harvard

São duas histórias bem diferentes mas com uma mensagem parecida: é preciso acreditar, se arriscar, ter iniciativa, sonhar grande. Nunca deixem que te digam que é difícil demais. A gente precisa desistir do medo; até para errar é preciso coragem. Ou como disse Mia Couto: “Uma coisa eu aprendi na vida, quem tem medo da infelicidade nunca chega a ser feliz”.

Vestibular e humildade

Pois é, pessoal…

Para aqueles que estão no 3o ano, ja já começam as provas dos vestibulares (desculpa, sei que vcs já sabem e não precisam que ninguém fique lembrando disto toda hora hehehe)…Para aqueles que estão no 1o e 2o ano, ainda não tem vestibular (talvez alguns treineiros), mas certamente é algo que terá de ser encarado nos próximos anos e é bom saber o que fazer para estar preparado, não é mesmo? Mas independente do ano ou do vestibular, eu queria deixar um conselho pra vocês que recebi de um colega meu do Band no meio do 3o ano que me marcou muito e que foi (e ainda é) muito útil pra mim…ele me disse: “humildade, Sylvia… humildade é a palavra”. Quando ele me disse isto eu não entendi muito bem a profundidade daquele conselho. Acabou que naquele ano ele passou direto na Pinheiros e eu não (fiz 1 ano de cursinho). Fui entender (e estou entendendo) o significado de tão bom conselho apenas algum tempo depois e acredito que o fato de eu não ter incorporado isto antes de prestar vestibular de certa forma influenciou meu desempenho nas provas. É por isto que considero importante compartilhar estes aprendizados com os alunos antes da batelada de provas começar.

É inegável o fato de que os alunos do Band fazem parte de uma parcela muito privilegiada da sociedade. É um Colégio forte, com tradição, excelentes professores, que fornece recursos e oportunidades quase que inesgotáveis. Porém, é caro também. Por conta disto, geralmente a maioria dos alunos que tem condições de estudar no Colégio tem uma estrutura familiar bem estabelecida por trás que favorece e valoriza a educação. Tomando um panorama geral, há um favorecimento de todo um “suporte de vida” por trás do estudo de um aluno do Band, o que favorece a qualidade do seu estudo e o impulsiona a conseguir se sobressair intelectualmente. Ou seja, o aluno do Band em geral tem muitos outros recursos “extra-curriculares” que o suportam no seu desenvolvimento no estudo. Mas isto pode criar na cabeça do aluno uma falsa impressão de que ele é mais do que outros…mais inteligente, mais bem capacitado, um “vencedor” da competição. Porém, além da lição de “saber perder” (dado que certamente não vamos vencer sempre), é também importante que cada um tenha a noção e a sensibilidade em enxergar que nem todo mundo foi igualmente favorecido para que conseguisse chegar intelectualmente onde você chegou e que o desenvolvimento intelectual não faz uma pessoa melhor ser que outra. Algumas pessoas, mesmo sem tantas condições quanto um aluno do Band, conseguem chegar ainda mais longe intelectualmente e, mesmo que não cheguem, isto não faz de ninguém melhor do que ninguém. Vale lembrar também que não é apenas o retorno financeiro que é importante como reconhecimento de esforços e dons. Estes são apenas alguns dos motivos pelos quais os alunos do Band têm de prestar atenção e tomar cuidado para manter a humildade. Não é difícil nem incomum enganarmos a nós mesmos ao nos “deixar convencer” que somos melhores que outras pessoas baseado-nos apenas no bom desempenho acadêmico. É sempre bom reiterar que isto não é tudo na vida.

