É permitido falhar

Olá, tudo bem com você­?

Em um dia normal, você acorda e checa o Facebook. Em menos de um minuto, é bombardeado por imagens e textos da blogueira fitness com corpo escultural que já terminou de malhar antes das sete da manhã, o menino prodígio que aos 16 anos foi aprovado em dez vestibulares, a atriz americana que está tomando champanhe em frente à Torre Eiffel, e por aí vai. Todo mundo no planeta parece estar nadando em sucesso, e você começa humildemente o seu dia pensando em tudo que deve fazer para ser nada menos do que fitness, inteligente e bem sucedido, tudo ao mesmo tempo. A sociedade cobra, e você se cobra.

Convenhamos que ninguém vive só de academia e suco verde

Convenhamos que ninguém vive só de academia e suco verde

Diversas vezes, já compartilhei com você aqui no blog histórias inspiradoras, seja de sucesso profissional, acadêmico ou pessoal, tanto minhas quanto de outras pessoas que tive o prazer de conhecer. A intenção? Sempre querer te estimular a ter gana e coragem de buscar seus sonhos, porque eu verdadeiramente acredito nisso como um combustível para uma vida plena. Todavia, ninguém funciona assim 365 dias por ano. Apesar de algumas pessoas aparentarem certa “invencibilidade”, meu amigo, isso não existe. Não quero iniciar um discurso derrotista – tenho grande aversão a esse tipo de postura, para ser sincera. O que eu quero dizer para você hoje, em meio a esse mundo em que todos buscam ser super-homem e mulher-maravilha o tempo todo, é: tudo bem falhar, tudo bem se permitir. Tudo bem dormir até tarde um dia em que você deveria estar estudando mas a exaustão física ou mental não lhe permite. Tudo bem faltar à academia. Tudo bem tirar uma nota ruim. Tudo bem estar mal arrumado. Está tudo bem. Desde que essas situações não se tornem rotina, sejam exceção e não regra.

Tratamos muitos das conquistas, dos acertos, mas rarissimamente falamos dos erros, sendo que esses são, não um fim horrível a ser temido, e sim uma etapa que constitui o trajeto para a vitória. É muito fácil encher o peito para contar como fui aprovada na USP e em Harvard ou como corri uma meia maratona. E as derrotas? Ah, dessas ninguém quer falar: seria o mesmo que admitir suas fraquezas aos quatro ventos. Logo, diferente de 99% do conteúdo que circula na internet atualmente, hoje conversaremos sobre falhas, defeitos, tudo isso que tentamos negar, mas que fazem parte de quem somos. Veja bem, não estou falando de modo algum que devemos estudar, treinar ou trabalhar menos. A dedicação deve sempre ser muito intensa. Hoje eu só tenho menos medo de errar, porque, ao contrário do que eu acreditava quando estava prestando vestibular, falhar está longe de ser o fim do mundo.

É muito difícil ouvir um “não”, principalmente quando se está acostumado com o contrário. Eu recebi mais “nãos” do que eu gostaria nos últimos anos, mas como esta página é sobre intercâmbio, ater-me-ei ao tema.

O primeiro “não” foi em 2014, quando apliquei para o intercâmbio do Ciências Sem Fronteiras. Havia boatos de que esse seria o último ano do programa, e realmente foi, por isso era tão importante ser aprovada. Eu sempre sonhara em fazer intercâmbio, e tinha certeza absoluta de que passaria, afinal, não conhecia ninguém da USP que tivesse sido reprovado. Porém, acredite se quiser, eu digitei incorretamente o meu CPF na hora de fazer a inscrição, e não passei. Tentei de tudo para mudar o resultado, mas não houve solução. Eu chorei muito, muito mesmo. Nunca contei o quanto isso me chateou para ninguém além da minha família, mas, a essa altura do campeonato, não faz o menor sentido esconder. (Nunca fez, na verdade, mas às vezes precisamos de um tempo para constatar isso.)

O segundo foi no ano seguinte, em 2015, quando apliquei para o intercâmbio de Harvard pela primeira vez. Como já detalhei em um dos primeiros posts do ano, eu fui recusada, e essa resposta negativa doeu ainda mais. O sonho do intercâmbio parecia se despedaçar bem ao alcance dos meus olhos, mas não das minhas mãos. Em ambas as tentativas, tenho plena consciência de que o erro foi totalmente meu, e não uma injustiça do sistema de seleção. Um ano depois, porém, tentei de novo e finalmente veio o “sim”.

Gosto muito do significado dessa foto. Foi tirada em 2015, quando eu achava que seria aprovada para estudar em Harvard em 2016, o que não aconteceu. Mas, se você olhar com atenção, percebe que ao fundo está escrito 2017 também. Coincidência?

Gosto muito do significado dessa foto. Foi tirada em 2015, quando eu achava que seria aprovada para estudar em Harvard em 2016, o que não aconteceu. Mas, se você olhar com atenção, percebe que ao fundo está escrito 2017 também. Coincidência?

Hoje, não sei expressar quão grata eu sou por ter “falhado” essas duas vezes. Vim para o intercâmbio dos sonhos de qualquer maneira, mas muito mais madura do que se o tivesse feito nas duas oportunidades anteriores, o que me faz aproveitar a experiência de uma maneira muito mais consciente e completa. Ademais, tudo que eu vivi nos dois últimos anos em que eu estava no Brasil por não estar nem no programa do Ciências Sem Fronteiras nem do de Harvard foi tão maravilhoso que sinto que qualquer palavra que eu tentar usar para descrever será um eufemismo. Eu não trocaria tudo que aconteceu por eu ter recebido esses dois “nãos” por nada, nada mesmo. Meus pais sempre falaram que Deus escreve certo por linhas tortas, e cada vez mais eu tenho fé nisso. Ou talvez Ele escreva certo por linhas certas, nós é que lemos torto.

Afinal, onde eu quero chegar com tudo isso? Apesar de alguns dos textos deste blog serem mais genéricos, escrevo a maioria deles pensando especificamente em alguém, de pessoas próximas como meus pais, minha irmã, meu namorado, até desconhecidos como um vestibulando ansioso ou uma bandeirantina em dúvida entre medicina e direito. Contudo, dessa vez, o leitor em foco sou eu. Eu sempre me cobrei muito em diversos aspectos, e hoje sou eu que preciso ouvir: é permitido falhar. Espero que esse lembrete te ajude também.

Em uma sociedade na qual há uma cobrança gigantesca, tanto dos outros quanto de nós mesmos, para sermos inteligentes, ricos, fitness e bem sucedidos, quando sobra tempo para simplesmente sermos? Para sentar na janela com um pijama bem confortável e uma xícara de chocolate quente em mãos, ver a chuva cair e deixar um ou outro errinho te preparar para um dia vitorioso no futuro?

Até a próxima!

 

Carol Martines

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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.” (Clarice Lispector)

O gênio da lâmpada

Oi, tudo bem?

