Despedidas

Olá! Seja muito bem vindo ao nosso penúltimo encontro!

Esse é o primeiro post que eu realmente não quero escrever. Relutei muito em começá-lo. Por mais que eu adore escrever e tenha muito a dizer, é muito difícil colocar as palavras no papel, porque estas significam um fato que eu estou tentando insistentemente ignorar: o fim chegou. O fim da experiência mais linda, transformadora e rica da minha vida. Tão rica que tenho certeza que ainda não compreendo a totalidade da dimensão que tudo que eu vi, vivi e senti esse ano representará no meu futuro. Entretanto, antes de mergulhar de vez no futuro, algumas despedidas fazem-se necessárias.

1

O último mês na Harvard University foi intenso. Com a iminência da data da apresentação e da entrega do relatório final, o time do laboratório Brain passou a se reunir com uma frequência cada vez maior. Na apresentação final, marcada para o dia 5 de dezembro, cada um dos 8 alunos do programa USP-Harvard deveria apresentar seu trabalho para a faculdade inteira. Tal evento carrega grande importância para cada um dos laboratórios nos quais os alunos pesquisaram, pois é uma forma de representar, bem ou mal, o nome da equipe inteira. Desse modo, sendo o meu chefe o Dr. Joe Brain, um dos pesquisadores mais prestigiados do mundo na área de toxicologia pulmonar, o mínimo esperado de mim era uma apresentação nada menos do que impecável. Por mais que não seja dito explicitamente, há indubitavelmente uma rivalidade entre os laboratórios, logo, cada chefe tenta preparar o seu aluno do melhor modo possível. Mesmo ciente disso, impressionaram-me o empenho e o tempo que o Dr. Brain e os demais pesquisadores investiram no aperfeiçoamento da minha apresentação. Tive que começar a prepará-la mais de 45 dias antes da data marcada, e nos reunimos mais de 8 vezes para garantir que cada detalhe estivesse perfeito. A cada reunião, eu apresentava novamente, corrigindo os erros apontados anteriormente. Depois, vinha a simulação das perguntas que eu poderia receber da plateia, e, caso minha resposta não fosse satisfatória, pensávamos juntos em uma melhor. Ninguém jamais melhorou praticando menos, não é mesmo?

A entrada do departamento

A entrada do departamento

Quando chegou o grande dia, modéstia a parte, eu estava tão bem preparada que nem senti aquele friozinho na barriga antes de subir ao palco. Cada palavra saiu exatamente como planejado, ou até melhor, e o mérito é todo do maravilhoso time Brain. Assim que concluí, aplaudida, mãos levantaram-se no ar, e aqueles cientistas de Harvard começaram a me fazer perguntas, a maioria das quais já havia sido prevista e praticada. Quando respondi a última, Ramon, o “segundo em comando” no meu laboratório após o Dr. Brain, estava praticamente pulando de satisfação no fundo da sala. O que mais posso dizer? Foi muito muito legal. Sabe aquela sensação maravilhosa de missão cumprida?!

Apresentando!

Apresentando!

Ademais, o relatório final não foi muito trabalhoso – acho que, depois de um ano de blog, já deu para notar que eu gosto de escrever. A única parte monótona, porém necessária, foi finalizar o arquivamento de todos os dados e a organização de cada um dos meus 1500 pedacinhos de pulmão congelados, a fim de garantir que todos no laboratório, incluindo os alunos do programa USP-Harvard do ano que vem, saibam onde cada coisa está.

Pequena parte das caixas onde guardo congelados meus experimentos

Pequena parte das caixas onde guardo congelados meus experimentos

Me despedi de cada uma das pessoas com quem tive o prazer de conviver na Harvard School of Public Health com o coração apertado, mas o que eu ouvi de cada uma delas antes do adeus foi a certeza de que claramente não as decepcionei. Palavras de carinho, gratidão e a garantia de que as portas sempre estarão abertas. Até a única pessoa do lab que não ajudava ou estimulava minha pesquisa em Precision Cut Lung Slices (porque, segundo o que ele dissera em fevereiro, aquela técnica nunca funcionaria) perguntou se poderia usar a minha apresentação para dar uma palestra no MIT (Massachusetts Institute of Technology). Sorri por fora e disse que sim, claro que sim. Mas o sorriso por dentro era ainda maior. Acho que a técnica funciona, não é mesmo?

Seguindo a linha das despedidas, o John não poderia ficar de fora. John Harvard, lembra-se dele? Contei a história de sua estátua em um dos primeiros posts do blog: segundo a lenda, tocar seus pés dá sorte e te concede um pedido. Realizei esse ritual 3 vezes. Na primeira, no verão de 2015, pedi para voltar para a Harvard University algum dia, como aluna e não turista. Na segunda, no gélido janeiro desse ano, eu só agradeci pela realização do meu sonho. Na terceira e última vez, ontem, um dia de dezembro igualmente congelante, eu só me despedi, com o coração transbordando de gratidão. Não um “Adeus”, e sim um “Até logo. Até breve.”

A primeira, a segunda...

A primeira, a segunda…

e a terceira vez aos pés de John Harvard

e a terceira vez aos pés de John Harvard

Sou péssima em despedidas, e se com uma estátua já foi sofrido, o que dizer dos amigos que fiz esse ano? Não pretendo me estender nessa parte, porque prefiro dizer a cada um, pessoalmente e com os olhos cheios d’água, o que significam para mim. Ganhei irmãos, não tenho a menor dúvida disso. Felizmente, os laços que criamos e as aventuras que vivemos juntos foram tão marcantes que sinto que nunca estarei efetivamente me despedindo. De certa forma, sempre os levarei comigo, tanto os amigos brasileiros quanto os que permanecerão nos Estados Unidos.

7

8

9

10

Entretanto, há uma coisa que não poderei levar comigo, e, acredite se quiser, esse é o adeus mais doloroso: como me despedir de Boston? Esse ano foi absolutamente épico, mas foi esse lugar encantado que fez toda a magia acontecer. Sou mera coadjuvante, quando o cenário é protagonista. Ah, Boston… Minhas amigas dizem que eu falo de Boston do mesmo modo que uma adolescente apaixonada fala do novo namorado, e sou obrigada a concordar. Quero te pedir licença, então, para me derreter só mais um pouquinho por essa cidade.

Nascer do sol no Charles River

Nascer do sol no Charles River

Boston está longe de ser um lugar óbvio, e por óbvio eu me refiro a Nova York, Paris, Londres: cidades tipicamente incríveis. Boston não, e é aí que reside parte da magia. Provavelmente, se um dia você tiver o prazer de visitar a capital de Massachusetts por alguns dias, certamente você achará a cidade linda (e fria). Você irá passear pela sofisticação da Boylston Street, tirar milhões de fotos no Public Garden, contagiar-se com a emoção de um jogo dos Red Sox. Você irá se encantar pelo charme da Newbury Street, desejar repetir a porção de clam chowder no Quincy Market, se surpreender com a história da Freedom Trail. Você irá, também, admirar-se com a magnitude da Harvard University, reverenciar a beleza do Charles River e se deleitar com a vista da Prudential Tower.

As 16 paradas da Freedom Trail

As 16 paradas da Freedom Trail

Fenway Park, lar dos Boston Red Sox, melhor time de beisebol dos EUA

Fenway Park, lar dos Boston Red Sox, melhor time de beisebol dos EUA

14

Public Garden à noite, no outono...

Public Garden à noite, no outono…

e à luz do dia

e à luz do dia

Harvard University

Harvard University

Vista da Prudential Tower

Vista da Prudential Tower

Public Library

Public Library

20_1

Você, certamente, aproveitará o passeio. Entretanto, duvido que caia perdidamente de amores. Eu também não fui fisgada logo na primeira semana. Isso porque o esplendor de Boston não está no turismo, e sim na rotina. Na paz de acordar e dormir todos os dias em um lugar onde o céu parece ter vida própria – já falei do céu dessa cidade umas cinco vezes aqui, mas o que posso fazer se me sinto hipnotizada por ele? O encanto de Boston está em conhecer a família de patinhos que mora no lago em frente a minha casa, e ver os filhotinhos, que nasceram tão diminutos no início gélido da primavera, cresceram até alcançar o tamanho dos pais, sempre atravessando o meu caminho durante a caminhada matinal até a faculdade. Isso sem falar dos esquilos, coelhos, passarinhos e todos esses animais que me fazem sentir a Cinderela diariamente. Boston me acolheu, e eu tenho um orgulho imenso de chamar essa cidadezinha no coração da Nova Inglaterra de lar doce lar. Esse será o adeus mais difícil, a despedida desse sentimento de paz total e absoluta que Boston me traz. Uma parte de mim, porém, ficará para sempre aqui: correndo pela Harvard Bridge, com cabelos ao vento e sorriso no rosto, faça chuva, faça sol, faça neve.

21_1

Resta, por fim, um último tchau. Estou falando de você. Sim, você, meu estimado leitor. Escrever esse blog durante esse ano foi uma verdadeira benção. O fato é que, apesar de lindas amizades, o ano de intercâmbio é de certa forma muito solitário. E você, meu amigo, me fez companhia mesmo sem saber. Quantas tardes passei debruçada sobre o laptop, em um café ou em um parque, escrevendo, pensando, relendo, sonhando… Quantas pessoas queridas entraram em contato comigo para dizer que o blog as emocionou e as inspirou a correr atrás de seus sonhos… Pois é, esse blog foi um presente e tanto para mim. Por meio dele, você aprendeu sobre Harvard e Boston, mas eu aprendi inenarravelmente mais sobre mim mesma. Obrigada por me proporcionar isso, meu amigo. Agradeço, também, com todo o meu coração, o Colégio Bandeirantes por me dar essa oportunidade e por fazer parte do meu sonho. Incrível como, mesmo 5 anos depois de formada, eu continuo aprendendo com essa escola…

Hoje, falamos de partidas e despedidas. Semana que vem, no 37o e derradeiro post, falaremos sobre chegadas e reencontros.

Até lá!

Carol Martines

_____________________________________________________________________________

Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“Não chore nas despedidas, pois elas constituem formalidades obrigatórias para que se possa viver uma das mais singulares emoções da vida: o reencontro.” (Richard Bach)

Cápsula do tempo

Oi, tudo bem por aí?

Escrever esse blog é, para mim, muitas vezes como redigir uma carta para o meu passado, para a Carol de 2012. Afinal, eu sou praticamente você, cinco ou mais anos atrás. Desse modo, uma das minhas principais inspirações é refletir acerca dos aspectos do meu ano em Harvard sobre os quais aquela menina no terceiro ano do Ensino Médio precisava e/ou queria ouvir. Pensando nisso, por meio desses posts, eu escrevi várias cartas para você e para a Carol de cinco anos atrás.