Não apenas em relação aos outros, mas um “ego inflado” também pode prejudicial a si mesmo. Neste quesito, pode ser que haja uma certa confusão entre os princípios que envolvem a “humildade em relação a si mesmo” e a “autoconfiança”. Deixe-me explicar melhor tomando um exemplo prático: quando vamos prestar vestibular, fazer uma prova ou mesmo desempenhar alguma tarefa no âmbito profissional, às vezes é difícil saber exatamente qual postura tomar em relação ao que achamos de nós mesmos e o desafio que temos a enfrentar. Se não acharmos que somos capazes (falta de “autoconfiança”), ficamos inseguros e não conseguimos completar a tarefa com excelência ou até mesmo desistimos. Se acharmos que somos capazes demais (falta de “humildade”), subestimamos os desafios e corremos o risco de não nos preparamos o suficiente. Qual é a melhor postura então? A resposta seria: ter humildade E autoconfiança. Eles, a princípio, podem parecer “conflitantes”, mas não são. A questão está na definição de humildade e autoconfiança…observe que a aplicação da humildade não é “não acharmos que somos capazes”, nem a aplicação da autoconfiança é “acharmos que somos capazes demais”. Na verdade, temos que ter autoconfiança no que se refere a estar seguros em darmos sempre o melhor que pudemos e, ainda assim, temos que ter humildade no que se refere a reconhecer que, ainda assim, não sabemos tudo e que sempre há algo a mais a aprender.

E porque EU estou falando isso? Fiz Band, um colégio considerado de “elite”. Passei no vestibular de medicina da USP (um dos mais concorridos do país). Estou em um intercâmbio em Harvard (uma das melhores universidades do mundo). Estes são os fatos que todos podem ver. Tá, e o que isto quer dizer? Vou começar falando o que isto não quer dizer: não quer dizer que eu seja mais inteligente do que ninguém, nem uma pessoa melhor, nem algo intangível. E o que isto quer dizer? Quer dizer que, graças a Deus, eu fui uma pessoa muito privilegiada por receber muitas oportunidades e aproveitei. Sim, estudei bastante. Mas foram me dadas incontáveis fontes de recurso e apoio para tal. Eu não teria chegado até aqui se não tivesse me esforçado, mas apenas o meu esforço e minha capacidade não seriam suficientes se estivessem isolados. Além disso, sempre – digo, SEMPRE – vai ter alguém com desempenho melhor que o seu em algo que você se considera bom. Ou seja, a conclusão disto tudo: devemos, sim, fazer a nossa parte e nos esforçar para fazer tudo o melhor que pudemos…mas devemos também reconhecer que nem sempre “apenas” isto é suficiente e que ter tantas oportunidades e recursos de suporte não faz de nós pessoas melhores que as outras. Devemos achar um equilíbrio de modo a não subestimarmos as nossas provas e os nossos desafios, nem superestimarmos a nós mesmos. Portanto, aprendamos todos desde já (seja no 1o, no 2o, no 3o ano, em qualquer outra fase da vida ou área de atuação): humildade… humildade é a palavra!

“Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana…” Carl Jung

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Maratona, Baseball, Futebol Americano ou o que estiver por vir..

Como eu já disse antes, eu amo esportes. Todo e qualquer tipo. No Brasil, sempre acompanhei futebol e joguei handebol, mas não muito mais do que isso, acho que por falta de oportunidade mesmo. Adoro competições universitárias, topo jogar qualquer coisa para qual me convidarem, mas acompanhar mesmo, só o Brasileirão e a Libertadores. Jogar mesmo, só handebol no colégio e na faculdade.

Aqui em Boston, é muito diferente.

Já fiz um post sobre esporte universitário, sobre como é valorizado, bem organizado, levado a sério.

O esporte profissional é assim aqui também.

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Fenway Park

No Brasil, quando perguntam “Pra qual time você torce?” a resposta que vem na cabeça das pessoas, geralmente, é um time de futebol. Aqui não. Pode ser de baseball, de futebol americano, hockey, basquete, até mesmo futebol. Cada época do ano é temporada de um esporte. Agora, por exemplo, está acontecendo a de baseball e está para começar a de futebol americano. E as pessoas realmente tem mais de um time.