Esta foto e todas as outras deste post mostram o crepúsculo em diferentes locais de Boston na última semana

Esta foto e todas as outras deste post mostram o crepúsculo em diferentes locais de Boston na última semana

Tem sido muito interessante essa experiência de escrever semanalmente em um blog, pois, entre várias outras coisas, sinto-me constantemente estimulada a ir atrás de algo novo, peculiar, desconhecido. Toda semana, procuro algo digno de nota, seja pela beleza, pelo caráter informativo, pela surpresa. Contudo, sejamos sinceros: nem sempre o texto reflete o que vivo mais intensamente a cada ciclo de sete dias aqui em Boston. E a verdade é que, se assim fosse, este provavelmente seria o blog mais chato do mundo. Desde janeiro, tenho vivido uma explosão de experiências diferentes: aprendi muito sobre ciência no laboratório, conheci pessoas e lugares incríveis, frequentei conferências enriquecedores, superei os limites do meu corpo com a corrida, lidei com a saudade, sofri com o frio, aprendi a cozinhar e cuidar da casa, reimaginei meu futuro como médica, e por aí vai. Contudo, apesar da inegável relevância dos acontecimentos supracitados, eu considero tudo isso uma parte relativamente pequena desse presente lindo que tem sido o intercâmbio. Não que a importância disso tudo seja menor, mas qual seria o real valor dessas vivências se resultassem em tristeza? Este seria o blog mais entediante do mundo porque, se cada post reunisse o que eu mais senti no fundo do meu coração a cada semana, todos os textos seriam praticamente iguais: eu falaria de 40 modos diferentes como essa experiência me faz inenarravelmente feliz. Como cada dia eu acordo sorrindo com a luz dourada da manhã entrando pela janela do meu quartinho. Como é simples e maravilhosa a sensação do ar, quente ou frio a depender da estação, enchendo meus pulmões na caminhada diária até a Harvard University. Como eu nunca estive tão inspirada, tão em contato com Deus e com o que há de melhor em mim. Como eu mudo meu caminho no final de várias tardes só para apreciar o horizonte pintar-se de um rosa apaixonante enquanto o sol se põe. Como eu me sinto segura e livre, de um jeito que nunca imaginei que fosse possível. Como o céu dessa cidade parece tão amplo e infinito, me fazendo querer voar cada vez mais…

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Não que eu não fosse feliz antes, de modo algum. Sempre fui e sempre serei. Mas esse ano de 2017 em Boston, ah… é mágico, é especial. E confesso que já estava há semanas tentando colocar em palavras toda essa ressignificação da palavra felicidade para mim quando algo aconteceu.

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No final da tarde de uma quinta-feira de setembro, enquanto cruzava a Harvard Bridge, ponte que une as cidades de Boston e Cambridge, encontrei uma lâmpada. Como reza a lenda, esfreguei-a e de lá saiu um gênio. Porém, ao invés de me oferecer três desejos como seria esperado, o gênio disse que eu poderia escolher entre uma máquina do tempo e uma máquina de teletransporte. Pensei em todos os momentos lindos do meu passado que poderia reviver com a primeira. Pensei em todos os lugares maravilhosos desse mundo aos quais eu poderia me teletransportar com a segunda.

O que você escolheria?

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Olhei para o sol se pondo soberano nas águas do rio, e não tive dúvidas. Arremessei a lâmpada com o gênio o mais longe que pude no Charles River, e continuei minha caminhada muito contente: eu já estava exatamente no lugar e no tempo certos. Esse é o meu real significado pessoal de felicidade.

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Até a próxima!

Carol Martines

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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“Claro que está acontecendo dentro de sua cabeça, Harry, mas por que isso deveria significar que não é real?” (Alvo Dumbledore em Harry Potter e as Relíquias da Morte – J.K. Rowling).

Caminho$ da Ciência no Bra$il

Olá! Bem-vindo mais uma vez!

Mais uma foto na frente da Harvard Medical School, porque a beleza desse lugar não cansa nunca!

Mais uma foto na frente da Harvard Medical School, porque a beleza desse lugar não cansa nunca!

Desde o dia 30 de março desse ano, quando o governo Temer anunciou um corte de 44% na verba federal destinada à ciência no Brasil, fiquei refletindo sobre o impacto que essa medida, se concretizada, causaria na nossa já deficiente produção científica.

Da minha própria experiência, comparando o que eu vivi na USP quando fazia iniciação científica com o que eu vivo aqui em Harvard, posso te garantir que, enquanto no primeiro caso praticamente tudo esbarrava na limitação financeira, no segundo, o dinheiro raramente é um problema. Naturalmente, nas reuniões do laboratório Brain, aqui nos Estados Unidos, sempre discutimos a maneira de tornar cada experimento mais custo-efetivo, mas, se for realmente necessário um gasto maior, a verba está disponível para tal. Vamos a um exemplo para tornar a situação mais clara: se precisarmos de uma determinada máquina que custa 10 mil dólares para um projeto, vamos primeiramente procurar se outros laboratórios associados ao nosso já a tem e podem permitir que a utilizemos. Se sim, melhor. Caso contrário, compraremos a máquina. Enfim, em Harvard, economizar é sempre o objetivo, mas nunca um fator limitante, entende? Já, no Brasil, a compra do aparelho provavelmente não seria possível. Obviamente, produzir conteúdo científico de qualidade torna-se muito mais fácil nas condições existentes nos Estados Unidos.

Entretanto, apesar de estar completamente imersa no mundo da pesquisa durante o intercâmbio, estou certa de que não tenho o conhecimento necessário para discutir a fundo esse assunto, uma vez que me falta uma visão mais ampla da situação. Aqui em Harvard, eu simplesmente acrescento o que eu preciso na lista de compras do pesquisador responsável pelos suprimentos do laboratório, e tudo surge magicamente poucos dias depois sobre a bancada, de tubos plásticos relativamente baratos a nano partículas de prata que custam mais de mil dólares. Desse modo, como me falta a expertise necessária para discorrer sobre a diferença entre o Brasil e os EUA nesse quesito, decidi conversar com quem realmente entende disso: David Kasahara, pesquisador brasileiro que trabalha na Harvard School of Public Health, por sorte, no mesmo corredor que eu. David estudou na rede pública a vida toda até ser aprovado no curso de Farmácia da USP. Fez mestrado e doutorado na Faculdade de Medicina da USP, pós-doutorado na University of Vermont e trabalha na Harvard University desde 2008 como research scientist. Muito obrigada por contribuir com esse post e responder às minhas milhões de perguntas, David!

University of Vermont, onde David fez pós-doutorado

University of Vermont, onde David fez pós-doutorado

Comecei a conversa questionando-o sobre as diferenças entre pesquisar aqui e no Brasil, ao que David respondeu: “Primeiramente, é preciso entender como o dinheiro entra no laboratório em cada um desses países. Nos EUA, o principal investigator (cientista chefe de um laboratório) aplica para um grant, no qual ele informa o que ele e seu time pretendem pesquisar e quanto dinheiro será necessário para tal. Se o grant for aprovado, o financiamento adquirido deve ser utilizado pelo principal investigator para cobrir TODOS os gastos relacionados ao projeto: seu próprio salário e o de todos os outros componentes do time, a matrícula dos alunos, as taxas cobradas pela universidade pelo uso do espaço do laboratório e apenas o que sobrar de tudo isso é destinado à ciência em si. Felizmente, no Brasil, o financiamento obtido para um projeto pode ser usado exclusivamente para a última parte, já que todo o resto é coberto pelas universidades, de modo que o principal investigator não precisa se preocupar com salários, contas de luz, taxas de limpeza, etc.  Nesse aspecto, de fato, a ciência brasileira leva vantagem. Onde está o problema então? As quantias adquiridas pelo pesquisadores norte-americanos são assustadoramente maiores, alcançando a casa dos milhões, enquanto no Brasil a maioria dos projetos recebe valores bem mais modestos. Até 2005, quando eu ainda morava no Brasil, a verba ainda era razoável. Pequena, mas razoável. Contudo, com o declínio da economia brasileira, o dinheiro destinado à ciência diminuiu em proporções ainda maiores.”

Segundo dados de 2013, os EUA investem 2,8% do PIB em pesquisa e desenvolvimento, o que corresponde a 450 bilhões de dólares, mais do que qualquer outro país do mundo. O Brasil, por sua vez, destina 1,3% do PIB para essa finalidade, o que significa tímidos 31 bilhões de dólares, figurando em 10o lugar no ranking de investimento absoluto, mas apenas em 36o quando analisamos o investimento relativo do PIB em pesquisa em comparação com outros países.

Outra diferença marcante é, segundo David, a complexidade dos questionamentos feitos em cada um desses países. “Aqui na América do Norte, como há uma competitividade muito maior pelos grants, as perguntas feitas pelos cientistas são mais avançadas e, consequentemente, levam a uma maior inovação quando respondidas do que as pesquisas brasileiras. Outro ponto a ser ressaltado é que, enquanto os EUA investem tanto em ciência básica quanto aplicada, o Brasil foca muito mais na segunda. Exemplificando: a área básica estuda o funcionamento de um determinado receptor de uma célula, já a aplicada verifica o impacto de um medicamento que atua nesse receptor na saúde dos pacientes. Ambas são extremamente importantes e complementares.”