2017: Harvard Medical School

2017: Harvard Medical School

Analogamente, o mais curioso de toda essa história é que aquela menina que se formava no Band em 2012 também escreveu uma carta para mim, para a Carol de 2017, aluna da USP e de Harvard. Caso você não tenha se dado conta do que eu estou falando, deixe-me esclarecer: por meio de uma iniciativa maravilhosa do Colégio, todos os alunos, nos últimos dias do terceiro colegial, escrevem uma carta para si mesmos dali a cinco anos. Todas as cartas são guardadas carinhosamente pela professora Patrícia Goloni por todo esse tempo, e, no reencontro de cinco anos de formados, os alunos recebem de volta suas cartinhas.

2012: Minha formatura do BBBand!

2012: Minha formatura do BBBand!

Lembro-me vividamente que eu e meus colegas escrevíamos para um futuro distante, que demoraria eras para chegar. O que são cinco anos na vida de um jovem de dezessete? Quase um terço de sua existência! Uma eternidade… Pois é, o futuro chegou. Galopando, tenho que acrescentar. Ao mesmo tempo que sinto que cabe uma vida inteira dentro desse período, também sei que passou em um piscar de olhos.

2012: Os “sobreviventes”, como denominados os alunos que estudaram no Band da quinta série ao terceiro colegial

2012: Os “sobreviventes”, como denominados os alunos que estudaram no Band da quinta série ao terceiro colegial

Como ainda estou morando em Boston, não tive o prazer de frequentar a minha reunião de cinco anos de formada e rever tantos amigos especiais, entretanto, graças ao carinho de pessoas incríveis, recebi a minha carta aqui nos Estados Unidos. (Obrigada, Patrícia e Má!) E assim, depois de 35 posts, 35 cartas para a Carol de 2012, chegou a vez de ela me responder. Só eu estou ansiosa?

2017: Boston Public Garden

2017: Boston Public Garden

Logo que a carta chegou, decidi que a queria ler em um lugar especial: Boston Public Garden, meu lugar favorito da cidade. Contudo, apesar de tanta expectativa, confesso que me desapontei um pouco, por alguns motivos. A Carol de dezembro de 2012 estava cansada, à beira da exaustão física e mental. O terceiro ano do Ensino Médio é muito intenso, e ela havia se dedicado ferozmente. A carta fora escrita pouco antes do Natal, entre a primeira e a segunda fases da tão temida FUVEST. A caligrafia daquela menina era horrível – não que hoje seja maravilhosa, mas certamente bem melhor, – e logo me lembrei do motivo: a Carol de 2012 escreveu tanto durante sua preparação para o vestibular que desenvolveu uma tendinite dolorosíssima no polegar direito poucas semanas antes da segunda fase da FUVEST. Acredite se quiser, mas aquele dezembro foi uma sequência ininterrupta de estudos, fisioterapia e analgésicos. O ortopedista indicou uma órtese para a mão direita e uma caneta adaptada, só assim era possível escrever e realizar a prova de admissão na USP.

Nesse contexto, não é surpreendente que a carta que eu recebi do passado seja repleta de insegurança, estafa e medo. Contudo, aquela garota não estava infeliz, de modo algum: ela sabia que tinha que passar por aquele desafio em prol de um objetivo maior. Depois de descrever os últimos acontecimentos e sentimentos, a carta é repleta de perguntas sobre mim, a Carol de 22 anos na qual aquela menina se transformou. Diante disso, seria uma enorme falta de educação não respondê-la, não é mesmo? Assim, escrevi uma mensagem em resposta àquela Carol, mas decidi compartilhá-la também com você, aluno do Band, pois, como já disse acima, talvez ambos tenham os mesmos questionamentos e precisem ler as mesmas coisas.

 

Boston, 29 de novembro de 2017

Querida Carol do passado,

Preciso começar dizendo: você nos subestimou. Nem nos seus sonhos mais maravilhosos passou pela sua cabeça que você estaria aqui, morando na cidade mais linda do mundo, com uma carteirinha de Harvard e outra da USP no bolso. E, acima de tudo, mais feliz do que palavras podem expressar. Essa é você, Carolzinha.

Quero te contar o que aconteceu nos últimos cinco anos, respondendo algumas de suas perguntas. Dois dias depois de você ter terminado a carta, saiu a primeira aprovação em uma faculdade: direito na FGV. Você conseguiu concluir a FUVEST, mesmo com toda a dor na mão (obviamente com o auxílio de medicamentos analgésicos para a tendinite). Depois daquele período, você nunca mais escreveu tanto, logo, nunca mais sentiu aquela dor, mas guarda até hoje a caneta adaptada que usou para fazer a prova. Semanas depois, foram divulgados os resultados dos vestibulares, e o que eu posso dizer? Valeu a pena cada segundo de estudo, de sacrifício. Cada noite mal dormida, cada vez que você deixou de viajar ou passear em nome do desempenho acadêmico. Além de direito na FGV e na UFRJ, você, Carolzinha, passou em medicina na UFSCar, na UNIFESP (em 1o lugar!) e na USP, a universidade dos seus sonhos. Sem sobra de dúvidas, valeu a pena!

2012: aprovação na FGV

2012: aprovação na FGV

Você não tinha certeza se queria medicina ou direito, mas decidiu testar a primeira. E apaixonou-se. A medicina faz você se sentir realizada e desafiada ao mesmo tempo, e, conforme o curso avançou, você só se encantou ainda mais. Depois de quatro anos na USP, você voou mais alto e estudou um ano em Harvard, onde está agora. Ademais, você de fato não precisou fazer cursinho, seu maior pesadelo na época do Band, mas hoje sabe que não teria sido o fim do mundo.

2016: Liga de Pré-Natal, uma das minhas paixões na USP

2016: Liga de Pré-Natal, uma das minhas paixões na USP

Você continua muito próxima dos amigos do Band, e também fez amizades lindas na USP e em Harvard. Seus melhores amigos, porém, ainda são os mesmos de 2012: seus pais. Graças a Deus, sua família continua unida e saudável, principalmente Vovô, Vovó e Nonna, pelos quais você demonstrou grande preocupação na sua carta. Sua irmã não seguiu o caminho da medicina, apesar da sua insistência, mas está feliz cursando engenharia na Escola Politécnica da USP. Por falar em Poli, seu namorado não é mais um estudante dessa instituição, e sim um engenheiro formado.

2017: Alunos do programa USP-Harvard com o diretor, Dr. Godleski

2017: Alunos do programa USP-Harvard com o diretor, Dr. Godleski

Não, você ainda não escreveu o seu tão sonhado romance, entretanto, você já foi autora de alguns capítulos para livros médicos e tem um blog (no site do Band!), no qual você posta semanalmente. A experiência tem sido tão prazerosa que só aumentou a vontade de escrever um livro… quem sabe até 2022?

Sobre a sua carta: quanta cobrança, não é? Não apenas externa, pois a principal cobrança vinha de dentro. Depois de anos estudando religiosamente, você teve a coragem de me escrever que não tinha estudado o suficiente. Quanta cara de pau! Atualmente, eu me cobro um pouco menos do que em 2012, mas exigir resultados de si mesmo é certamente algo positivo. Afinal, se você não se cobra, a vida cobra. A cobrança só não pode se transformar em uma fonte de sofrimento.

Quanta dúvida, não é? Sei que faltava um propósito. Você queria muito alçar altos voos, estudar em uma universidade de renome, mas não sabia ao certo qual caminho era ideal para você. Posso te dar um único conselho? Na dúvida, sempre faça o melhor que você puder. Você não precisa saber o que vai ser no futuro, pois, independente do que for, esses anos de estudo e garra serão imprescindíveis.

Em suma, sobre os últimos cinco anos: eu não mudaria absolutamente nada, nem os acertos, muito menos os erros. Faça tudo exatamente igual, sempre com alegria e amor no coração. Tenho certeza que você o fará.

O impossível não existe. Momentos incríveis te esperam, Carolzinha. Você nem imagina…

Com carinho,

Carol Martines

_____________________________________________________________________________

Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

 

Aprender é a única coisa de que a mente nunca se cansa, nunca tem medo e nunca se arrepende.” (Leonardo da Vinci)

De olho em New Orleans

Olá mais uma vez!

Hoje, quero dividir com você minha mais recente aventura do intercâmbio: essa semana, tive o privilégio de frequentar o maior congresso de oftalmologia da América, a American Academy of Ophthalmology (AAO 2017), na lendária cidade de New Orleans.

Como já te contei anteriormente, apesar de apaixonada por medicina em geral, são as especialidades cirúrgicas que mais me encantam, e oftalmologia é uma das minhas primeiras opções de residência, juntamente com cirurgia vascular, torácica e cardíaca. Durante esse ano, por trabalhar em um laboratório focado no estudo do sistema respiratório, tive muito contato com cirurgia torácica. Ademais, em 2016, fiz várias atividades extracurriculares relacionadas à cirurgia cardiovascular. Entretanto, sentia que ainda me faltava uma experiência mais intensa na área oftalmológica para que eu compreendesse mais globalmente as minhas opções.

Pois bem, o congresso da AAO seria no começo de novembro, exatamente no feriado do Veterans’ Day. Com o apoio financeiro da Harvard University, que sempre estimula esse tipo de atividade, parti toda animada para New Orleans, o lar do jazz, do Mardi Gras e do jambalaya. Se você acompanha o blog há certo tempo, deve lembrar-se que esse não é o primeiro grande congresso que frequento esse ano. Em maio, estive na conferência da American Thoracic Society em Washington, junto a todos os membros do meu laboratório. Então, você deve estar se perguntando, por que raios eu estou escrevendo mais um post sobre um grande congresso?

A resposta: porque esse é especial. E o que torna a American Academy of Ophthalmology tão especial para mim é esse homem ao meu lado na foto abaixo: Dr. Eduardo Martines, introdutor da cirurgia a laser para correção de miopia no Brasil.

1

Quer dizer, ele é o Dr. Eduardo Martines para todo o resto do mundo, mas, quando se trata de mim, ele atende por um nome muito mais simples: pai. E falta mais uma pessoa nessa foto, outra grande médica oftalmologista: Dra. Silvana, minha outra metade, minha alegria, minha mãe. Infelizmente, dessa vez, ela não conseguiu disponibilidade na sua agenda de atendimentos e cirurgias para viajar.