Fora isso, é muito legal o clima dos jogos. Posso falar melhor sobre o de baseball, que é o esporte que eu venho acompanhando, já que o Fenway Park (casa do Red Sox, time de Boston) fica do lado da minha casa.

A rua da entrada do jogo é fechada próximo ao horário de início e só entra na rua quem apresenta o ingresso. É tudo MUITO organizado e muito pacífico. Adoro ver como torcedores de times rivais torcem lado a lado. Isso torna o esporte muito mais bonito. Isso, também, facilita que os jogos sejam locais para famílias, crianças, idosos. É um clima de festa, muito gostoso mesmo.

No dia do superbowl, evento que faz os EUA pararem, o clima era o mesmo. Os Patriots, time de Boston, estavam na final, então fomo assistir num bar. Lotado, cheio de torcedores fanáticos. Até aí, como a gente esta acostumado. Mas o curioso é que metade de um bar torcia pros Pats e a outra metade, pro time rival, e não aconteceu uma briga sequer.

Outro ponto que eu acho diferente aqui em Boston (e talvez isso seja uma particularidade da cidade e não do país) é o quanto as pessoas valorizam se exercitar. Tem academias por toda parte, mas até ai, nada de novidade também.

Pista pública de atletismo

Pista pública de atletismo

O que me chama a atenção é a quantidade de atividade outdoor que as pessoas praticam. Talvez por ter muitos parques, muitas pistas públicas de atletismo.. Talvez por que quando o inverno vai embora, todo mundo queira aproveitar o dia lá fora.. Talvez pela segurança que possibilita que as pessoas fiquem do lado de fora sem medo.. Talvez seja um pouco de tudo, não sei ao certo.

Sei que tem gente correndo (e fazendo outras atividades) na rua, nos parques, na beira do rio em qualquer hora do dia (ou da noite, sério, sempre tem gente correndo de madrugada).

 

Sei também que Boston é famosa pela sua maratona, uma das mais importantes do país (ao lado da de Chicago e NY) e, também, do mundo. É a maratona mias antiga; sua primeira edição foi em 1897, um ano depois do primeiros jogos Olímpicos, em 1896 em Atenas. Talvez por isso, também, corrida seja algo tão praticado aqui. Tem até um tour histórico da cidade feito correndo, chama “Freedom Trail Run”. A Freedom Trail é um tour tradicional que passa a pé pelos pontos históricos da cidades, e a Freedom Trail Run é uma alternativa a ela, na qual as pessoas correm com um guia de um ponto histórico até o outro.

Freedom Trail Run

Freedom Trail Run

Enfim, amo essa cidade e amo o quanto ela tem me proporcionado conhecer novos esportes. De stand up paddle no Charles River, a corrida no parque, de jogo de Baseball do Red Sox aos jogos dos times de Harvard, estou adorando tudo…

Live free or die!

Final de semana passado eu tive uma das experiências mais incríveis da minha vida. Parece que eu estou exagerando né ? Sempre animada com tudo, adorando tudo.. Mas, gente, final de semana passado foi INCRÍVEL: fui fazer camping and hiking.

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nascer do sol – 4:40 am

Hiking, para os americanos, se refere a longas, vigorosas (põe vigorosas nisso) caminhadas feitas em trilhas e é um dos esportes queridinho dos norte americanos.

Desde que eu cheguei aqui, ouvi muitas vezes dizer que tinhamos que ir fazer hiking, não podíamos deixar passar essa oportunidade. Então esperamos o frio passar (passou, nem acredito!!!) e resolvemos ir.

Mas para onde? Como? O que levar? Como se preparar?