Quando perguntado sobre a vida do cientista, David diz que, nos EUA, trabalha-se mais. “Além de trabalhar mais horas em Harvard ou em qualquer outra universidade americana, o pesquisador pode dedicar-se quase exclusivamente à pesquisa, ao passo que, na USP, por exemplo, o cientista é obrigado a dividir seu tempo entre o laboratório e a sala de aula. Ademais, além de trabalhar mais horas, o pesquisador nos EUA também é mais bem remunerado. Enquanto isso, no Brasil, o salário desestimula muitas pessoas que gostariam de trabalhar com ciência. Ganha-se mais para ser professor em faculdades particulares do que pesquisador em universidades públicas. Quem vai querer dedicar-se à ciência nessas condições?”

Sobre os rumos da ciência no Brasil, não há dúvidas de que as diferenças acima mencionadas e o investimento cada vez menor vão impactar no desenvolvimento e no progresso: “Se ciência fosse uma maratona, o pesquisador americano é tão beneficiado que já começaria 20 quilômetros na frente do brasileiro.”

Sempre procuro terminar os posts de modo otimista, porque eu realmente sou uma pessoa muito positiva, mas, dessa vez, fazê-lo seria irrealista. Enquanto nosso país e nossos políticos não transformarem ciência e educação em prioridade, o futuro será triste. E as mentes brasileiras brilhantes como David – não se engane, pode nos faltar dinheiro, mas nos sobra riqueza intelectual – continuarão a sair do Brasil em busca de lugares que propiciem melhores condições para suas descobertas científicas.

Por fim, sei que a comparação do nosso Brasil com o gigante dos Estados Unidos é de certa forma injusta, mas são os únicos dois países em que já fiz pesquisa, então não poderia ser diferente. E mais: se queremos ser melhores, precisamos nos comparar com os melhores, não é mesmo?

Mais uma vez, muito obrigada, David Kasahara!

Até o post da semana que vem!

 

Carol Martines

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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“A razão é o passo, o aumento da ciência, o caminho, e o benefício da humanidade é o fim.”. (Thomas Hobbes)

2 encontros

Olá, tudo bem?

Dizia Vinicius de Moraes que a vida é a arte do encontro. Alguns encontros, os melhores, são para uma eternidade. Outros, porém, são breves e podem quase passar despercebidos. Há também aqueles encontros rápidos mas que definitivamente nos marcam por muito tempo, e é desses que eu quero falar hoje. Nos últimos meses, duas pessoas passaram pelo meu caminho, e me ensinaram muito mais do que podem imaginar.

Comecemos pela Jennifer Lee. Em um dia chuvoso de maio, conheci essa menina sorridente na Conferência Anual do Instituto Lown, uma organização com o objetivo de promover a humanização da medicina e transformar os atuais sistemas de saúde, melhorando assim a vida dos pacientes. A propósito, esse instituto foi fundado pelo Dr. Bernand Lown, médico que revolucionou a Cardiologia com a invenção do desfibrilador, aquele aparelho utilizado para ressuscitação cardíaca por meio de um “choque” que aparece em todo filme sobre medicina. Como se isso já não fosse suficiente, o Dr. Lown recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1985 por sua constante luta contra a guerra nuclear. Ele também é Professor Emérito na Harvard School of Public Health, onde eu tenho a honra de estudar. Toda essa introdução é para reforçar que essa conferência era realmente algo de outro mundo. Contudo, o centro de convenções em um hotel em Quincy, perto de Boston, era pequeno, pois o objetivo era abrir espaço para discussão. Desse modo, a maioria dos presentes era extremamente ilustre – eu só tive o privilégio de estar lá porque o meu chefe providenciou meu convite com sua enorme influência. Não preciso nem comentar que o aprendizado que eu tive lá foi inimaginável.

Sem acreditar que eu estava mesmo na Lown Institute Annual Conference

Sem acreditar que eu estava mesmo na Lown Institute Annual Conference

Foi nesse ambiente de nível intelectual exorbitante que conheci a Jennifer. Traços orientais, sorriso fácil, 22 anos. A idade destoava do resto dos presentes tanto quanto eu, e por isso começamos a conversar. Eu definitivamente não esperava o que ela me contaria a seguir.

Jennifer, nascida em Nova York, formou-se pela Johns Hopkins University em Sociologia, Estudos Internacionais e Saúde Pública. Também estudou política, filosofia e economia na Oxford University (duas das melhores universidades do mundo). Já morou e fez pesquisa científica no Brasil, Índia, Coreia do Sul e África do Sul. É a fundadora de uma campanha de um alcance inacreditável com o objetivo de engajar jovens na política a fim de garantir os direitos humanos principalmente na área da saúde, motivo pelo qual foi convidada pela ONU para participar de um treinamento em Genebra sobre o funcionamento da organização e mecanismos de direitos humanos. Seu próximo destino é a Cambridge University, onde estudará Políticas Públicas.

Enquanto ela me contava tudo aquilo com a maior naturalidade e humildade do mundo, como se suas conquistas fossem simples, meu queixo caía cada vez mais. Tenho certeza que, em um futuro bem próximo, Jennifer estará no Congresso dos Estados Unidos, na ONU ou algo do gênero. Ela é, sem sombra de dúvidas, uma pessoa que fará a diferença no mundo.

Depois de nos despedirmos, no longo trajeto de trem de volta à Boston, eu me perguntava: e eu, será que eu farei a diferença no mundo? Normalmente, fico muito satisfeita comigo mesma por fazer intercâmbio em Harvard e cursar medicina na USP. Dessa vez, porém, as minhas conquistas não me pareciam nem um pouco impressionantes, apesar de Jennifer dizer educadamente que eram. Entretanto, não me senti “diminuída” ou “pior” em nenhum momento: meu sentimento foi de inspiração. Compreendi que sempre é possível almejar mais, conquistar mais – principalmente quando se trata de um objetivo final tão nobre como saúde ou direitos humanos. Saí daquele encontro verdadeiramente inspirada a ser melhor, para mim e para os outros. Sabe aquele clichê de “vou tornar o mundo um lugar melhor”? Exatamente isso, sem tirar nem por. Obrigada, Jennifer!

2-2

Agora, vamos ao segundo e último encontro. Ao contrário do anterior, Samuel Goldman não tem um currículo acadêmico digno de nota, apenas concluiu o Ensino Médio. Mas quem disse que apenas pessoas com diplomas universitários têm algo importante a nos ensinar?

Naquela semana, eu estava na capital dos Estados Unidos para o congresso da American Thoracic Society, evento sobre o qual eu falei em detalhes no post Congresso em Washington, D.C. Em um dos últimos dias da conferência, depois de uma tarde cansativa repleta de palestras, estava eu na área comum do hostel onde fiquei hospedada. Não sei se você já se hospedou em um hostel, mas saiba que, ao contrário de hotéis, onde as pessoas mal conversam, em hostels todo mundo acaba se conhecendo, sendo a esmagadora maioria composta por estudantes sem dinheiro para pagar um quarto privado.

Em meio àquela agitação de jovens na sala do hostel, um menino franzino sentou-se ao meu lado. Aparentava não mais do que 17 anos, mas tinha na verdade 22, a mesma idade que eu e Jennifer. Eu não estava muito disposta a conversar a princípio, mas o garoto parecia meio estranho, como se estivesse escondendo alguma coisa, o que despertou minha curiosidade. Percebi que ele estava nitidamente com dor no joelho e perguntei. Ele respirou fundo, e começou a contar sua história. Eu adoraria ter inventado todo esse relato só para tornar o post mais interessante, mas infelizmente, não é o caso.

