Cápsula do tempo

Oi, tudo bem por aí?

Escrever esse blog é, para mim, muitas vezes como redigir uma carta para o meu passado, para a Carol de 2012. Afinal, eu sou praticamente você, cinco ou mais anos atrás. Desse modo, uma das minhas principais inspirações é refletir acerca dos aspectos do meu ano em Harvard sobre os quais aquela menina no terceiro ano do Ensino Médio precisava e/ou queria ouvir. Pensando nisso, por meio desses posts, eu escrevi várias cartas para você e para a Carol de cinco anos atrás.

2017: Harvard Medical School

2017: Harvard Medical School

Analogamente, o mais curioso de toda essa história é que aquela menina que se formava no Band em 2012 também escreveu uma carta para mim, para a Carol de 2017, aluna da USP e de Harvard. Caso você não tenha se dado conta do que eu estou falando, deixe-me esclarecer: por meio de uma iniciativa maravilhosa do Colégio, todos os alunos, nos últimos dias do terceiro colegial, escrevem uma carta para si mesmos dali a cinco anos. Todas as cartas são guardadas carinhosamente pela professora Patrícia Goloni por todo esse tempo, e, no reencontro de cinco anos de formados, os alunos recebem de volta suas cartinhas.

2012: Minha formatura do BBBand!

2012: Minha formatura do BBBand!

Lembro-me vividamente que eu e meus colegas escrevíamos para um futuro distante, que demoraria eras para chegar. O que são cinco anos na vida de um jovem de dezessete? Quase um terço de sua existência! Uma eternidade… Pois é, o futuro chegou. Galopando, tenho que acrescentar. Ao mesmo tempo que sinto que cabe uma vida inteira dentro desse período, também sei que passou em um piscar de olhos.

2012: Os “sobreviventes”, como denominados os alunos que estudaram no Band da quinta série ao terceiro colegial

2012: Os “sobreviventes”, como denominados os alunos que estudaram no Band da quinta série ao terceiro colegial

Como ainda estou morando em Boston, não tive o prazer de frequentar a minha reunião de cinco anos de formada e rever tantos amigos especiais, entretanto, graças ao carinho de pessoas incríveis, recebi a minha carta aqui nos Estados Unidos. (Obrigada, Patrícia e Má!) E assim, depois de 35 posts, 35 cartas para a Carol de 2012, chegou a vez de ela me responder. Só eu estou ansiosa?

2017: Boston Public Garden

2017: Boston Public Garden

Logo que a carta chegou, decidi que a queria ler em um lugar especial: Boston Public Garden, meu lugar favorito da cidade. Contudo, apesar de tanta expectativa, confesso que me desapontei um pouco, por alguns motivos. A Carol de dezembro de 2012 estava cansada, à beira da exaustão física e mental. O terceiro ano do Ensino Médio é muito intenso, e ela havia se dedicado ferozmente. A carta fora escrita pouco antes do Natal, entre a primeira e a segunda fases da tão temida FUVEST. A caligrafia daquela menina era horrível – não que hoje seja maravilhosa, mas certamente bem melhor, – e logo me lembrei do motivo: a Carol de 2012 escreveu tanto durante sua preparação para o vestibular que desenvolveu uma tendinite dolorosíssima no polegar direito poucas semanas antes da segunda fase da FUVEST. Acredite se quiser, mas aquele dezembro foi uma sequência ininterrupta de estudos, fisioterapia e analgésicos. O ortopedista indicou uma órtese para a mão direita e uma caneta adaptada, só assim era possível escrever e realizar a prova de admissão na USP.

Nesse contexto, não é surpreendente que a carta que eu recebi do passado seja repleta de insegurança, estafa e medo. Contudo, aquela garota não estava infeliz, de modo algum: ela sabia que tinha que passar por aquele desafio em prol de um objetivo maior. Depois de descrever os últimos acontecimentos e sentimentos, a carta é repleta de perguntas sobre mim, a Carol de 22 anos na qual aquela menina se transformou. Diante disso, seria uma enorme falta de educação não respondê-la, não é mesmo? Assim, escrevi uma mensagem em resposta àquela Carol, mas decidi compartilhá-la também com você, aluno do Band, pois, como já disse acima, talvez ambos tenham os mesmos questionamentos e precisem ler as mesmas coisas.