Desde que eu me conheço por gente, todo novembro sempre foi a mesma história: papai, mamãe ou ambos voavam para alguma cidade dos Estados Unidos para a AAO, ou simplesmente a “Academia”, como os médicos a chamam. Eu nunca ficava muito satisfeita com a ideia, temia pelos meus pais no avião, e começava a chorar como último recurso para convencê-los a não ir. Aí papai começava um longo discurso sobre a importância de frequentar esses eventos para atualizar-se, aprender sobre técnicas e aparelhos novos e ministrar palestras, dividindo seu conhecimento com outros médicos do mundo inteiro. Minha irmãzinha, por sua vez, estava preocupada mesmo com qual boneca meus pais trariam de presente para ela (desculpa, Bruna, tive que acrescentar esse detalhe). No final, eu parava de fazer birra, me despedia dos meus pais, e eu e minha irmã passávamos a semana seguinte sob os cuidados dos meus avós, o que era sinônimo de sete dias comendo os quitutes mais gostosos do mundo, de feijoada a bolo de laranja.

Franklin Square, coração do French Quarter em New Orleans

Franklin Square, coração do French Quarter em New Orleans

Cresci ouvindo “Filha, algum dia ainda te levo na Academia. Você vai ficar encantada.” Contudo, nunca dava certo. O tempo passou e entrei no Band, onde faltar às aulas por uma semana em pleno novembro é impensável – e tenho certeza que você, bandeirantino, concorda comigo: faltar uma semana é sinônimo de perder uns três séculos da matéria de história e umas 40 páginas do livro de exercícios de álgebra. Depois, entrei na faculdade de medicina, e, devido à grande quantidade de aulas práticas no hospital, viajar para a Academia ficou ainda mais impossível. Até que tudo encaixou-se esse ano e meu pai realizou seu sonho de me mostrar o mundo da oftalmologia na AAO 2017.

3

4

A promessa cumpriu-se, e foi realmente sensacional. Salas e mais salas de discussão, fileiras incontáveis de pôsteres de trabalhos científicos e uma quantidade absurda de aulas acontecendo simultaneamente – nem preciso comentar que a palestra do meu pai foi a melhor de todas. Algo que me impressionou muito foi o Exhibition Hall, uma espécie de galpão do tamanho de SEIS campos de futebol onde as empresas que fabricam aparelhos e produtos oftalmológicos expõem de tudo para os médicos: de aplicativos para medir acuidade visual a pinças delicadíssimas de titânio para operar cataratas, de aparelhos enormes para medir precisamente a espessura da córnea a lentes de contato. Continuo sem saber se vou me especializar em oftalmologia ou em algum outro tipo de cirurgia, mas ainda tenho dois anos para me formar como médica e tomar essa decisão. De qualquer modo, a experiência da AAO 2017 foi incrível.

Uma fração mínima do Exhibition Hall

Uma fração mínima do Exhibition Hall

Filha coruja assistindo a aula do pai na primeira fileira

Filha coruja assistindo a aula do pai na primeira fileira

Quanto a New Orleans, achei a cidade charmosíssima e de uma riqueza cultural impressionante, mas não consegui conhecer muito da capital do jazz porque passamos praticamente o tempo todo dentro do Centro de Convenções – é isso que acontece quando se junta dois “nerds” com aulas super interessantes.

Um pouquinho de jazz...

Um pouquinho de jazz…

E um gostinho da arquitetura encantadora do French Quarter

E um gostinho da arquitetura encantadora do French Quarter

Por fim, vem a única parte difícil dessa jornada: me despedir mais uma vez daquele que é um grande amigo, um exemplo de garra e uma inspiração diária. Por mais que o intercâmbio seja uma vivência incrível e eu adore cada minuto em Harvard, sempre há um buraquinho no coração, louco para estar perto da família de novo. Depois desses dias vivendo tão intensamente ao seu lado, minha nossa, pai… Como é difícil te dizer adeus, nem que seja por pouco tempo. Obrigada por ser tão companheiro, tão protetor, tão amoroso – e não estou agradecendo apenas por essa viagem, e sim pelos últimos 22 anos.

9

Aqui, peço licença para uma homenagem singela. Pai, mãe, obrigada pela cumplicidade infalível e pelo apoio irrestrito. Obrigada por dizerem “não” quando necessário – sei que doeu mais em vocês do que em mim. E, acima de tudo, obrigada por acreditarem nos meus sonhos.

10

Até o próximo post! (E, família, até breve!)

Carol Martines

_____________________________________________________________________________

Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“A suprema felicidade da vida é ter a convicção de que somos amados.”

(Victor Hugo)

 

As quatro estações da ciência

Oi, tudo bem por aí?

Neste ano de intercâmbio, um dos aspectos mais fascinantes, e também uma das novidades que mais me tirou da zona de conforto, foi o clima, mais precisamente a mudança tão marcada das estações. Isso deve ter ficado muito claro para quem acompanha o blog desde o começo, vista a quantidade de vezes em que mencionei o assunto. Tem sido uma experiência única para uma brasileira que morou a vida toda no verão perceber como absolutamente todos os aspectos do cotidiano mudam ao longo do ano em Boston, do vestuário às opções de lazer, da alimentação à sua energia.

1

Faltam pouco mais de 40 dias para o final do meu programa em Harvard e do ano mais esplêndido da minha vida e, enquanto vejo a natureza fechar mais um ciclo, é impossível não refletir sobre a minha trajetória em diversos quesitos, mas hoje me concentrarei na questão acadêmica, e como cada fase da minha rotina no laboratório dialoga curiosamente com o clima. Fui avisada desde o princípio que não se faz ciência de verdade em um ano, mas era só isso que eu teria a partir do momento que meu avião pousasse nos Estados Unidos, em janeiro de 2017. Voltemos no tempo…

2

Tudo começou no inverno mais gélido, mas também mais emocionante da minha vida. Me vi em uma sala ampla e iluminada do 3o andar da Harvard School of Public Health, cercada por pessoas que eu nunca vira antes. Foi o meu primeiro dia no laboratório, o meu primeiro dia de neve.

Comecei a aprender algumas técnicas de nomes esquisitos – LDH, MPO, MTS, instilação, lavagem bronco alveolar, e por aí vai. Os procedimentos por si já eram complexos, mas mais difícil ainda era entender a aplicação de cada um deles nos fluidos retirados dos pulmões dos ratos.

O inverno foi eterno, assim como as religiosas reuniões de terça-feira de manhã. Eu não entendia a esmagadora maioria das discussões, porém estava lá, anotando e tentando aparentar ao máximo que toxicologia pulmonar sempre fora minha praia – ou, para ser mais adequada ao contexto, minha estação de esqui.

3

Mesmo chegando em casa cedo, a noite sempre chegava antes de mim: as horas de luz eram escassas, assim como os momentos em que eu não estava passando frio. Pelas ruas, as pessoas andavam apressadas e taciturnas. Entretanto, tenho que admitir que gostei do inverno: impossível negar que tudo branquinho tem o seu charme, principalmente para uma brasileira que nunca vivenciou tudo aquilo antes, uma constante oscilação entre a certeza de que você vai morrer de hipotermia e de que chocolate quente é a melhor invenção da humanidade. Ademais, a estação mais fria do ano me apresentou um novo esporte pelo qual me encantei instantaneamente: esquiar. Deslizar por uma montanha alva ao som apenas dos meus esquis, da minha respiração e do meu coração com certeza é uma das sensações mais maravilhosas que já experimentei.

4

Subindo a montanha para esquiar, com a temperatura de -32 graus Celsius lá fora

Subindo a montanha para esquiar, com a temperatura de -32 graus Celsius lá fora

Então, como em um passe de mágica, veio a primavera. Passarinhos cantando, rosas desabrochando, animais e pessoas saindo da toca e toda aquela história que eu já te contei em meados de abril.

6

Dentro do laboratório, porém, nem tudo eram flores. Continuávamos com os mesmos 21oC de sempre, essenciais para manter o funcionamento adequado de uma das várias centrífugas super potentes. Eu já estava conseguindo me localizar um pouco melhor naquele ambiente e não precisa perguntar onde estava cada pipeta, tubo ou placa. Meu projeto já começava a se desenhar, eu realizava a maioria dos testes sozinha, mas eu ainda estava muito perdida quanto ao melhor jeito de organizar a metodologia e os resultados. Para ser sincera, não entendia muito bem o rumo daquela pesquisa, apenas realizava o que fora acordado pelos demais pesquisadores do grupo.

Nessa época, ouvi em uma palestra da Harvard School of Psychology que, às vezes, uma bússola é mais útil do que um mapa, e eu até possuía um esboço do segundo, mas claramente me faltava o primeiro. Minha primeira apresentação de resultados em reunião foi ruim. Tentei procurar no meu vocabulário uma palavra melhor, mas não posso ser mais precisa do que isso: foi ruim, sim. Não é como se eu não estivesse sendo bem orientada, de modo algum. Só havia uma lacuna considerável entre o meu pensamento como aluna de medicina e pesquisadora. Mas eu me afobava, me cobrava: “não posso sair daqui sem uma publicação!”. Paciência, menina. Paciência.

Picnic de Páscoa

Picnic de Páscoa

Meses depois, o Sol finalmente chegou mais perto de Boston e o verão mais esperado da minha vida chegou. O ano de 2017 foi atípico, e demorou mais do que o normal para esquentar de verdade, sendo que só foi possível livrar-se de vez dos casacos em meados de junho. O aumento das temperaturas mudou a dinâmica da cidade, regendo a vida da população com acordes muito felizes. As pessoas passaram a andar sorrindo nas ruas; as mesas dos restaurantes, antes hermeticamente fechados por causa do aquecimento, passaram a ocupar as calçadas; caiaques e barcos a vela tomaram o Charles River.

8

9.

Dentro do Brain lab, não poderia ser diferente. Não que alguém tenha sido mal educado comigo antes, mas o humor dos pesquisadores melhorou significativamente com a elevação das temperaturas e a aproximação de suas férias. Mais risadas, mais conversas, mais almoços em grupo. Tornou-se cada vez mais agradável estar no ambiente do laboratório. Com o recesso escolar de verão, a faculdade ficou praticamente deserta, sem alunos, apenas pesquisadores. Os seminários e aulas também foram interrompidos, o que era enfadonho, mas me sobrava mais tempo para me dedicar ao meu projeto. “Ganhei” uma pequena sala dentro do laboratório só para mim, mais estéril do que o restante do lab, o que era necessário para os meus experimentos, e organizada toda do meu jeitinho. E digo-o entre aspas porque ela não me foi dada, mas eu era a única pessoa a entrar lá, então, pelo menos na minha cabeça, era o meu cantinho.

10.