Samuel, o segundo dos quatro filhos da família Goldman, nasceu em Tel Aviv, Israel, onde todos os cidadãos aos 18 anos devem obrigatoriamente apresentar-se ao serviço militar. Se física e mentalmente aptos, como era o caso dele, devem servir por três anos no mínimo. Como Samuel optou por servir como sniper (franco-atirador), atividade que exige muito treinamento, o período estendia-se para quatro anos. (Nesse ponto da conversa, eu já estava tremendo… mal sabia o que viria a seguir.) Desde o início do serviço, ele foi agrupado com mais dois meninos, e o trio tornou-se inseparável: dormiam, comiam e praticavam juntos. Eram irmãos de verdade, nas palavras dele. O trio também tinha uma importância estratégica, tendo cada um uma função específica dentro de uma missão, e a do Samuel era disparar tiros precisos de longa distância. Eu olhava para aquele menino pequeno e me recusava a acreditar que ele era capaz de segurar uma arma.

A história prosseguiu. O trio, após estafante treinamento militar, foi enviado para a guerra na Síria. Sim, a Síria, da qual ouvimos tanto falar no Jornal Nacional, mas que parece uma realidade tão distante… de repente, tão perto. O menino sentado ao meu lado estivera naquela guerra. Entre várias missões, uma delas deu errado e seus dois amigos morreram na sua frente. Samuel ficou tão abalado que foi afastado temporariamente e internado por questões psiquiátricas. Quando retornou ao serviço, ainda não plenamente recuperado, uma das primeiras missões também falhou, e ele foi atingido por uma bala no joelho, mas, segundo ele, “era para ter sido no coração”. O menino quase morreu no hospital, foi operado, porém houve sequelas – por isso, a dor no joelho.

Fonte: Portal Vermelho

Fonte: Portal Vermelho

Depois disso, foi definitivamente afastado e decidiu viajar por seis meses pela América para tentar superar tudo isso. Washington era sua primeira parada. E agora, o que Samuel pensava da guerra? “Não importa quem ganha, quem perde…só quero que acabe.” Quando comecei a pedir desculpas por tê-lo feito me contar o que ele certamente queria esquecer, percebi que estava chorando. Sequei as lágrimas, agradeci-o por ter dividido sua história comigo e fui deitar, mas foi muito difícil dormir naquela noite. Era informação demais para digerir. Encontrei o Samuel nos dias seguintes no hostel, mas não falamos mais sobre isso. Sei que ele está bem, atualmente em algum lugar no México, seguindo sua aventura. Provavelmente, nem lembra de mim, mas eu nunca esquecerei a história dele. Obrigada, Samuel!

Afinal, o que eu levei de cada um desses encontros? Por que foram tão marcantes? Jennifer me ensinou a sempre sonhar mais, querer mais, alcançar mais. Não existe zona de conforto, não existe limite e não existem dúvida: você pode mudar o mundo, sim. Por sua vez, Samuel e a lição mais importante: seja sempre grato por absolutamente tudo. Do outro lado do mundo, há pessoas da minha idade passando por coisas pelas quais nenhum ser humano deveria passar. Problemas de verdade, guerra de verdade. É muito longe daqui, certamente, mas ainda assim, é o mesmo mundo. E às vezes perdemos o sono por tão pouco…

Até a próxima semana que vem, e que você tenha encontros lindos pela frente!

Carol Martines
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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro nessa vida.”. (Vinicius de Moraes)

 

Somente o necessário

Olá mais uma vez, diretamente dos últimos dias de verão em Boston!

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Como você bem sabe, os Estados Unidos da América são conhecidos pelo elevadíssimo consumismo. Com uma mentalidade na qual excesso é sinônimo de sucesso, um americano consome em média uma quantidade de produtos que somada é maior do que o seu próprio peso. Lembro-me de entrar em choque quando, em uma aula de Geografia da Marcia Abdo, aprendi que, se o mundo todo consumisse como os EUA, precisaríamos de 4,5 Terras para não entrar em colapso. E eu poderia ficar horas e horas te dando mais dados que comprovam o estilo de vida nada sustentável dos americanos, mas creio que você já entendeu o meu ponto.

Diante disso, para mim é realmente uma surpresa estar escrevendo um post com um tema exatamente oposto de tudo isso. Antes de embarcar para Boston, eu fiz uma lista de possíveis assuntos para o blog, e o que você lerá a seguir definitivamente não estava entre eles. Por mais paradoxal que possa parecer, hoje quero te contar como aprendi a viver com menos (bem menos) no meu ano de intercâmbio.

Primeiramente, quero que você responda quatro perguntas mentalmente: quantas camisetas você tem? (Muitas, dá preguiça de contar.) Quantos pares de sapatos? (Vários.) Qual foi a última vez que você realmente usou uma peça de roupa até ter que aposentá-la? (Não me lembro.) Qual foi a última vez que você comprou algo que você definitivamente não precisava? (Recentemente.) Entre parênteses, estão as minhas respostas na época em que eu morava em São Paulo, que provavelmente são semelhantes às suas. Por mais que não sejamos norte-americanos, também temos um padrão de consumo muito mais elevado do que precisamos.

Pois bem, antes de me mudar para os Estados Unidos, encontrei de cara uma situação que desafiava o meu consumismo e a minha vaidade, por tabela: como fazer toda a minha vida caber em apenas duas malas? Lembre-se que não eram apenas roupas de verão e de inverno (que ocupam MUITO espaço), mas também sapatos, toalhas, roupas de cama, bolsas, utensílios de cozinha, livros, aparelhos eletrônicos… enfim, tudo! Na minha situação, muitos evitariam esse problema comprando tais coisas diretamente nos EUA, mas eu preferi levar tudo de casa tanto para economizar quanto para ser capaz de trazer meus bens de volta ao Brasil nas mesmas duas malas quando eu retornasse do intercâmbio. E ainda havia mais um ponto a considerar: o quarto que me aguardava em Boston seria pequeno, e definitivamente não acomodaria muito mais do que o necessário.

A mala abarrotada e meu cachorrinho querendo entrar nela também

A mala abarrotada e meu cachorrinho querendo entrar nela também

Inicialmente, eu queria levar tudo, o que obviamente se mostrou impraticável. Portanto, tive que me contentar com menos: 2 toalhas, 2 roupas de cama, 4 calças, 2 sapatilhas, 10 pares de meias, 12 camisetas, 2 roupas mais arrumadinhas para algum evento, e daí em diante. Quando finalmente cheguei em Boston, pensei que teria sérias dificuldades para me adaptar a esse novo ritmo. Entretanto, para a minha agradável surpresa, foi fácil até demais. Quanto menos coisas você tem, é muito mais simples escolher o que usar (fim do dilema “com que roupa eu vou?”) e também manter tudo em ordem. De fato, tenho que lavar roupas com uma certa frequência, mas isso não mata ninguém. Várias amigas que nunca fizeram intercâmbio me perguntam: “como você vive com tão poucas peças de roupa?”. Acredite, não vivo como se estivesse na Semana de Moda de Paris, mas vivo bem demais. E, naturalmente, se uma calça ou um casaco dão sinais de que devem ser aposentados, eu compro outro, sem problemas. A questão não é deixar de consumir, e sim consumir com mais responsabilidade, mais consciência das minhas reais necessidades.

Demais aspectos de morar sozinha também me mostraram uma nova perspectiva e me ensinaram muito no quesito consumo. Por exemplo, aqui em Boston, divido um apartamento com outros dois meninos, e somos responsáveis por todos os afazeres domésticos, inclusive levar o lixo da casa todos os dias para a área de coleta fora do prédio. Quando você vê a quantidade de lixo que produz e tem que carregá-lo por dois lances de escada e mais 200 metros no meio de uma nevasca, você definitivamente pensa duas vezes antes de descartar algo.

Outro fator que influencia enormemente é ter que cuidar do próprio orçamento. Morar em Boston é muito caro, sendo a cidade com o quarto maior custo de vida dos EUA, atrás somente de Nova York, São Francisco e Honolulu. Logo, é essencial ter prioridades muito bem estabelecidas na hora de gastar meus limitados dólares: em primeiro lugar, as coisas indispensáveis, como aluguel, luz, água e comida; depois, gastos com momentos de lazer e cultura; e por último, bens materiais. A consequência natural disso é uma diminuição do consumo.