Fomos pesquisar as respostas para essas perguntas e descobrimos que há duas formas de se acampar: backcountry/primitive camping e campground. Campground é uma área reservada para isso, normalmente perto da estrada, com alguma estrutura, como banheiro, mesa, entre outros. Primitive country é aquele camping pra valer, no meio do mato, sem infraestrutura alguma, você por você mesmo. Depois de pensar muito (mentira, na verdade, não tivemos dúvida alguma), escolhemos o camping roots.

nossa barraca

nossa barraca

Compramos barraca, saco de dormir, uma faca (por que vai que né?), lanternas, mochilas grandes, purificadores de água, um mapa (mapa, eu?) escolhemos o lugar e fomos.
White Mountains, New Hampshire – é lá que fica a trilha mais antiga usada para hiking dos EUA.

Chegamos na cidade e a primeira parada foi o Tourist Information, uma casinha onde você pode tirar suas dúvidas sobre a trilha. Logo me dei de cara com a frase “Live Free or Die” e, nesse momento, tive certeza que estava prestes a ter uma experiência, no mínimo, exótica.

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Mais meia hora de carro até o início da trilha..

E que lugar MARAVILHOSO. E que final de semana INCRÍVEL.

mochila de 15 quilos nas costas

mochila de 15 quilos nas costas

Andamos 11 milhas com mochilas de 15-20 quilos nas costas. Ficamos sem água de sábado 6 da tarde até domingo 10 da manhã. Passamos horas sem encontrar mais nenhuma outra pessoa. Esquecemos o repelente e tomamos picadas de todos os insetos possíveis. Derrubei meu celular na cachoeira e perdi as fotos. Dormimos no chão com uma raiz de árvore em baixo de nós. Jantamos miojo e marshmallow. Encaramos uma subida de 2 milhas com as costas doendo. E se eu gostei? Eu amei. Encontramos um rio de água transparente depois de ter sonhado com água a noite toda (e não é modo de dizer). Acordamos com o som dos passarinhos.

mapa, eu ?

mapa, eu ?

Dormimos olhando estrelas. Vimos o por do sol e o nascer do sol sem nenhum barulho ao fundo. Ficamos um final de semana sem usar o celular (milagre né). Não nos preocupamos com nada a não ser encontrar a trilha no meio de uma paisagem estonteante. Vimos cobra, sapo, peixes, pássaros. Superamos muitos limites pessoais. Vivemos um final de semana para nunca mais ser esquecido, algo diferente de tudo que eu já tinha experimentado.

Eu amo esportes, amo desafios, amo natureza. Esse final de semana juntou tudo isso – e com um plano de fundo maravilhoso.

E quando acabou, depois de 48 horas sem wifi, sem sinal de celular, sem banho, sem energia elétrica, tendo que carregar tudo aquilo que você vai precisar, eu só conseguia lembrar da frase `Live free or die´.

enfim, água

enfim, água

E que vontade de fazer tudo outra vez…

Sobre a imprevisibilidade da vida

Eu nunca quis fazer intercâmbio. Verdade, nunca mesmo. Desde o Band que minha mãe investe, até então sem nenhum sucesso, na missão de me convencer a favor do intercâmbio. Foi então, no começo de 2014, que, depois de um diagnóstico de hérnia de disco e outro de endometriose com indicação cirúrgica, eu mudei de ideia. E qual foi o motivo? Simplesmente porque eu percebi que a vida é imprevisível, de um jeito assustador, mas muito bom.

Eu não queria mudar de país porque achava minha vida ótima no Brasil (que discurso vergonhosamente comodista, eu sei). Mas ai, eu percebi que, por melhor que as coisas estejam e, por mais que você se programe, se organize e se esforce para controlar a sua vida, a vida é quase totalmente incontrolável. Tem coisas que, por mais que a gente queira, não estão nas nossas mãos e só cabe a nós aceitar (e, não, isso não é um discurso comodista).