Almoço com o time do Brain Lab

11

Aos poucos, eu cada vez me sentia mais confortável naquela rotina e mais parte daquele mundo. Sentia falta de muita coisa do Brasil, mas estava genuína e indubitavelmente feliz no ambiente científico, na minha mini sala dentro do laboratório já toda organizada do meu jeitinho. E minha pesquisa seguia. Até que, no início de setembro, aconteceu um episódio muito marcante. As folhas das árvores começavam a secar lá fora enquanto eu finalizava uma análise de resultados de um experimento muito grande que eu realizara no dia anterior. E vou ter que confessar: os resultados não eram nada animadores. À primeira vista, não faziam sentido nenhum, e parecia haver um milhão de coisas que poderiam ter dado errado. Nesse momento, o meu supervisor, Ramon, entrou no laboratório, seguido pela Sumati, pesquisadora colaboradora do meu projeto, poucos minutos depois. Ambos começaram a discutir o experimento, e uma terceira voz, falando com confiança, entrou na conversa, mas não havia mais ninguém na sala. A discussão foi produtiva e vários detalhes foram acertados e refinados. Quando eles saíram, eu me dei conta: aquela voz ativa era minha. Veja bem, não é como se eu ficasse calada antes, eu sempre expressei minha opinião. Mas essa foi a primeira vez que eu senti que eu realmente dominava o projeto e o assunto, e tinha plena capacidade de ajudar a tomar grandes decisões sobre o mesmo. Nesse dia, te garanto, ninguém saiu pelas portas da Harvard School of Public Health com um sorriso mais largo do que o meu. A partir disso, tudo mudou, principalmente as reuniões semanais. A esse ponto, eu entendia cada palavra proferida e, mais do que apenas entender, eu tornei-me capaz de interpretar, avaliar e concordar (ou não). A ciência origina-se da discordância, não é mesmo?

Aproveitando cada minuto de sol

Aproveitando cada minuto de sol

O verão partiu de vez, mas não levou consigo minha alegria, muito menos o meu ímpeto. Restavam poucos meses para a entrega do relatório final, e eu estava cada vez mais perto de descobertas muito promissoras.

Veio o outono, e aqui preciso abrir um parênteses. O outono! Eu nasci no outono, e sempre tive um certo ressentimento disso, principalmente porque minha irmã nascera na primavera, a estação das flores! E eu, na temporada das… folhas secas?! Me parecia a maior chatice. Nunca vi muita graça nessa estação, sempre a interpretei como uma primavera sem flores, ou um período neutro entre verão e outono. Os poetas sempre enaltecem e romanceiam essas três, deixando o outono um pouco de lado. O mesmo é aplicável quando se trata de filmes e livros. Contudo, quer que eu te conte a verdade? Todo esse pessoal que subestima o outono, inclusive eu mesma antes de morar em Boston… todo esse pessoal não sabe de nada! Não há absolutamente nada mais deslumbrante no mundo do que o outono na região da Nova Inglaterra.

O outono na Nova Inglaterra, região compreendida pelos estados de Vermont, New Hampshire, Connecticut, Rhode Island, Maine e Massachusetts, onde fica Boston

O outono na Nova Inglaterra, região compreendida pelos estados de Vermont, New Hampshire, Connecticut, Rhode Island, Maine e Massachusetts, onde fica Boston

Uma beleza sem tamanho toma conta de tudo, e as árvores pintam-se dos mais variados tons de laranja, amarelo, vermelho, e até roxo. As folhas vão caindo, e dessa vez o solo vira a atração principal. Tenho demorado o dobro de tempo para chegar a qualquer lugar, porque sou incapaz de não parar a fim de apreciar o espetáculo. Como se não fosse suficiente, o ar tem um cheiro tão maravilhoso, tão indescritível! Para melhorar, ainda tive a sorte de viver o mês de outubro mais quente em Boston desde 1947, então pude passar muito tempo saboreando a natureza.

14

15

Mais uma vez, o interior do laboratório reflete o exterior encantador. Em suma, meus afazeres incluem mais experimentos para obter os últimos resultados a tempo e o planejamento da apresentação e do relatório finais. Algumas semanas atrás, meu chefe pediu para que eu preparasse alguns dos meus dados para que ele os apresentasse no congresso europeu de pneumologia em Bratislava, e voltou da conferência dizendo que a comunidade internacional elogiou muito a minha pesquisa. Ademais, outro projeto foi submetido para o maior congresso de Pneumologia da América. Por fim, outra novidade muito animadora: eu, que no começo do inverno estava completamente perdida dentro do laboratório, hoje tenho alunos que vem me assistir operando os ratinhos para aprender a técnica cirúrgica. Sou responsável pelo treinamento de pesquisadores de outros laboratórios, todos formados e muito mais velhos do que eu. Qual a dúvida de que estou adorando isso tudo?

16

Mais cores do outono

Mais cores do outono

O outono tem sido, de longe, minha estação favorita. Não só pela beleza, não só pelos resultados positivos na faculdade. Depois do inverno, primavera e verão aprendendo, localizando-me, fazendo novas amizades, lidando com a saudade, criando novos hábitos, é no outono em que eu me sinto total e completamente adaptada. É o momento da colheita. Está também cada vez mais perto a hora da despedida, mas ignoremos esse fato por enquanto. Ainda tenho muitas aventuras a viver – e muitos posts a escrever.

18

Queria muito lembrar quem me disse uma vez que ciência não se faz em um ano. De fato, não se faz mesmo. É preciso muito mais tempo, estudo e maturidade para isso. Mas, cá entre nós, em um ano dá sim para ter um gostinho…

19

Até semana que vem!

 

Carol Martines

_____________________________________________________________________________

Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

 

“Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.”

(Álvaro de Campos)

 

Os três Carnavais de Boston

Oi, tudo bem por aí?

No post de hoje, vamos conversar sobre alguns aspectos culturais dos Estados Unidos que diferem muito do Brasil, com ênfase em um tema leve e divertido para compensar os posts anteriores, mais densos: falemos sobre celebrações!

Vou direto ao ponto: Boston é, na minha opinião, a pior cidade do mundo para festas. Sabe todo aquele agito que vemos nos filmes de Hollywood sobre faculdades americanas: festas de fraternidade, house parties e por aí vai? Sinto lhe informar, mas é tudo mentira, pelo menos aqui em Boston. Não posso dizer pelo resto dos Estados Unidos, talvez na região central e na costa oeste seja diferente, mas aqui na capital de Massachusetts, mesmo com a quantidade absurda de jovens universitários, as festas são muito muito ruins. No início do intercâmbio, acostumada com o agito de São Paulo, tenho que admitir que fiquei um pouco decepcionada com isso, mas Boston tem tantas outras opções de lazer incríveis a oferecer que realmente não sinto a menor falta de uma vida noturna intensa – mas a opinião da maioria dos meus amigos brasileiros que moram aqui diverge da minha.

Como explicar essa escassez? Todas as festas devem terminar antes das 2 da manhã por lei (o que é muito cedo para os padrões brasileiros), álcool é extremamente caro, as baladas cobram fortunas pela entrada. Mas eu acho que a verdadeira causa é muito menos concreta do que isso: o povo de Boston simplesmente não tem o espírito de festa que o brasileiro tem. E não é preciso sair à noite para dar-se conta disso, uma vez que a qualquer hora do dia os bostonianos andam sem esbanjar simpatia. Isso de dar bom dia e sorrir para um estranho no ônibus não existe aqui, o que é uma das poucas coisas que eu não gosto desse lugar.

Houve, no entanto, três exceções, três vezes em que eu vi a cidade transformar-se, ganhar vida e alegria, três celebrações em que os moradores de Boston sorriram à toa como se fossem brasileiros. Nessas ocasiões, tentei absorver o máximo possível da experiência cultural, seguindo cada clichê e fazendo exatamente o que um clássico americano faria. Com você, os três Carnavais de Boston.

St. Patrick’s Day

Celebrado no dia 17 de março, essa festa anual celebra a morte de São Patrício, padroeiro da Irlanda. Contudo, aqui nos Estados Unidos, St. Patrick’s Day passa bem longe de uma comemoração religiosa. As cores verde e branco, assim como os trevos de quatro folhas, tomam conta de Boston quando o grande dia vai chegando. E engana-se quem pensa que a festa dura apenas um dia: o final de semana inteiro é agitadíssimo.

Na sexta-feira, dia 17, o Quincy Market, um dos pontos turísticos mais populares da cidade, recebeu shows de dança e música irlandesa. Os bares da cidade toda, raramente cheios, ficaram lotados desde as 3 da tarde. Filas e mais filas para entrar. Cerveja verde, sorvete verde, copo verde, chocolate verde: era possível encontrar de tudo nessa cor, como se eu estivesse no meio da torcida do Palmeiras.

1

Show no Quincy Market

A celebração seguiu até o domingo, quando aconteceu o evento mais tradicional e esperado: a famosa parada de St. Patrick’s Day em South Boston. Ainda estava muito frio (lembre-se que esse ano nevou até abril), mas as pessoas pareciam nem se importar enquanto dançavam ao som das músicas irlandesas.

2

Carro decorado com as cores da Irlanda

Mais da parada em South Boston

Mais da parada em South Boston

Boston é uma das cidades americanas que celebra com mais alegria o St. Patrick’s Day, provavelmente por causa da grande quantidade de irlandeses vivendo na região. A única cidade que, na minha opinião, supera Boston nesse quesito é Chicago, onde eles chegam ao extremo de pintar o Chicago River de verde para a celebração. Não vi com meus próprios olhos, mas peguei emprestado do Google para te provar que é verdade!

Chicago River VERDE no St. Patrick’s Day: note que é utilizada uma substância que não polui o rio

Chicago River VERDE no St. Patrick’s Day: note que é utilizada uma substância que não polui o rio

4th of July

Outra celebração marcante é o dia da Independência dos Estados Unidos no dia 4 de julho. De fato, também temos, no Brasil, o nosso feriado análogo, mas, enquanto para nós é apenas mais um dia de descanso da escola ou do trabalho, nos EUA a comemoração atinge proporções inacreditáveis, principalmente em Boston, considerado o berço da independência americana, sendo a folia é ainda maior. Como a comemoração dá-se no auge do verão e das férias escolares, a cidade fica repleta de turistas.

5

O povo americano é patriota por definição o ano todo, mas, no início de julho, Boston veste-se da cabeça aos pés das cores da bandeira americana, similarmente ao que fazemos no Brasil em época de Copa do Mundo. Para onde quer que você olhe, verá um sinal de patriotismo.