Óbvia e infelizmente, do lado de fora, tudo continua igual nos Estados Unidos: lojas sempre lotadas, sacolas de compras abarrotadas, ruas repletas de carros que consomem absurdos de combustível, desperdícios revoltantes de comida e energia. A todo vapor, toda hora, tudo é motivo para comprar. Olha o novo iPhone! Você ainda não tem? Isso move o país.

Times Square, o epicentro da cultura do consumismo

Times Square, o epicentro da cultura do consumismo

De todos os muitos aprendizados do intercâmbio, esse é um que eu realmente espero levar de volta para o Brasil. Não digo que é preciso passar vontade, apenas ficar atento aos excessos. O que você de fato precisa? O que você apenas quer? Pense nisso você também!

Até a próxima!

Carol Martines

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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“A simplicidade é o último grau de sofisticação.” (Leonardo Da Vinci)

Do Band a Harvard: Sacrifício

Oi, tudo bem por aí?

Hoje, vamos conversar sobre um tema para o qual eu não sei ao certo qual é a melhor abordagem. Não gosto muito desse assunto, e já me debati internamente inúmeras vezes sobre se deveria ou não o tornar um post. Contudo, uma vez que é uma parte muito grande da minha rotina no laboratório de Harvard e do mundo da ciência em geral, me vejo na obrigação de não omitir esse tema. Vamos falar sobre o meu maior dilema ético de 2017: o uso de animais em pesquisa científica.

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Já te expliquei anteriormente do que consiste a minha pesquisa no laboratório do Dr. Brain na Harvard School of Public Health, mas recapitulemos de modo bem simplificado: usando mini pedacinhos de pulmões de ratinhos, eu testo diferentes concentrações de diversas substâncias químicas a fim de estimar o que seria uma dose segura para ser inalada por seres humanos sem danos consideráveis. Entretanto, essa é só uma parte do meu trabalho. Além desse experimento, que eu repito várias e várias vezes, tenho uma outra tarefa no laboratório, que é concomitantemente a atividade mais interessante e triste que eu realizo. Esses pedacinhos de pulmões de ratos supracitados não aparecem prontos na minha bancada: cabe a mim obtê-los. Para isso, eu preciso realizar cirurgias nos animais, que têm apenas 30 gramas, então os procedimentos são assaz delicados. Bem resumidamente, eu abro a traqueia do rato, insiro um cano milimétrico pela abertura e, por meio desse cano, introduzo nos pulmões um gel de Agarose que se solidificará em alguns minutos. Depois, removo os pulmões e os entrego para uma parceira de outra laboratório, que os fatiará em centenas de pedaços.

Os ratinhos com os quais eu trabalho, de cerca de 30 gramas.

Os ratinhos com os quais eu trabalho, de cerca de 30 gramas

Eu tenho paixão por operar, inclusive quero ser cirurgiã no futuro, então eu me sinto muito bem realizando tais técnicas. Essa é a parte boa. O lado ruim é que, para utilizar os pulmões em meus experimentos, eu preciso retirá-los dos ratinhos, e, logicamente, estes não vivem sem respirar. Acho que você já entendeu, não é mesmo? Por mais triste que seja, eu preciso sacrificar os ratos. Em comparação com os outros pesquisadores do meu laboratório, que usam em média 15 roedores por semana, minha pesquisa exige poucos ratos, cerca de 6 por mês, e eu agradeço imensamente por isso. Contudo, recentemente, surgiram algumas modificações, e eu precisei usar os pulmões de 10 ratos em menos de uma semana, o que foi o gatilho para eu finalmente decidir escrever sobre esse assunto. Pois é, não posso negar que isso me abala.

Os pulmões dos ratinhos, insuflados por um gel, prontos para serem fatiados em centenas de pedaços

Os pulmões dos ratinhos, insuflados por um gel, prontos para serem fatiados em centenas de pedaços

Eu estava ciente de que teria que matar animais quando escolhi esse laboratório. Passei por um longo treinamento no início do ano sobre as formas de sacrifício e os cuidados para que os ratos sofram o mínimo possível. Entretanto, é bem mais difícil do que eu supusera. Eu escolhi fazer medicina porque tenho adoração pela vida, por curar e salvar – como posso, pelo contrário, tirar uma vida, nem que seja de um rato? Me parece completamente contraditório.

Na primeira vez que vi um sacrifício, logo nos primeiros dias em Harvard, fiquei mal. De verdade. Foi tão rápido, tão injusto. O ratinho estava profundamente anestesiado, provavelmente não sentiu nada. Mas aquilo esmagou meu coração. Por dentro, os ratos são extremamente parecidos com os seres humanos: praticamente os mesmos órgãos na mesma localização, só que em miniatura. Pensei no meu cachorro, pensei em Deus, pensei como eu me sentiria se eu fosse o rato. Pensei em tanta coisa… enquanto isso, o meu profissionalismo inexistia e a minha expressão era de espanto absoluto.

Ratinho com 3 dias de vida (não se preocupe, a mãe não o está matando!)

Ratinho com 3 dias de vida (não se preocupe, a mãe não o está matando!)

Algumas semanas depois, chegou a minha vez. No início, apenas manipulá-los já é uma Odisseia. Os ratinhos são muito sagazes, e estão loucos para escapar. E obviamente, eles nunca tentam fugir do meu experimento quando eu estou sozinha e tranquila no laboratório. Imagina, de modo algum. Os roedores esperam entrar alguém bem importante no lab, seja o meu chefe Dr. Brain ou algum supervisor, para pular graciosamente das minhas mãos e aventurar-se pelo chão cheio de lugares propícios para um esconderijo. E quando isso acontece, meu amigo, me jogo no chão também até recuperar o fugitivo, o que pode ser cômico para quem estiver assistindo, mas para mim é um desespero só.

Depois que o rato está devidamente controlado, vem uma parte ainda mais difícil, o sacrifício em si. No começo, eu não sabia lidar com isso. Eu dava nomes (Mickey, Pink, Cérebro, e por aí vai), ficava observando o comportamento deles (cada animal, por mais que seja um ratinho de laboratório, é muito diferente um do outro em termos de “personalidade”), fazia uma oração antes de trabalhar com cada um… Enfim, eu os humanizava mais do que deveria. Hoje em dia, porém, creio que consigo lidar com isso de uma forma um pouco menos emocional.

Esses são ratos um pouco maiores, com cerca de 300 gramas, mas eu normalmente não trabalho com eles

Esses são ratos um pouco maiores, com cerca de 300 gramas, mas eu normalmente não trabalho com eles

Certa vez, em um congresso em Washington, perguntei a uma renomada pesquisadora inglesa, que já deve ter sacrificado milhares de animais ao longo da sua carreira, se algum dia era possível se acostumar com aquilo. Ela sorriu, e disse com seu sotaque britânico inconfundível: “Claro que sim.” Eu só tenho 7 meses de experiência, mas sou obrigada a discordar: duvido que algum dia eu me acostume com provocar a morte, sendo tão apegada à vida. Como eu consigo dormir à noite, então? Como não me sinto horrivelmente culpada por matar tantos roedores? Bem, há três respostas para essas perguntas.

Primeiramente,  faço de todo o possível para que os animais não sofram, então uso muita anestesia, bem mais do que seria necessário, antes de matá-los com injeção letal e/ou exsanguinação. Em segundo lugar, me cobro muito para fazer tudo perfeitamente o maior número de vezes possível. Nem sempre eu consigo, mas, se eu erro, o rato e seus pulmões vão para o lixo, e isso é ainda mais triste. Por fim, eu simplesmente foco minha mente no propósito daquele sacrifício: quantas vidas humanas poderão ser salvas pelas descobertas que realizamos no laboratório, quantas doenças pulmonares poderão ser evitadas por causa dos nossos estudos! E então, quando eu resgato esse ideal do experimento, que nada mais é do que o meu ideal de vida, tudo fica mais suportável, porque sei que os sacrifícios diários não são em vão. Não é fácil, nunca será fácil, mas esses animais já me ensinaram muito mais do que se pode imaginar.