Foi assim com os meus diagnósticos: não dependia de mim. E foi ai que eu percebi que a gente não tem ideia do que pode acontecer com a gente amanhã e que, por isso, a gente deve aproveitar toda e qualquer oportunidade ainda hoje. Também é por isso que eu deixo um conselho aqui: não se fechem a nada. Hoje pode não fazer sentido, mas, amanhã, quem sabe..

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E foi por isso, mais uma vez, que ontem eu terminei o dia indo velejar.  Porque a vida é totalmente imprevisível. Eram 3:30 da tarde e eu já tinha, como raramente acontece, terminado o trabalho aqui no laboratório. Fui na cafeteria tomar um café com uma amiga antes de ir pra casa, quando o cara da mesa do lado fala “oi, eu lembro de você da palestra da semana passada”. Começamos a conversar, eu, ele, a minha amiga e a amiga dele. Quando eles foram se despedir, ele disse “tchau, estamos indo velejar”, ao que eu respondi “que legal ! quero muito experimentar um dia”. Ao que ela, por sua vez, respondeu “o que vocês vão fazer agora?” e nos convidou para ir junto. Eu, de cara, topei. Velejamos por duas horas no Charles River (o rio que divide Boston de Cambridge) e, depois, ainda fomos jantar num Pub com eles. E foi ai que eu me relembrei o quanto a vida é imprevisível. Ontem tinha tudo para ser mais uma quinta feira normal, mas eu terminei meu dia velejando num lugar maravilhoso com duas pessoas teoricamente desconhecidas.

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E, na verdade, essa é a graça de tudo. Perceber que, do nada, tudo pode mudar, pode, sim, dar um medinho. Mas, no fundo, é isso que torna a gente vivo de verdade. E, se eu posso deixar um conselho pra vocês é: não se fechem a nada, deem pelo menos a oportunidade de conhecer, se deixar gostar e experimentar, porque a vida reserva pra nós muito mais do que a gente imagina, só cabe a nós nos permitir (meu momento clichê, me deixem). Eu sei, eu sei, se conselho fosse bom, eu teria ouvido minha mãe e feito intercâmbio bem antes, mas não ficaria em paz se eu não deixasse esse conselho por aqui.

Independência

Estava até agora me segurando para não fazer um post sobre viagens no intercâmbio. Sei lá, achei meio superficial. Então resolvi fazer um post mascarado sobre viagens, com o pretexto de falar sobre independência.

Não da para negar que um dos meus aspectos preferidos sobre fazer um intercâmbio é a independência. Morar numa casa que não a dos seus pais (desculpa mãe, desculpa pai, eu amo vocês, não é nada pessoal) é muito legal. Voltar tarde numa quinta feira sem ter que falar eu estava fazendo um trabalho na casa de uma amiga (eu nunca faço isso pai, é só um exemplo) é impagável. Receber os amigos na quarta a noite em casa para tomar uma cervejinha e ver o jogo do são paulo (eu nem bebo – e isso é verdade – mas poder oferecer uma cervejinha na hora do futebol já está valendo) é demais. Sair sexta e só voltar sábado na hora do almoço (eu não faço isso, sou meio coxinha mesmo, mas daria para fazer se eu quisesse) é uma possibilidade para o final de semana. Todas essas são opções válidas, apesar de que eu acabo ficando só com o jogo do são paulo e uma pipoquinha mesmo.

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E as viagens, que que tem a ver com isso? Eu amo viajar e duvido que a maior parte das pessoas não ame também. Mas a sensação de organizar toda a sua viagem, do seu jeitinho, é muito legal. Eu sei que é possível fazer isso fora do intercâmbio também, mas no intercâmbio a chance é bem maior.