6

Diferentemente das outras duas datas citadas neste post, que são dias úteis normais apesar da folia, o 4th of July é o único que é um feriado de verdade. E aqui está mais uma enorme diferença entre nosso Brasil e os EUA: a abundância de feriados do primeiro em contraste com a escassez do segundo. Desse modo, nada mais natural do que aproveitar o dia de sol com um clássico barbecue americano ou uma boa praia. A propósito, as praias da cidade não são tão bonitas quanto as brasileiras, mas serviram para matar a saudade da areia e do sol. Contudo, apesar do calor de 35 graus, entrar no mar estava fora de questão para mim, já que a água era MUITO fria.

7

Praias em Boston

Praias em Boston

Ao entardecer, depois de um dia relaxante, a maioria das pessoas dirige-se às margens do Charles River para a grande atração do dia: o concerto do 4th of July, seguido de uma queima de fogos de artifício inacreditável – sem sombra de dúvida, a mais linda que já vi na minha vida, com uma quantidade e variedade de cores inimaginável. O evento é grátis e reúne mais de meio milhão de pessoas anualmente, sendo inclusive televisionado. Obviamente, tratando-se de tamanha aglomeração de pessoas, o policiamento da atração é igualmente maciço.

9

Halloween

Apesar de ser celebrado no dia 31 de outubro, o clima de Halloween toma conta da cidade e, principalmente, das lojas de departamento, em meados de agosto. Nestas, há corredores e corredores vendendo absolutamente tudo que se pode e não se pode imaginar no tema Halloween, de fantasias a peças de decoração, de doces a utensílios domésticos. Tudo é vendido na versão “dia das bruxas”, de chocolates a cafés do Starbucks, como você pode ter uma noção a partir das fotos abaixo. Concordo que seja um exagero, mas já conversamos em posts anteriores que o consumismo é um dos motores dos Estados Unidos.

10

11

12

Bolacha especial de Halloween

Bolacha especial de Halloween

Chocolates de dia das bruxas

Chocolates de dia das bruxas

Nem o Starbucks escapou, lançando seu Frappuccino zumbi

Nem o Starbucks escapou, lançando seu Frappuccino zumbi

E obviamente, abóboras de todos os tamanhos e formas!

E obviamente, abóboras de todos os tamanhos e formas!

17

O clima é muito gostoso e, conforme o grande dia vai chegando, fica praticamente impossível não se contagiar pela festa. Um dia antes do 31 de outubro, veja só a fila na porta da principal loja de Halloween do centro da cidade.

18

É de conhecimento geral que um dos lugares mais famosos do mundo para essa celebração é Salem, a cidade das bruxas. Entretanto, poucos sabem que essa cidade mágica fica a um curto voo de vassoura – ou 40 minutos de trem – de Boston. Desse modo, grande parte dos moradores da capital de Massachusetts opta por comemorar a data na pequena Salem, além de hordas de turistas vindos de toda parte. A fofíssima cidade de 40 mil habitantes vive basicamente do turismo, de modo que lá é dia das bruxas 365 dias por ano!

19

20

“Poções” à venda na cidade das bruxas

“Poções” à venda na cidade das bruxas

Apesar de ter adquirido fama por servir como cenário para filmes e séries como “As bruxas de Salem”, “Hocus Pocus” e “A feiticeira”, a relação da pequena cidade litorânea com a bruxaria é muito anterior ao advento da televisão, datando precisamente de 1692. Eu poderia fazer um post inteiro sobre esse lugar assustadoramente interessante, mas serei breve: no final do século XVII, alguns moradores da região, mulheres em sua maioria, foram acusados de bruxaria e perseguidos. Mais de 60 foram presos, alguns foram julgados nos famosos “Salem witch trials”, e 20 foram efetivamente condenados pelo crime de bruxaria e morreram enforcados (com exceção de um homem, que foi cruelmente executado por meio de esmagamento com pedras). Pode parecer um roteiro de filme de terror, mas infelizmente esse absurdo de fato aconteceu, e é um exemplo emblemático de histeria coletiva e do perigo de falsas acusações. Por séculos, os moradores de Salem quiseram esconder seu passado vergonhoso, mas atualmente a história é usada como uma preciosa lição para todos que passam por lá, e as vítimas da “caça às bruxas” serão eternamente lembradas e homenageadas, sendo a cidade um museu a céu aberto.

Eu particularmente optei por visitar Salem alguns meses antes do Halloween, pois as atrações não estariam tão lotadas e eu poderia aprender melhor sobre esse passado tão chocante.

Salem Witch Museum

Salem Witch Museum

Era julho, mas a contagem regressiva já estava valendo

Era julho, mas a contagem regressiva já estava valendo

Estátua da Feiticeira, do seriado americano da década de 60

Estátua da Feiticeira, do seriado americano da década de 60

Sem mais delongas, vou finalmente falar do dia 31 de outubro em si, e já adianto: foi um dos dias mais legais do ano. Eu e meus amigos ficamos em Boston mesmo e não saímos para uma balada como a maioria dos jovens americanos faria, já que tínhamos um plano muito melhor: viver um sonho de infância e sair pelas ruas em clima de “doces ou travessuras”.

25

26

Optamos pelo bairro de Beacon Hill, um dos mais chiques de Boston, onde as casas são lindamente decoradas para a ocasião, havendo inclusive uma competição informal pela casa mais bonita. Pessoas fantasiadas de todas as idades e até animais de estimação tomam as ruas e nenhum carro passa. Engana-se quem pensa que só as criancinhas ganham doces: a distribuição de gostosuras nas portas das casas é muito democrática. Nesse ponto, preciso confessar que me empolguei… me fantasiei de unicórnio!

A criança mais feliz da rua

A criança mais feliz da rua

28

29

Talvez pareça algo muito simples pelo meu depoimento, mas, para mim, foi realmente mágico. Fascinou-me ver tudo aquilo que assistimos pela televisão com meus próprios olhos e sentir tanta alegria nas pessoas, normalmente tão fechadas. Famílias inteiras sentadas na porta de casa distribuindo doces, famílias inteiras fantasiadas pelas ruas admirando as decorações. “Trick or treat! Happy Halloween!” por toda a parte. Acho que é o tipo de coisa que é preciso viver para compreender inteiramente o encanto.

Resultado do Halloween: alguém me ajuda!!

Resultado do Halloween: alguém me ajuda!!

E acredite se quiser: logo no dia seguinte, primeiro de novembro, as lojas já estavam transformadas, dessas vez no tema natalino!

Quando se trata de comércio, os americanos não perdem tempo

Quando se trata de comércio, os americanos não perdem tempo

Espero que você tenha se divertido comigo enquanto lia sobre as três comemorações mais animadas de Boston. Me surpreendeu a intensidade dos americanos em cada uma dessas datas. Contudo, verdade seja dita: não há nada comparável ao Carnaval do jeitinho brasileiro!

Até semana que vem!

 

Carol Martines

_____________________________________________________________________________

Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“O mundo está cheio de coisas mágicas , pacientemente à espera de que nossos sentidos tornem-se mais afiados.” (W. B. Yeats)

O caso dos dez ratinhos

Oi, tudo bem por aí?

Hoje, quero te contar uma história que quem convive comigo não aguenta mais ouvir, uma novela que se estendeu por quase dois meses e tomou uma proporção muito grande na minha vida em Boston. Praticamente um caso de polícia, meu amigo. Os personagens principais são: eu, dez ratinhos, uma peruana e dois meios de cultura. A cena do crime, nada mais nada menos do que Harvard University.

Widener Library em Harvard

Widener Library em Harvard

Preciso começar te explicando o projeto científico que causou todo o alvoroço. Não gosto muito de detalhar meus experimentos porque creio que certas minúcias do laboratório não acrescentem muito na sua vida, então irei apenas prover o mínimo de informação necessário para a compreensão da história de hoje. Como já falei diversas vezes, eu trabalho em um laboratório de Harvard especializado em realizar análises de toxicologia no sistema respiratório. A minha linha de pesquisa tem como foco o uso de finíssimas fatias de pulmões de ratos como meio de testar a toxicidade de vários produtos químicos: é como se cada pedacinho funcionasse como um pulmão inteiro. Toda vez que começo a explicar isso para um amigo, a primeira pergunta invariavelmente é: “Carol, como esses pedacinhos são mantidos vivos?”. No meu laboratório, é usada há anos uma espécie de meio de cultura com um nome super longo e complicado do qual te pouparei, que é capaz de suprir todas as necessidades vitais das fatias de pulmões por alguns dias. Eu e meus experimentos vivíamos felizes com esse meio de cultura.

Até que, em meados de julho, fui convocada para uma reunião praticamente emergencial. Um outro laboratório americano concorrente ao nosso, chefiado por um tal de Dr. Holger, havia descoberto um novo meio de cultura que, segundos os seus criadores, era capaz de manter as fatias de pulmão com maior viabilidade por mais tempo – e naturalmente custava 30 vezes mais caro. Nosso laboratório, evidentemente, precisava testar logo essa nova substância. Desenvolvemos rapidamente um experimento a fim de comparar o nosso meio de cultura usual com o do grupo Holger. No mundo da ciência, não se pode ficar para trás!

Fiquei responsável por esse projeto, o que me deixou muito animada, já que parecia algo muito direto e promissor. As férias de verão e a demora para recebermos cada um dos componentes do novo meio de cultura atrasaram consideravelmente o início dos experimentos, que só ocorreu no final de agosto.

Enfim, finalmente estava tudo pronto para começar. Seria um experimento de 14 dias consecutivos (ou seja, adeus, finais de semana!) que exigiria minha dedicação total. No dia 1, os ratos seriam sacrificados e seus pulmões, removidos e fatiados. A partir do dia 2, os 200 pedacinhos obtidos seriam divididos em 4 grupos:

  • A: 50 seriam imersos apenas no nosso meio de cultura padrão
  • B: 50 no meio padrão com nanopartículas de prata
  • C: 50 apenas no meio Holger
  • D: 50 no meio Holger com nanopartículas de prata

Ambos os meios de cultura precisavam ser trocados no máximo a cada 48 horas, pois, simplificadamente, os pedaços de pulmões consomem todo o “alimento” presente no líquido nesse período. Ademais, em dias específicos, eu mediria a atividade metabólica das fatias usando um teste chamado MTS, até finalizar os 14 dias.