Prometo um tema mais leve semana que vem! Até lá!

Carol Martines

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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“Quem nunca errou nunca experimentou nada novo.” (Albert Einstein)

Do Band a Harvard: Minha saudade

Bom dia.

Hoje eu acordei no meu quarto branco e rosa em São Paulo. O cheiro de pão francês fresco estava no ar, assim como o barulho das buzinas da 23 de maio e a música de entrada do Globo Rural na TV da sala. Era domingo. Minha mãe estava colocando a mesa do café. Meu pai, com seu pijama xadrez, certamente estava com os olhos vidrados no seu programa favorito. Minha irmã ainda estava sonhando, e sem dúvidas dormiria até perto do meio dia, quando minha mãe a acordaria para logo sairmos para o almoço de domingo na casa da Nonna. Mas ainda era cedo. Fechei os olhos de novo.

Hoje eu acordei no litoral. O ar quente, o som inconfundível do quebrar das ondas e as conversas animadas da família logo cedo não deixavam dúvidas: era o auge do verão, alguma data entre o Natal e o Ano Novo. Estava todo mundo ali. Os primos haviam jogado Banco Imobiliário ou alguma brincadeira nova de mímica até bem tarde na madrugada anterior, então me permiti virar para o outro lado e dormir mais um pouco.

Hoje eu acordei na terça-feira mais mundana possível. Estava chovendo de leve lá fora na Cidade da Garoa, e o dia seria bem intenso na faculdade, com aulas de Clínica Médica a manhã e a tarde inteiras. Porém terça sempre foi o “nosso dia”, nosso respiro no meio da semana. Eu jantaria com ele à noite, depois da aula. Que motivo melhor eu precisava para acordar feliz? Mas ainda não. Mais 5 minutos antes do despertador tocar. Só mais um pouquinho.

Hoje eu acordei e estava em todos os lugares, mas só estava aqui. Em Boston, em “casa”.

“Saudade” sempre foi a minha palavra favorita. Em parte porque ela não existe em muitos outros idiomas além do Português, mas principalmente por ser tão sucinta e precisa, dizendo tanto em tão poucas letras.

Sim, eu estou com saudades. Muitas. Longe de casa há mais de uma semana, há mais de sete meses. Pensei que fosse mais difícil no começo e depois melhorasse, mas eu estava enganada. O início é repleto de saudades agudas, desesperadas, até meio infantis. Uma dor em pontadas. Depois, meu amigo, a saudade cronifica-se… Você não chora, não se descabela, mas ela está sempre lá. Uma dor em pressão. Sutil, mas permanente.

Se você me desse uma passagem de volta para o Brasil agora, eu entraria no avião? Certamente não. Morro de saudades, mas gosto demais de Boston, e entendo a importância da experiência de um ano de intercâmbio. Tenho muito a aprender aqui ainda. Entretanto, se você aumentasse a minha estadia para dois anos… ah, aí seria demais. Não, obrigada.

Uma coisa é certa: de todas as lições desse ano em Harvard, que não foram poucas, a principal já foi aprendida. Eu sempre soubesse, na verdade, mas só uma experiência dessas é capaz de escancarar isso aos nossos olhos: não há nada melhor no mundo do que amar e ser amada.

Saudades…

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Mais um amanhecer em Boston

Até a próxima.

Carol Martines

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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“A saudade é o que faz as coisas pararem no tempo.” (Mário Quintana)

O que você quer ser quando crescer?

Oi, como estão as coisas por aí?

Estamos entrando agora na segunda quinzena de agosto, período em que, se não me falha a memória, ocorrem as inscrições para a FUVEST. Diante disso, hoje queria dividir com você uma história que se passou 5 anos atrás, quando era a minha vez de realizar a escolha da carreira. Espero poder ajudar um pouquinho, principalmente se você estiver indeciso ou inseguro.

Apesar de, atualmente, eu ser extremamente satisfeita por ter escolhido cursar medicina, nem sempre foi assim. Desde muito pequena, ao ser questionada com aquela clássica pergunta dos tios em festas de fim de ano “O que você quer ser quando crescer?”, eu dizia que queria ser médica, sem rodeios. Contudo, hoje tenho percepção de que eu só respondia isso porque metade da minha família trabalha na área da saúde. Não era uma decisão sobre a qual eu havia realmente refletido, e sim uma resposta fácil que deixava todos os adultos orgulhosos.

Segui desse modo até o segundo ano do Ensino Médio, quando eu comecei a de fato me questionar sobre o que eu queria para o meu futuro. Foi um momento em que o mundo se abriu diante dos meus olhos e, de repente, eu me vi cercada de muitas opções tentadoras: pensei em cursar letras (completamente influenciada pela maravilhosa equipe de Português do Band), depois engenharia, então relações internacionais, aí direito, ou administração, quem sabe jornalismo? Só sei que fiquei no meio desse turbilhão de carreiras por mais de um ano. Frequentei palestras, fiz testes vocacionais, conversei com profissionais de todas as áreas… e cada vez ficava mais difícil decidir! Eu queria mesmo ter umas 7 vidas para conseguir me formar em todos esses cursos, mas isso evidentemente não era possível, e as inscrições para os vestibulares estavam cada vez mais próximas.

Minha turma do segundo ano do Band

Minha turma do segundo ano do Band

Sendo bem sincera, foi um período conturbado. Sempre fui um pouco decidofóbica para tudo, desde escolher qual prato eu pediria em um restaurante a qual boneca eu ganharia de Natal. Imagine então como foi decidir o que eu seria “para o resto da minha vida”! E, no topo de tudo isso, eu ainda precisava continuar estudando, mesmo sem propósito definido.

Resultado: começou o período de inscrições para os vestibulares e eu ainda não tinha a mais vaga ideia do que eu queria. Acabei me “decidindo” por prestar medicina, direito e engenharia, uma em cada lugar: UNIFESP, FGV, UFRJ, UFSCar. Parece piada, mas não é. Contudo, eu só podia prestar uma dessas na FUVEST, e meu grande sonho, como a maioria dos bandeirantinos, era estudar na USP.

O sonho de entrar na USP (e aquele abraço carinhoso na Professora Eneida)

O sonho de entrar na USP (e aquele abraço carinhoso na Professora Eneida)

Então, em uma tarde de agosto da qual eu me lembro como se fosse ontem, estávamos eu e minha mãe fazendo a minha inscrição para a FUVEST 2013. Começamos com aquela parte de dados pessoais, endereço, telefone. Até aí tudo bem, essas respostas eu sabia. Eis que chega o temido campo da escolha de carreira. Olho para minha mãe, olho para a tela do computador, olho para minha mãe de novo. Ela e meu pai obviamente participaram de tudo e sofreram tanto quanto eu durante a tomada dessa decisão, mas, a esse ponto, eu já esgotara completamente a paciência deles. Eu continuava paralisada. Então minha mãe olhou bem seriamente para mim, e disse: “Ah Carol, põe medicina e não me enche o saco!”. Nem pensei, só conclui a inscrição, desliguei o computador e não refleti mais sobre isso. (Até hoje, eu e minha mãe damos risada desse episódio, sempre dizemos que foi a bronca mais bizarra que ela já me deu!)

Avançando alguns meses no tempo, fui aprovada em todos os vestibulares que eu prestei, e aí tive que decidir definitivamente, o que se mostrou muito menos complicado. Optei por cursar medicina na USP, pelo simples fato de que, se eu não gostasse da faculdade, era muito mais fácil tentar passar em direito ou engenharia de novo do que em medicina.

Comemorando a aprovação com o querido Professor Heinz

Comemorando a aprovação com o querido Professor Heinz

Comecei o curso de coração e mente abertos, e o final dessa história não poderia ser mais feliz: me apaixonei perdidamente por medicina, e agora tenho certeza absoluta de que fiz a escolha certa.