Voltei da Disney ontem de madrugada. Eu ja tinha ido para a Disney antes, com meus pais, e tinha sido ótimo. Dessa vez foi diferente, nem melhor, nem pior, só diferente. Só para tentar exemplificar: ontem eu e minha amiga estavámos tentando arrumar um jeito de ir para o aeroporto gastando o menos possível (sim, sem seus pais você fica mais mão de vaca também, faz parte). A gente resolveu fazer aquele tipo de economia que meu pai diria ser “economia porca” sabe? Aquele tipo que da um trabalhão, que tem altas chances de dar errado e que você acaba economizando super pouco no final. Para resumir a história, a ideia era pegar um transporte da Disney que ia nos levar até um hotel que parecia ser mais perto do aeroporto. Mas a bateria do nosso celular tinha acabado, não tinhamos certeza da localização do hotel, já estávamos em cima da hora pro voo, ou seja, estávamos sem garantia nenhuma de que daria certo. Nessa hora a gente se olhou e falou “esse é o tipo de momento que nossos pais falariam ‘para de inventar história'”. Mas e dai? Nossos pais não estavam la, então a gente fez do nosso jeito. Deu certo, foi engraçado e economizamos os dólares que queríamos economizar.  Isso se chama independência (meu pai diria que isso se chama inconseqüência juvenil, mas tudo bem) e, mesmo nas situações pequenas situações, é um sentimento muito bom.

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Ainda sobre viagens, não posso deixar de falar, apesar de ser obvio: uma das partes muito boas do intercâmbio é poder viajar pelo país nos feriado e finais de semana. Já fui para Disney, NY (fica a só 4 horas de Boston de ônibus) e a próxima parada vai ser Las Vegas. As passagens são muito baratas e os hotéis também, se programado com antecedência.

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De qualquer forma, melhor ainda, é a independência de escolher quando e pra onde eu vou viajar. Precisa a fechar o post como eu comecei né? mascarando o tema viagens sob o tema independência.

Sua palavra basta !

Eu sei que eu só tenho falado o quanto tudo aqui está ótimo, mas vou ter que exaltar os americanos mais um pouco. Sim, eu sou fã dos EUA, mas eu sou sensata o suficiente para saber criticá-los. No entanto, não é isso que eu vou fazer hoje.

Hoje, quero compartilhar com vocês algumas das pequenas diferenças do dia-a-dia de não estar vivendo em São Paulo, mas em Boston.

Que os carros param pros pedestres, acho que todo mundo já sabe, mas não da para deixar de comentar. Aqui, a prioridade é realmente do pedestre.
Outra coisa que me impressiona é como os lugares são limpos e como as pessoas contribuem para que eles permaneçam limpos. Quando nós saímos do jogo de basquete, olhei ao redor e todos estavam recolhendo seus lixos. Na academia, vira e mexe eu vejo o personal trainer ajudando a levar as toalhas sujas para a lavanderia.
Por aqui, provavelmente por mão de obra barata ser escassa e cara, as pessoas sabem se virar. Assim que nos mudamos, resolvemos comprar um armário. Obviamente, tinhamos que instalá-lo. Não preciso nem dizer o quanto não deu certo (em São Paulo, estou acostumada a contratar pessoas para fazer esse tipo de serviço para mim). Depois de muito sofrimento, a esposa do coordenador do nosso programa de intercâmbio, a qual tem 80 anos, disse que nos ajudaria. E não é que ela conseguiu e ainda nos deu a lição “nós americanos sabem nos virar”

Aqui, o serviço ao consumidor funciona de verdade. Fiz uma compra pela internet e eles debitaram duas vezes do meu cartão. Domingo a tarde mandei um email explicando e 10 minutos depois recebi a resposta “para nós só consta uma cobrança, mas estaremos devolvendo o dinheiro”. Dito e feito: no dia seguinte, o dinheiro estava de volta na minha conta.

IMG_3842E acho que é isso o que mais me impressiona: a sua palavra basta! Você não precisa mostrar a carteirinha de estudando no cinema para comprar meia entrada, mas apenas dizer que você é estudante. O motivo? Talvez por que aqui as pessoas não queiram sempre dar uma de esperto ou tirar vantagem da situação? Não sei, só sei que eu acho incrível!