Tudo parecia muito simples comparando com os meus projetos anteriores, e eu sabia muito bem o que esperar: ao longo dos dias, todos os grupos sofreriam uma diminuição fisiológica da atividade metabólica, mas esse decréscimo seria menor nas fatias tratadas com o meio Holger. As nanopartículas de prata eram tóxicas, então se esperava maior viabilidade no grupo A do que no B, e no grupo C do que no D. Tudo parecida simples até demais…

O único ponto que tinha um potencial gigantesco para dar errado era a contaminação. Manter essas fatias vivas por uma dia sem atrair milhões de bactérias já é difícil, imagine por 14. Soma-se a isso o fato de que os outros pesquisadores do meu laboratório estariam fazendo experimentos com ratos ininterruptamente, tornando um desafio ainda maior manter o ambiente o mais estéril possível. Todavia, contrariando as expectativas de muitas pessoas, eu consegui manter 199 dos 200 pedacinhos livres de bactérias, não sem esgotar o estoque de álcool do laboratório e de paciência da narradora.

Adoraria acabar a história aqui com um final feliz, mas a verdade dos fatos me obriga a continuar. O que mais poderia falhar? Vamos direto ao ponto: a única coisa que NÃO deu errado foi a parte da contaminação. Todo o resto foi um desastre. Todos os reagentes deram algum problema, nenhum dos materiais funcionava como deveria. Cada dia, aparecia um problema novo, alguma máquina travava, algum produto expirava antes do previsto. E lá saia eu feito louca pelos corredores da Harvard School of Public Health tentando encontrar uma solução. E o problema não podia ser resolvido no dia seguinte, pois o experimento tinha um cronograma muito fixo e definido. Em suma, ou eu solucionava o conflito do dia, ou eu perdia tudo que fizera até aquele ponto.

Fileiras de laboratórios em todos os andares do prédio

Fileiras de laboratórios em todos os andares do prédio

Eis que, depois de duas semanas de muito esforço, finalmente chegou o último dia. Na noite anterior, eu havia sonhado com aquele experimento, tamanho o meu envolvimento (sonho ou pesadelo? Ou talvez um pressentimento?). Na manhã do 14o dia, assim que cheguei ao laboratório, verifiquei se a minha placa com as fatias de pulmões estava livre de bactérias dentro da incubadora. Satisfeita com o que vi, fui para outra sala e comecei a fazer os preparativos para a última medida de viabilidade do projeto.

Cerca de uma horas depois, voltei para pegar minha placa na incubadora… e ela não estava lá. Simplesmente, desapareceu. Primeiramente, pensei que estivesse delirando. Eu mesma deveria ter esquecido de recolocá-la no lugar de costume. Depois de reconfirmar minha sanidade mental, já muito preocupada, comecei a perguntar aos demais pesquisadores do laboratório se haviam pegado minha placa. Todos negaram, obviamente ninguém pega experimentos alheios, principalmente os que são arruinados se retirados da incubadora por alguns minutos. A única pessoa que havia entrado no recinto e não estava mais lá era a peruana Daysi, pesquisadora de outro laboratório de Harvard que ocasionalmente utiliza algumas das nossas máquinas. Como ela não atendia o celular, saímos todos em busca dela. Daysi deveria estar em algum lugar entre o terceiro andar e o subsolo, o que compreende uma quantidade enorme de possibilidades. Não sei como, mas, no meio daquele mar de salas e corredores, eu a encontrei. Daysi estava manipulando uma placa idêntica à minha, e meu coração quase parou durante os dois segundos em que demorei para perceber que não era a mesma. Era muito parecida, mas certamente não era a minha.

A placa à qual me refiro era desse tipo

A placa à qual me refiro era desse tipo

Respirei fundo e tentei me recompor, já que não podia começar gritando com alguém que podia perfeitamente ser inocente.

  • Oi, Daysi. Tudo bem? Você por acaso usou nas últimas horas a incubadora do Brain lab? – perguntei em inglês com a voz mais amigável que consegui.
  • Oi, Carolina. Usei, mas só mexi nas minhas placas.
  • Tem certeza?
  • Tenho, absoluta. Todas as minhas placas têm o meu nome.

Não havia como rebater uma resposta categórica dessas. Eu estava quase saindo do laboratório dela quando vi. Sobre a bancada atrás da Daysi, estava a MINHA placa. Minha placa, da qual eu cuidara por 14 dias. Quase minha filha àquela altura! Atravessei a sala, peguei-a na mão e não havia espaço para dúvidas. Era a minha placa. Eram meus pulmões. Era a minha letra na tampa.

  • O que. Essa placa. Está. Fazendo. Aqui? – eu esbravejei, tremendo de raiva.
  • Essa placa está aqui porque é minha. Tem o meu nome nela. – ela também levantou a voz.

Ah, não. Aí já era demais! Só podia ser brincadeira! Eu estava furiosa, e nem imaginava o que viria depois…

Semana que vem, te conto o restante dessa loucura da placa desaparecida, o resultado do experimento e outras coisinhas que só Harvard mesmo para me ensinar.

Até lá!

Carol Martines

_____________________________________________________________________________

Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“Para todo problema complexo existe sempre uma solução simples, elegante e completamente errada.”– H. L. Mencken)

É permitido falhar

Olá, tudo bem com você­?

Em um dia normal, você acorda e checa o Facebook. Em menos de um minuto, é bombardeado por imagens e textos da blogueira fitness com corpo escultural que já terminou de malhar antes das sete da manhã, o menino prodígio que aos 16 anos foi aprovado em dez vestibulares, a atriz americana que está tomando champanhe em frente à Torre Eiffel, e por aí vai. Todo mundo no planeta parece estar nadando em sucesso, e você começa humildemente o seu dia pensando em tudo que deve fazer para ser nada menos do que fitness, inteligente e bem sucedido, tudo ao mesmo tempo. A sociedade cobra, e você se cobra.

Convenhamos que ninguém vive só de academia e suco verde

Convenhamos que ninguém vive só de academia e suco verde

Diversas vezes, já compartilhei com você aqui no blog histórias inspiradoras, seja de sucesso profissional, acadêmico ou pessoal, tanto minhas quanto de outras pessoas que tive o prazer de conhecer. A intenção? Sempre querer te estimular a ter gana e coragem de buscar seus sonhos, porque eu verdadeiramente acredito nisso como um combustível para uma vida plena. Todavia, ninguém funciona assim 365 dias por ano. Apesar de algumas pessoas aparentarem certa “invencibilidade”, meu amigo, isso não existe. Não quero iniciar um discurso derrotista – tenho grande aversão a esse tipo de postura, para ser sincera. O que eu quero dizer para você hoje, em meio a esse mundo em que todos buscam ser super-homem e mulher-maravilha o tempo todo, é: tudo bem falhar, tudo bem se permitir. Tudo bem dormir até tarde um dia em que você deveria estar estudando mas a exaustão física ou mental não lhe permite. Tudo bem faltar à academia. Tudo bem tirar uma nota ruim. Tudo bem estar mal arrumado. Está tudo bem. Desde que essas situações não se tornem rotina, sejam exceção e não regra.

Tratamos muitos das conquistas, dos acertos, mas rarissimamente falamos dos erros, sendo que esses são, não um fim horrível a ser temido, e sim uma etapa que constitui o trajeto para a vitória. É muito fácil encher o peito para contar como fui aprovada na USP e em Harvard ou como corri uma meia maratona. E as derrotas? Ah, dessas ninguém quer falar: seria o mesmo que admitir suas fraquezas aos quatro ventos. Logo, diferente de 99% do conteúdo que circula na internet atualmente, hoje conversaremos sobre falhas, defeitos, tudo isso que tentamos negar, mas que fazem parte de quem somos. Veja bem, não estou falando de modo algum que devemos estudar, treinar ou trabalhar menos. A dedicação deve sempre ser muito intensa. Hoje eu só tenho menos medo de errar, porque, ao contrário do que eu acreditava quando estava prestando vestibular, falhar está longe de ser o fim do mundo.

É muito difícil ouvir um “não”, principalmente quando se está acostumado com o contrário. Eu recebi mais “nãos” do que eu gostaria nos últimos anos, mas como esta página é sobre intercâmbio, ater-me-ei ao tema.

O primeiro “não” foi em 2014, quando apliquei para o intercâmbio do Ciências Sem Fronteiras. Havia boatos de que esse seria o último ano do programa, e realmente foi, por isso era tão importante ser aprovada. Eu sempre sonhara em fazer intercâmbio, e tinha certeza absoluta de que passaria, afinal, não conhecia ninguém da USP que tivesse sido reprovado. Porém, acredite se quiser, eu digitei incorretamente o meu CPF na hora de fazer a inscrição, e não passei. Tentei de tudo para mudar o resultado, mas não houve solução. Eu chorei muito, muito mesmo. Nunca contei o quanto isso me chateou para ninguém além da minha família, mas, a essa altura do campeonato, não faz o menor sentido esconder. (Nunca fez, na verdade, mas às vezes precisamos de um tempo para constatar isso.)

O segundo foi no ano seguinte, em 2015, quando apliquei para o intercâmbio de Harvard pela primeira vez. Como já detalhei em um dos primeiros posts do ano, eu fui recusada, e essa resposta negativa doeu ainda mais. O sonho do intercâmbio parecia se despedaçar bem ao alcance dos meus olhos, mas não das minhas mãos. Em ambas as tentativas, tenho plena consciência de que o erro foi totalmente meu, e não uma injustiça do sistema de seleção. Um ano depois, porém, tentei de novo e finalmente veio o “sim”.

Gosto muito do significado dessa foto. Foi tirada em 2015, quando eu achava que seria aprovada para estudar em Harvard em 2016, o que não aconteceu. Mas, se você olhar com atenção, percebe que ao fundo está escrito 2017 também. Coincidência?

Gosto muito do significado dessa foto. Foi tirada em 2015, quando eu achava que seria aprovada para estudar em Harvard em 2016, o que não aconteceu. Mas, se você olhar com atenção, percebe que ao fundo está escrito 2017 também. Coincidência?

Hoje, não sei expressar quão grata eu sou por ter “falhado” essas duas vezes. Vim para o intercâmbio dos sonhos de qualquer maneira, mas muito mais madura do que se o tivesse feito nas duas oportunidades anteriores, o que me faz aproveitar a experiência de uma maneira muito mais consciente e completa. Ademais, tudo que eu vivi nos dois últimos anos em que eu estava no Brasil por não estar nem no programa do Ciências Sem Fronteiras nem do de Harvard foi tão maravilhoso que sinto que qualquer palavra que eu tentar usar para descrever será um eufemismo. Eu não trocaria tudo que aconteceu por eu ter recebido esses dois “nãos” por nada, nada mesmo. Meus pais sempre falaram que Deus escreve certo por linhas tortas, e cada vez mais eu tenho fé nisso. Ou talvez Ele escreva certo por linhas certas, nós é que lemos torto.