Queria fazer mais algumas observações que eu gostaria que alguém me tivesse dito naquela época. Eu me pressionava muito com o fato de ter que “fazer uma escolha para o resto da minha vida”. Meu amigo, isso não existe: é uma carreira, não uma tatuagem. Sempre é possível tomar outro rumo, e ser ainda mais feliz por isso. Tenho vários amigos que fazem medicina comigo que já são formados em direito, engenharia, física, medicina veterinária. E o oposto também não é incomum: médicos que decidem mudar de profissão. Pessoas que se formaram, começaram a trabalhar e perceberam que queriam algo diferente. Eu morria de medo disso aos 17 anos, queria realizar a escolha certa logo de primeira, e tive a sorte, creio eu, de o ter conseguido, mas se não tivesse, qual o problema? O fato é que tudo se ajeita no final das contas. Na época, essa dúvida me consumia e parecia o fim do mundo, mas hoje sei que não há nada mais normal do que não saber se você quer ser médico se você nunca estudou medicina, não é mesmo?

Um dos primeiros dias de aula na USP

Um dos primeiros dias de aula na USP

E, por mais que seja improvável no meu caso, se um dia a medicina não me agradar mais, não terei problemas em escolher outro rumo. De qualquer modo, se me questionarem hoje em uma festa de família o que eu quero ser quando crescer, a resposta será sempre a mesma: quero é ser feliz! Todo o resto encaixa-se, mais cedo ou mais tarde.

Tudo bem não ter todas as respostas… é a vida que ainda não fez todas perguntas!

Até breve!

Carol Martines

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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“Nada é mais difícil e, portanto, tão precioso, do que ser capaz de decidir.”. (Napoleão Bonaparte)

 

 

Meia maratona

Oi, que bom ter você aqui de novo!

Desde o início do blog, eu sempre acreditei que o principal intuito de compartilhar meu ano de intercâmbio com você é te inspirar a sonhar mais alto, não somente no campo acadêmico, mas também em outros aspectos. Dito isso, e levando em conta o fato de que esse é o 21o post do ano, quero dividir com você hoje o sonho que eu realizei mais recentemente: correr uma meia maratona, o equivalente a 21 quilômetros.

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Já fazia alguns anos que eu nutria essa vontade, mas completar uma meia maratona não é algo que se alcance do dia para a noite: é preciso planejamento, tempo e muito treino. Fui postergando, “quem sabe depois dos 30?”, eu pensava. Até que começou 2017, e eu cumpri meu religioso ritual pessoal de me propor três desafios para o ano que acabava de se iniciar, e um deles era completar uma prova de 21 quilômetros de corrida. Uau. Eu ofegava só de pensar.

Sendo muito sincera, quando me fiz essa proposta, tenho que confessar que, em parte, esse desafio estava muito relacionado ao fato de que eu moraria um ano no país do fast food, e estava morrendo de medo de voltar redonda dos Estados Unidos. Mas outra parcela bem significativa advinha do fato de que eu sempre fui muito competitiva, e queria um objetivo esportivo para esse período de intercâmbio. Logo, uma meia maratona parecia cumprir perfeitamente esses dois objetivos.

Algumas semanas após minha chegada em Boston, procurei por uma prova de corrida na região da Nova Inglaterra que fosse ocorrer durante o verão, para que eu tivesse tempo suficiente para treinar. Escolhi a Old Port Half Marathon, que seria no dia 8 de julho em Portland, Maine, a duas horas de ônibus de Boston. Portanto, eu teria cerca de 4 meses para me preparar. Veja bem, eu nunca fui sedentária e sempre gostei de correr, mas apenas distâncias razoáveis como 5, 8, até 10 quilômetros. 21 me parecia um infinito – e esse gostinho de impossível só me estimulou mais.

Assim, comecei minha jornada de 4 meses de treinos rumo ao meu objetivo. Durante esse período, eu corria 3 vezes por semana e realizava musculação mais 3, sempre orientada por um grande amigo meu que também já fez intercâmbio em Harvard em 2015, ano no qual ele treinou e completou uma maratona INTEIRA, ou seja, 42 quilômetros.

O primeiro treino no começo de fevereiro: toda agasalhada

O primeiro treino no começo de fevereiro: toda agasalhada

Todo esse processo de 4 meses mostrou-se muito mais marcante do que a prova em si. Foram concomitantemente intrigantes e esclarecedoras as coisas que eu aprendi comigo mesma nesses meses de treinos. E acredito que o ponto mais importante que eu quero dividir com você é que o treino é muito mais mental do que físico, por mais louco que isso possa soar. Veja bem, eu acredito que qualquer pessoa aos seus 20 e poucos anos com um condicionamento físico razoável seja capaz de correr 21 quilômetros. O corpo é perfeitamente capaz, mas a mente não. A distância assusta, e o seu cérebro boicota seus músculos, fazendo-os acreditar que não conseguem ir adiante quando, na verdade, conseguem correr muito mais. Essa foi a minha principal lição: a mente desiste antes do corpo. E, quanto mais eu treinava, mais o meu corpo ensinava para a minha mente que eu era capaz daquela loucura, sim. Cada treino, cada superação me fazia mais feliz e confiante. E é óbvio que o preparo físico é essencial, mas meu ponto é que a parte psicológica é tão importante quanto.

Correndo mesmo com neve

Correndo mesmo com neve

Nas primeiras semanas de treinos, meu objetivo era simplesmente completar a prova, sem pensar no relógio. Contudo, conforme eu fui correndo distâncias cada vez mais longas fazendo cada vez menos esforço, eu tive certeza que completaria a prova, e comecei a sonhar mais alto: minha meta agora seria correr o percurso inteiro com uma velocidade média de 10km/h, cruzando a linha de chegada em pouco mais do que duas horas.

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Enfim, chegou o tão esperado dia 8 de julho. Não dormi praticamente nada na noite anterior, em parte devido ao nervosismo, mas majoritariamente porque o maravilhoso quarto onde eu fiquei hospedada tinha um colchão de ar furado, não tinha porta e os dois gatos da casa não saíam de lá por nada. Perrengues à parte, eu estava muito feliz.

Pontualmente às 7 horas da manhã, foi dado o tiro de largada, e eu comecei a correr com o coração saindo pela boca. Mas logo me acalmei: a energia e o apoio que as pessoas da pequena cidade de Portland transmitiam para os corredores era reconfortante. Cartazes com mensagens de incentivo, sinos, pessoas acenando… O nervosismo deu lugar à emoção, e eu tive que segurar o meu choro fácil logo no primeiro quilômetro.

Foi dada a largada!

Foi dada a largada!

A parte poética do percurso resumiu-se a esse comecinho, porque logo depois a situação ficou bem complicada. Os primeiros 7 quilômetros eram só, apenas, única e exclusivamente compostos por subidas. E nada daquelas subidinhas amigáveis às quais eu estava acostumada em Boston: eram ladeiras e mais ladeiras como as do Sumaré, bairro de São Paulo. Como se isso não fosse suficiente, contrariando a previsão do tempo, um sol estonteante e uma temperatura de 32 graus me acompanharam desde os primeiros metros, sem nenhuma sombrinha no meio do caminho. Aí sim, eu quis chorar de verdade, mas reprimi as lágrimas pela segunda vez no dia.

Do quilômetro 7 ao 15 eu consegui entrar em um ritmo bem agradável,  apreciar a paisagem e realmente sentir o prazer da corrida. Entretanto, mal sabia eu que essa paz interior estava com os metros contados: logo que começou o quilômetro 16, o caos instaurou-se. Faltavam apenas 5 quilômetros para o fim, então metade dos corredores começou a acelerar loucamente a fim de melhorar seu tempo, e outra metade começou a parar ou andar, seja por câimbras ou por exaustão. E eu nessa história toda? Perdi completamente a referência. Parar não era uma opção, mas eu também não podia acelerar, pois sabia que precisava guardar energia para as últimas ladeiras do trajeto. Eu precisava apenas manter a velocidade constante. Mas pense um pouco, você já tentou manter seu ritmo de corrida enquanto há pessoas muito mais rápidas e outras muito mais lentas do que você? Pois é, isso está longe de ser uma tarefa fácil. Esse esforço novo e imprevisto por uma caloura de meia maratona me desconcentrou completamente, e minha mente começou a tentar me boicotar e me fazer parar. “Onde eu estava com a cabeça quando me inscrevi para essa porcaria de corrida?” Desliguei a música que saía dos fones de ouvido, uma vez que não estava ajudando mais a me distrair, e comecei a repetir ininterruptamente dentro da minha cabeça: “Você não vai parar. Você não vai parar.”