 

Boston, 29 de novembro de 2017

Querida Carol do passado,

Preciso começar dizendo: você nos subestimou. Nem nos seus sonhos mais maravilhosos passou pela sua cabeça que você estaria aqui, morando na cidade mais linda do mundo, com uma carteirinha de Harvard e outra da USP no bolso. E, acima de tudo, mais feliz do que palavras podem expressar. Essa é você, Carolzinha.

Quero te contar o que aconteceu nos últimos cinco anos, respondendo algumas de suas perguntas. Dois dias depois de você ter terminado a carta, saiu a primeira aprovação em uma faculdade: direito na FGV. Você conseguiu concluir a FUVEST, mesmo com toda a dor na mão (obviamente com o auxílio de medicamentos analgésicos para a tendinite). Depois daquele período, você nunca mais escreveu tanto, logo, nunca mais sentiu aquela dor, mas guarda até hoje a caneta adaptada que usou para fazer a prova. Semanas depois, foram divulgados os resultados dos vestibulares, e o que eu posso dizer? Valeu a pena cada segundo de estudo, de sacrifício. Cada noite mal dormida, cada vez que você deixou de viajar ou passear em nome do desempenho acadêmico. Além de direito na FGV e na UFRJ, você, Carolzinha, passou em medicina na UFSCar, na UNIFESP (em 1o lugar!) e na USP, a universidade dos seus sonhos. Sem sobra de dúvidas, valeu a pena!

2012: aprovação na FGV

2012: aprovação na FGV

Você não tinha certeza se queria medicina ou direito, mas decidiu testar a primeira. E apaixonou-se. A medicina faz você se sentir realizada e desafiada ao mesmo tempo, e, conforme o curso avançou, você só se encantou ainda mais. Depois de quatro anos na USP, você voou mais alto e estudou um ano em Harvard, onde está agora. Ademais, você de fato não precisou fazer cursinho, seu maior pesadelo na época do Band, mas hoje sabe que não teria sido o fim do mundo.

2016: Liga de Pré-Natal, uma das minhas paixões na USP

2016: Liga de Pré-Natal, uma das minhas paixões na USP

Você continua muito próxima dos amigos do Band, e também fez amizades lindas na USP e em Harvard. Seus melhores amigos, porém, ainda são os mesmos de 2012: seus pais. Graças a Deus, sua família continua unida e saudável, principalmente Vovô, Vovó e Nonna, pelos quais você demonstrou grande preocupação na sua carta. Sua irmã não seguiu o caminho da medicina, apesar da sua insistência, mas está feliz cursando engenharia na Escola Politécnica da USP. Por falar em Poli, seu namorado não é mais um estudante dessa instituição, e sim um engenheiro formado.

2017: Alunos do programa USP-Harvard com o diretor, Dr. Godleski

2017: Alunos do programa USP-Harvard com o diretor, Dr. Godleski

Não, você ainda não escreveu o seu tão sonhado romance, entretanto, você já foi autora de alguns capítulos para livros médicos e tem um blog (no site do Band!), no qual você posta semanalmente. A experiência tem sido tão prazerosa que só aumentou a vontade de escrever um livro… quem sabe até 2022?

Sobre a sua carta: quanta cobrança, não é? Não apenas externa, pois a principal cobrança vinha de dentro. Depois de anos estudando religiosamente, você teve a coragem de me escrever que não tinha estudado o suficiente. Quanta cara de pau! Atualmente, eu me cobro um pouco menos do que em 2012, mas exigir resultados de si mesmo é certamente algo positivo. Afinal, se você não se cobra, a vida cobra. A cobrança só não pode se transformar em uma fonte de sofrimento.

Quanta dúvida, não é? Sei que faltava um propósito. Você queria muito alçar altos voos, estudar em uma universidade de renome, mas não sabia ao certo qual caminho era ideal para você. Posso te dar um único conselho? Na dúvida, sempre faça o melhor que você puder. Você não precisa saber o que vai ser no futuro, pois, independente do que for, esses anos de estudo e garra serão imprescindíveis.

Em suma, sobre os últimos cinco anos: eu não mudaria absolutamente nada, nem os acertos, muito menos os erros. Faça tudo exatamente igual, sempre com alegria e amor no coração. Tenho certeza que você o fará.

O impossível não existe. Momentos incríveis te esperam, Carolzinha. Você nem imagina…

Com carinho,

Carol Martines

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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

 

Aprender é a única coisa de que a mente nunca se cansa, nunca tem medo e nunca se arrepende.” (Leonardo da Vinci)