Afinal, onde eu quero chegar com tudo isso? Apesar de alguns dos textos deste blog serem mais genéricos, escrevo a maioria deles pensando especificamente em alguém, de pessoas próximas como meus pais, minha irmã, meu namorado, até desconhecidos como um vestibulando ansioso ou uma bandeirantina em dúvida entre medicina e direito. Contudo, dessa vez, o leitor em foco sou eu. Eu sempre me cobrei muito em diversos aspectos, e hoje sou eu que preciso ouvir: é permitido falhar. Espero que esse lembrete te ajude também.

Em uma sociedade na qual há uma cobrança gigantesca, tanto dos outros quanto de nós mesmos, para sermos inteligentes, ricos, fitness e bem sucedidos, quando sobra tempo para simplesmente sermos? Para sentar na janela com um pijama bem confortável e uma xícara de chocolate quente em mãos, ver a chuva cair e deixar um ou outro errinho te preparar para um dia vitorioso no futuro?

Até a próxima!

 

Carol Martines

_____________________________________________________________________________

Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.” (Clarice Lispector)

O gênio da lâmpada

Oi, tudo bem?

Esta foto e todas as outras deste post mostram o crepúsculo em diferentes locais de Boston na última semana

Esta foto e todas as outras deste post mostram o crepúsculo em diferentes locais de Boston na última semana

Tem sido muito interessante essa experiência de escrever semanalmente em um blog, pois, entre várias outras coisas, sinto-me constantemente estimulada a ir atrás de algo novo, peculiar, desconhecido. Toda semana, procuro algo digno de nota, seja pela beleza, pelo caráter informativo, pela surpresa. Contudo, sejamos sinceros: nem sempre o texto reflete o que vivo mais intensamente a cada ciclo de sete dias aqui em Boston. E a verdade é que, se assim fosse, este provavelmente seria o blog mais chato do mundo. Desde janeiro, tenho vivido uma explosão de experiências diferentes: aprendi muito sobre ciência no laboratório, conheci pessoas e lugares incríveis, frequentei conferências enriquecedores, superei os limites do meu corpo com a corrida, lidei com a saudade, sofri com o frio, aprendi a cozinhar e cuidar da casa, reimaginei meu futuro como médica, e por aí vai. Contudo, apesar da inegável relevância dos acontecimentos supracitados, eu considero tudo isso uma parte relativamente pequena desse presente lindo que tem sido o intercâmbio. Não que a importância disso tudo seja menor, mas qual seria o real valor dessas vivências se resultassem em tristeza? Este seria o blog mais entediante do mundo porque, se cada post reunisse o que eu mais senti no fundo do meu coração a cada semana, todos os textos seriam praticamente iguais: eu falaria de 40 modos diferentes como essa experiência me faz inenarravelmente feliz. Como cada dia eu acordo sorrindo com a luz dourada da manhã entrando pela janela do meu quartinho. Como é simples e maravilhosa a sensação do ar, quente ou frio a depender da estação, enchendo meus pulmões na caminhada diária até a Harvard University. Como eu nunca estive tão inspirada, tão em contato com Deus e com o que há de melhor em mim. Como eu mudo meu caminho no final de várias tardes só para apreciar o horizonte pintar-se de um rosa apaixonante enquanto o sol se põe. Como eu me sinto segura e livre, de um jeito que nunca imaginei que fosse possível. Como o céu dessa cidade parece tão amplo e infinito, me fazendo querer voar cada vez mais…

2

Não que eu não fosse feliz antes, de modo algum. Sempre fui e sempre serei. Mas esse ano de 2017 em Boston, ah… é mágico, é especial. E confesso que já estava há semanas tentando colocar em palavras toda essa ressignificação da palavra felicidade para mim quando algo aconteceu.

3

No final da tarde de uma quinta-feira de setembro, enquanto cruzava a Harvard Bridge, ponte que une as cidades de Boston e Cambridge, encontrei uma lâmpada. Como reza a lenda, esfreguei-a e de lá saiu um gênio. Porém, ao invés de me oferecer três desejos como seria esperado, o gênio disse que eu poderia escolher entre uma máquina do tempo e uma máquina de teletransporte. Pensei em todos os momentos lindos do meu passado que poderia reviver com a primeira. Pensei em todos os lugares maravilhosos desse mundo aos quais eu poderia me teletransportar com a segunda.

O que você escolheria?

4

Olhei para o sol se pondo soberano nas águas do rio, e não tive dúvidas. Arremessei a lâmpada com o gênio o mais longe que pude no Charles River, e continuei minha caminhada muito contente: eu já estava exatamente no lugar e no tempo certos. Esse é o meu real significado pessoal de felicidade.

5

Até a próxima!

Carol Martines

_____________________________________________________________________________

Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“Claro que está acontecendo dentro de sua cabeça, Harry, mas por que isso deveria significar que não é real?” (Alvo Dumbledore em Harry Potter e as Relíquias da Morte – J.K. Rowling).

Caminho$ da Ciência no Bra$il

Olá! Bem-vindo mais uma vez!

Mais uma foto na frente da Harvard Medical School, porque a beleza desse lugar não cansa nunca!

Mais uma foto na frente da Harvard Medical School, porque a beleza desse lugar não cansa nunca!

Desde o dia 30 de março desse ano, quando o governo Temer anunciou um corte de 44% na verba federal destinada à ciência no Brasil, fiquei refletindo sobre o impacto que essa medida, se concretizada, causaria na nossa já deficiente produção científica.

Da minha própria experiência, comparando o que eu vivi na USP quando fazia iniciação científica com o que eu vivo aqui em Harvard, posso te garantir que, enquanto no primeiro caso praticamente tudo esbarrava na limitação financeira, no segundo, o dinheiro raramente é um problema. Naturalmente, nas reuniões do laboratório Brain, aqui nos Estados Unidos, sempre discutimos a maneira de tornar cada experimento mais custo-efetivo, mas, se for realmente necessário um gasto maior, a verba está disponível para tal. Vamos a um exemplo para tornar a situação mais clara: se precisarmos de uma determinada máquina que custa 10 mil dólares para um projeto, vamos primeiramente procurar se outros laboratórios associados ao nosso já a tem e podem permitir que a utilizemos. Se sim, melhor. Caso contrário, compraremos a máquina. Enfim, em Harvard, economizar é sempre o objetivo, mas nunca um fator limitante, entende? Já, no Brasil, a compra do aparelho provavelmente não seria possível. Obviamente, produzir conteúdo científico de qualidade torna-se muito mais fácil nas condições existentes nos Estados Unidos.

Entretanto, apesar de estar completamente imersa no mundo da pesquisa durante o intercâmbio, estou certa de que não tenho o conhecimento necessário para discutir a fundo esse assunto, uma vez que me falta uma visão mais ampla da situação. Aqui em Harvard, eu simplesmente acrescento o que eu preciso na lista de compras do pesquisador responsável pelos suprimentos do laboratório, e tudo surge magicamente poucos dias depois sobre a bancada, de tubos plásticos relativamente baratos a nano partículas de prata que custam mais de mil dólares. Desse modo, como me falta a expertise necessária para discorrer sobre a diferença entre o Brasil e os EUA nesse quesito, decidi conversar com quem realmente entende disso: David Kasahara, pesquisador brasileiro que trabalha na Harvard School of Public Health, por sorte, no mesmo corredor que eu. David estudou na rede pública a vida toda até ser aprovado no curso de Farmácia da USP. Fez mestrado e doutorado na Faculdade de Medicina da USP, pós-doutorado na University of Vermont e trabalha na Harvard University desde 2008 como research scientist. Muito obrigada por contribuir com esse post e responder às minhas milhões de perguntas, David!

University of Vermont, onde David fez pós-doutorado

University of Vermont, onde David fez pós-doutorado

Comecei a conversa questionando-o sobre as diferenças entre pesquisar aqui e no Brasil, ao que David respondeu: “Primeiramente, é preciso entender como o dinheiro entra no laboratório em cada um desses países. Nos EUA, o principal investigator (cientista chefe de um laboratório) aplica para um grant, no qual ele informa o que ele e seu time pretendem pesquisar e quanto dinheiro será necessário para tal. Se o grant for aprovado, o financiamento adquirido deve ser utilizado pelo principal investigator para cobrir TODOS os gastos relacionados ao projeto: seu próprio salário e o de todos os outros componentes do time, a matrícula dos alunos, as taxas cobradas pela universidade pelo uso do espaço do laboratório e apenas o que sobrar de tudo isso é destinado à ciência em si. Felizmente, no Brasil, o financiamento obtido para um projeto pode ser usado exclusivamente para a última parte, já que todo o resto é coberto pelas universidades, de modo que o principal investigator não precisa se preocupar com salários, contas de luz, taxas de limpeza, etc.  Nesse aspecto, de fato, a ciência brasileira leva vantagem. Onde está o problema então? As quantias adquiridas pelo pesquisadores norte-americanos são assustadoramente maiores, alcançando a casa dos milhões, enquanto no Brasil a maioria dos projetos recebe valores bem mais modestos. Até 2005, quando eu ainda morava no Brasil, a verba ainda era razoável. Pequena, mas razoável. Contudo, com o declínio da economia brasileira, o dinheiro destinado à ciência diminuiu em proporções ainda maiores.”

Segundo dados de 2013, os EUA investem 2,8% do PIB em pesquisa e desenvolvimento, o que corresponde a 450 bilhões de dólares, mais do que qualquer outro país do mundo. O Brasil, por sua vez, destina 1,3% do PIB para essa finalidade, o que significa tímidos 31 bilhões de dólares, figurando em 10o lugar no ranking de investimento absoluto, mas apenas em 36o quando analisamos o investimento relativo do PIB em pesquisa em comparação com outros países.

Outra diferença marcante é, segundo David, a complexidade dos questionamentos feitos em cada um desses países. “Aqui na América do Norte, como há uma competitividade muito maior pelos grants, as perguntas feitas pelos cientistas são mais avançadas e, consequentemente, levam a uma maior inovação quando respondidas do que as pesquisas brasileiras. Outro ponto a ser ressaltado é que, enquanto os EUA investem tanto em ciência básica quanto aplicada, o Brasil foca muito mais na segunda. Exemplificando: a área básica estuda o funcionamento de um determinado receptor de uma célula, já a aplicada verifica o impacto de um medicamento que atua nesse receptor na saúde dos pacientes. Ambas são extremamente importantes e complementares.”