Acredite se quiser, eu corri os últimos 5 quilômetros do percurso com essa única frase em mente. Tortura? Na percepção de alguns, talvez. Para mim, foi uma espécie de meditação à base de adrenalina. O importante é que… funcionou! Depois de 21 quilômetros, usei minha última gota de energia para cruzar a linha de chegada, pegar a medalha e encostar meu corpo na parede com sombra mais próxima. Nem sequer sentei, era esforço demais. Olhei para a tela do celular que monitorava minha corrida, marcando 21.1 quilômetros percorridos a exatamente 10.0 km/h. Eu tinha conseguido. Eu completara uma meia maratona. Uau! Uma onda de alegria inexplicável tomou conta de mim. Meus olhos queriam chorar desesperadamente pela terceira vez, mas parecia não haver água suficiente para tal.

Logo depois da linha de chegada

Logo depois da linha de chegada

Nesse exato momento, meu telefone tocou. Era uma ligação de vídeo da minha mãe. Desde o começo, ela considerara toda essa história um devaneio meu. Dizia que eu era muito frágil, que me machucaria, que eu não precisava disso: “Meia maratona é muito, só ¼ já está bom, filha!”. Apesar de tentar me demover da ideia, ela nunca deixou de me apoiar. E, na manhã desse 8 de julho, minha mãe acordou cedo e passou as mais de 2 horas da corrida me acompanhando pelo aplicativo da corrida até a linha de chegada. 2 horas vendo um pontinho se mexer sobre um mapa. Só mãe para fazer isso, não é mesmo? Pois bem, ela me ligou, com os olhos marejados e um sorriso lindo de orgulho. “Filha, você conseguiu!” Nesse momento, meu amigo, eu desabei, e as lágrimas que eu inibira a manhã inteira brotaram irrefreáveis. Um misto de satisfação com alegria com gratidão…todos os sentimentos bons do mundo pareciam explodir em mim ao mesmo tempo!

E digo mais: essa sensação vicia! Menos de 6 horas depois, eu já estava me inscrevendo para a próxima meia maratona. Será em outubro, e dessa vez quero completar em menos de 2 horas! Torça por mim!

E quer saber qual o mais legal de tudo isso? Acima de todos os benefícios físicos e psicológicos que eu proporcionei para mim, estão as coisas boas que eu pude apresentar para os outros. Nessa empreitada, eu estimulei vários amigos a correrem também. Alguns nunca haviam corrido na vida, e agora estão treinando e se inscrevendo para futuras provas. Para mim, isso é impagável.

Por fim, seja em posts sobre assuntos acadêmicos ou não, sinto que muitas vezes eu sou repetitiva e retorno para o mesmo ponto: você pode fazer absolutamente tudo que você desejar, basta planejamento e dedicação. Eu realmente acredito nisso, e te garanto: não há sentimento melhor do que o de missão cumprida.

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Até logo!

Carol Martines

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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“Uma viagem de mil milhas começa com um único passo.” (Lao Tsé)

Voo solo

Olá! Tudo bem?

O ano de intercâmbio é único, não só pelas experiências acadêmicas, mas também pela oportunidade de se aventurar e fazer coisas que você jamais imaginou. Diante disso, quero te contar sobre minha mais recente descoberta.

Eu sempre quis conhecer Chicago, no estado de Illinois. Queria ver com meus próprios olhos alguns pontos turísticos famosos da cidade, como “the bean” (aquela escultura em formato de feijão que reflete vários prédios, no centro de Chicago), a Sears Tower, o Navy Pier e o Michigan Lake.

“The Bean” ou “Cloud Gate”, um dos símbolos de Chicago

“The Bean” ou “Cloud Gate”, um dos símbolos de Chicago

Portanto, desde o começo do ano, iniciei uma busca desenfreada por uma passagem de avião bem baratinha para a “cidade dos ventos”. Você não imagina a minha empolgação ao encontrar a passagem que eu tanto sonhara por um preço muito amigável, justamente em um feriado. Comprei-a rápido, toda animada, e só depois me dei conta de um probleminha: quem iria comigo? Liguei preocupada para meus amigos que moram em Boston e todos já tinham compromissos agendados naquele feriado. Liguei até para a minha prima, que mora no Colorado, e ela também não podia. Minhas esperanças foram minadas por cada tentativa frustrada de arranjar uma companhia para a viagem. E agora? Eu já comprara a passagem! O que eu ia fazer?

Foi aí que a resposta, que estivera bem na minha frente o tempo todo, surgiu óbvia e cristalina: eu vou sozinha! E apesar de estar inicialmente insegura com isso, foi a melhor decisão que eu poderia ter tomado. Esse post, porém, não é sobre a viagem para Chicago. A cidade é apaixonante, mas isso sempre foi evidente. O texto de hoje é sobre aprender a ser sua própria companhia – e estar feliz da vida com isso!

Lago Michigan

Lago Michigan

Chicago foi a minha primeira viagem sozinha de verdade. Sozinha, sem nenhum familiar me buscando no aeroporto, sem uma “host mother” me esperando com comida quentinha, sem outros intercambistas me aguardando no destino. Sozinha, sem conhecer ninguém no avião, no hostel, na cidade.

Perdi a conta de quantas vezes ouvi da família e dos amigos “Você vai sozinha, mesmo?”, “Tem certeza?”. Sim, viajei pra Chicago completamente sozinha, e foi uma das melhores experiências da minha vida.

No começo, me achei meio boba por estar encarando isso como algo marcante. Não era como se eu estivesse mochilando sozinha pela Ásia! Mas depois, percebi que era exatamente o contrário: é algo grande e marcante, sim! Quantas pessoas de 22 anos você conhece que já fizeram isso? Quantas pessoas de 90 anos você conhece que já fizeram isso? Pois bem, viajar sozinho não é uma coisa tão trivial assim… É preciso muita coragem, e eu deveria sim ter muito orgulho de mim mesma por isso.

Não é como se eu fosse preferir viajar sozinha de agora em diante. Eu queria mesmo era ter pai, mãe, irmã, namorado e os amigos todos viajando junto. Mas às vezes não dá, paciência. O que eu aprendi é a trocar o “só vou se você for” por “vai ser um prazer se você me acompanhar”.

Viajar sozinha é também se desligar completamente do celular, e ficar conectado muito mais intensamente ao lugar e a você mesmo. É aprender muito muito mais sobre a história da cidade onde você está. É ficar conversando com o dono do restaurante sobre a infância dele na Grécia, e com o motorista do Uber sobre a rivalidade entre os Cubs e os White Sox, os dois times de beisebol de Chicago. É ser olhada com estranheza pelos recepcionistas de todos os restaurantes quando você pede “mesa pra 1.” E abrir um sorriso largo ao responder “sim, 1. Pode ser a mesa da janela?”. É poder fazer todas as suas vontades. Viajar sozinha é, por fim, se jogar de cabeça pra baixo e de pernas pro ar em uma cidade nova e em você mesmo. Que venha a próxima aventura!

Do topo da Willis Tower (mais conhecida como Sears Tower), o segundo prédio mais alto do ocidente, depois do One World Trade Center, em Nova York

Do topo da Willis Tower (mais conhecida como Sears Tower), o segundo prédio mais alto do ocidente, depois do One World Trade Center, em Nova York

Te vejo na semana quem vem!

 

Carol Martines

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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

 

“Ou a vida é uma audaciosa aventura, ou não é nada.”. (Helen Keller)