Quando perguntado sobre a vida do cientista, David diz que, nos EUA, trabalha-se mais. “Além de trabalhar mais horas em Harvard ou em qualquer outra universidade americana, o pesquisador pode dedicar-se quase exclusivamente à pesquisa, ao passo que, na USP, por exemplo, o cientista é obrigado a dividir seu tempo entre o laboratório e a sala de aula. Ademais, além de trabalhar mais horas, o pesquisador nos EUA também é mais bem remunerado. Enquanto isso, no Brasil, o salário desestimula muitas pessoas que gostariam de trabalhar com ciência. Ganha-se mais para ser professor em faculdades particulares do que pesquisador em universidades públicas. Quem vai querer dedicar-se à ciência nessas condições?”

Sobre os rumos da ciência no Brasil, não há dúvidas de que as diferenças acima mencionadas e o investimento cada vez menor vão impactar no desenvolvimento e no progresso: “Se ciência fosse uma maratona, o pesquisador americano é tão beneficiado que já começaria 20 quilômetros na frente do brasileiro.”

Sempre procuro terminar os posts de modo otimista, porque eu realmente sou uma pessoa muito positiva, mas, dessa vez, fazê-lo seria irrealista. Enquanto nosso país e nossos políticos não transformarem ciência e educação em prioridade, o futuro será triste. E as mentes brasileiras brilhantes como David – não se engane, pode nos faltar dinheiro, mas nos sobra riqueza intelectual – continuarão a sair do Brasil em busca de lugares que propiciem melhores condições para suas descobertas científicas.

Por fim, sei que a comparação do nosso Brasil com o gigante dos Estados Unidos é de certa forma injusta, mas são os únicos dois países em que já fiz pesquisa, então não poderia ser diferente. E mais: se queremos ser melhores, precisamos nos comparar com os melhores, não é mesmo?

Mais uma vez, muito obrigada, David Kasahara!

Até o post da semana que vem!

 

Carol Martines

_____________________________________________________________________________

Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“A razão é o passo, o aumento da ciência, o caminho, e o benefício da humanidade é o fim.”. (Thomas Hobbes)

2 encontros

Olá, tudo bem?

Dizia Vinicius de Moraes que a vida é a arte do encontro. Alguns encontros, os melhores, são para uma eternidade. Outros, porém, são breves e podem quase passar despercebidos. Há também aqueles encontros rápidos mas que definitivamente nos marcam por muito tempo, e é desses que eu quero falar hoje. Nos últimos meses, duas pessoas passaram pelo meu caminho, e me ensinaram muito mais do que podem imaginar.

Comecemos pela Jennifer Lee. Em um dia chuvoso de maio, conheci essa menina sorridente na Conferência Anual do Instituto Lown, uma organização com o objetivo de promover a humanização da medicina e transformar os atuais sistemas de saúde, melhorando assim a vida dos pacientes. A propósito, esse instituto foi fundado pelo Dr. Bernand Lown, médico que revolucionou a Cardiologia com a invenção do desfibrilador, aquele aparelho utilizado para ressuscitação cardíaca por meio de um “choque” que aparece em todo filme sobre medicina. Como se isso já não fosse suficiente, o Dr. Lown recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1985 por sua constante luta contra a guerra nuclear. Ele também é Professor Emérito na Harvard School of Public Health, onde eu tenho a honra de estudar. Toda essa introdução é para reforçar que essa conferência era realmente algo de outro mundo. Contudo, o centro de convenções em um hotel em Quincy, perto de Boston, era pequeno, pois o objetivo era abrir espaço para discussão. Desse modo, a maioria dos presentes era extremamente ilustre – eu só tive o privilégio de estar lá porque o meu chefe providenciou meu convite com sua enorme influência. Não preciso nem comentar que o aprendizado que eu tive lá foi inimaginável.

Sem acreditar que eu estava mesmo na Lown Institute Annual Conference

Sem acreditar que eu estava mesmo na Lown Institute Annual Conference

Foi nesse ambiente de nível intelectual exorbitante que conheci a Jennifer. Traços orientais, sorriso fácil, 22 anos. A idade destoava do resto dos presentes tanto quanto eu, e por isso começamos a conversar. Eu definitivamente não esperava o que ela me contaria a seguir.

Jennifer, nascida em Nova York, formou-se pela Johns Hopkins University em Sociologia, Estudos Internacionais e Saúde Pública. Também estudou política, filosofia e economia na Oxford University (duas das melhores universidades do mundo). Já morou e fez pesquisa científica no Brasil, Índia, Coreia do Sul e África do Sul. É a fundadora de uma campanha de um alcance inacreditável com o objetivo de engajar jovens na política a fim de garantir os direitos humanos principalmente na área da saúde, motivo pelo qual foi convidada pela ONU para participar de um treinamento em Genebra sobre o funcionamento da organização e mecanismos de direitos humanos. Seu próximo destino é a Cambridge University, onde estudará Políticas Públicas.

Enquanto ela me contava tudo aquilo com a maior naturalidade e humildade do mundo, como se suas conquistas fossem simples, meu queixo caía cada vez mais. Tenho certeza que, em um futuro bem próximo, Jennifer estará no Congresso dos Estados Unidos, na ONU ou algo do gênero. Ela é, sem sombra de dúvidas, uma pessoa que fará a diferença no mundo.

Depois de nos despedirmos, no longo trajeto de trem de volta à Boston, eu me perguntava: e eu, será que eu farei a diferença no mundo? Normalmente, fico muito satisfeita comigo mesma por fazer intercâmbio em Harvard e cursar medicina na USP. Dessa vez, porém, as minhas conquistas não me pareciam nem um pouco impressionantes, apesar de Jennifer dizer educadamente que eram. Entretanto, não me senti “diminuída” ou “pior” em nenhum momento: meu sentimento foi de inspiração. Compreendi que sempre é possível almejar mais, conquistar mais – principalmente quando se trata de um objetivo final tão nobre como saúde ou direitos humanos. Saí daquele encontro verdadeiramente inspirada a ser melhor, para mim e para os outros. Sabe aquele clichê de “vou tornar o mundo um lugar melhor”? Exatamente isso, sem tirar nem por. Obrigada, Jennifer!

2-2

Agora, vamos ao segundo e último encontro. Ao contrário do anterior, Samuel Goldman não tem um currículo acadêmico digno de nota, apenas concluiu o Ensino Médio. Mas quem disse que apenas pessoas com diplomas universitários têm algo importante a nos ensinar?

Naquela semana, eu estava na capital dos Estados Unidos para o congresso da American Thoracic Society, evento sobre o qual eu falei em detalhes no post Congresso em Washington, D.C. Em um dos últimos dias da conferência, depois de uma tarde cansativa repleta de palestras, estava eu na área comum do hostel onde fiquei hospedada. Não sei se você já se hospedou em um hostel, mas saiba que, ao contrário de hotéis, onde as pessoas mal conversam, em hostels todo mundo acaba se conhecendo, sendo a esmagadora maioria composta por estudantes sem dinheiro para pagar um quarto privado.

Em meio àquela agitação de jovens na sala do hostel, um menino franzino sentou-se ao meu lado. Aparentava não mais do que 17 anos, mas tinha na verdade 22, a mesma idade que eu e Jennifer. Eu não estava muito disposta a conversar a princípio, mas o garoto parecia meio estranho, como se estivesse escondendo alguma coisa, o que despertou minha curiosidade. Percebi que ele estava nitidamente com dor no joelho e perguntei. Ele respirou fundo, e começou a contar sua história. Eu adoraria ter inventado todo esse relato só para tornar o post mais interessante, mas infelizmente, não é o caso.

Samuel, o segundo dos quatro filhos da família Goldman, nasceu em Tel Aviv, Israel, onde todos os cidadãos aos 18 anos devem obrigatoriamente apresentar-se ao serviço militar. Se física e mentalmente aptos, como era o caso dele, devem servir por três anos no mínimo. Como Samuel optou por servir como sniper (franco-atirador), atividade que exige muito treinamento, o período estendia-se para quatro anos. (Nesse ponto da conversa, eu já estava tremendo… mal sabia o que viria a seguir.) Desde o início do serviço, ele foi agrupado com mais dois meninos, e o trio tornou-se inseparável: dormiam, comiam e praticavam juntos. Eram irmãos de verdade, nas palavras dele. O trio também tinha uma importância estratégica, tendo cada um uma função específica dentro de uma missão, e a do Samuel era disparar tiros precisos de longa distância. Eu olhava para aquele menino pequeno e me recusava a acreditar que ele era capaz de segurar uma arma.

A história prosseguiu. O trio, após estafante treinamento militar, foi enviado para a guerra na Síria. Sim, a Síria, da qual ouvimos tanto falar no Jornal Nacional, mas que parece uma realidade tão distante… de repente, tão perto. O menino sentado ao meu lado estivera naquela guerra. Entre várias missões, uma delas deu errado e seus dois amigos morreram na sua frente. Samuel ficou tão abalado que foi afastado temporariamente e internado por questões psiquiátricas. Quando retornou ao serviço, ainda não plenamente recuperado, uma das primeiras missões também falhou, e ele foi atingido por uma bala no joelho, mas, segundo ele, “era para ter sido no coração”. O menino quase morreu no hospital, foi operado, porém houve sequelas – por isso, a dor no joelho.

Fonte: Portal Vermelho

Fonte: Portal Vermelho

Depois disso, foi definitivamente afastado e decidiu viajar por seis meses pela América para tentar superar tudo isso. Washington era sua primeira parada. E agora, o que Samuel pensava da guerra? “Não importa quem ganha, quem perde…só quero que acabe.” Quando comecei a pedir desculpas por tê-lo feito me contar o que ele certamente queria esquecer, percebi que estava chorando. Sequei as lágrimas, agradeci-o por ter dividido sua história comigo e fui deitar, mas foi muito difícil dormir naquela noite. Era informação demais para digerir. Encontrei o Samuel nos dias seguintes no hostel, mas não falamos mais sobre isso. Sei que ele está bem, atualmente em algum lugar no México, seguindo sua aventura. Provavelmente, nem lembra de mim, mas eu nunca esquecerei a história dele. Obrigada, Samuel!

Afinal, o que eu levei de cada um desses encontros? Por que foram tão marcantes? Jennifer me ensinou a sempre sonhar mais, querer mais, alcançar mais. Não existe zona de conforto, não existe limite e não existem dúvida: você pode mudar o mundo, sim. Por sua vez, Samuel e a lição mais importante: seja sempre grato por absolutamente tudo. Do outro lado do mundo, há pessoas da minha idade passando por coisas pelas quais nenhum ser humano deveria passar. Problemas de verdade, guerra de verdade. É muito longe daqui, certamente, mas ainda assim, é o mesmo mundo. E às vezes perdemos o sono por tão pouco…

Até a próxima semana que vem, e que você tenha encontros lindos pela frente!

Carol Martines
_____________________________________________________________________________

Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro nessa vida.”. (Vinicius de Moraes)