De olho em New Orleans

Olá mais uma vez!

Hoje, quero dividir com você minha mais recente aventura do intercâmbio: essa semana, tive o privilégio de frequentar o maior congresso de oftalmologia da América, a American Academy of Ophthalmology (AAO 2017), na lendária cidade de New Orleans.

Como já te contei anteriormente, apesar de apaixonada por medicina em geral, são as especialidades cirúrgicas que mais me encantam, e oftalmologia é uma das minhas primeiras opções de residência, juntamente com cirurgia vascular, torácica e cardíaca. Durante esse ano, por trabalhar em um laboratório focado no estudo do sistema respiratório, tive muito contato com cirurgia torácica. Ademais, em 2016, fiz várias atividades extracurriculares relacionadas à cirurgia cardiovascular. Entretanto, sentia que ainda me faltava uma experiência mais intensa na área oftalmológica para que eu compreendesse mais globalmente as minhas opções.

Pois bem, o congresso da AAO seria no começo de novembro, exatamente no feriado do Veterans’ Day. Com o apoio financeiro da Harvard University, que sempre estimula esse tipo de atividade, parti toda animada para New Orleans, o lar do jazz, do Mardi Gras e do jambalaya. Se você acompanha o blog há certo tempo, deve lembrar-se que esse não é o primeiro grande congresso que frequento esse ano. Em maio, estive na conferência da American Thoracic Society em Washington, junto a todos os membros do meu laboratório. Então, você deve estar se perguntando, por que raios eu estou escrevendo mais um post sobre um grande congresso?

A resposta: porque esse é especial. E o que torna a American Academy of Ophthalmology tão especial para mim é esse homem ao meu lado na foto abaixo: Dr. Eduardo Martines, introdutor da cirurgia a laser para correção de miopia no Brasil.

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Quer dizer, ele é o Dr. Eduardo Martines para todo o resto do mundo, mas, quando se trata de mim, ele atende por um nome muito mais simples: pai. E falta mais uma pessoa nessa foto, outra grande médica oftalmologista: Dra. Silvana, minha outra metade, minha alegria, minha mãe. Infelizmente, dessa vez, ela não conseguiu disponibilidade na sua agenda de atendimentos e cirurgias para viajar.

Desde que eu me conheço por gente, todo novembro sempre foi a mesma história: papai, mamãe ou ambos voavam para alguma cidade dos Estados Unidos para a AAO, ou simplesmente a “Academia”, como os médicos a chamam. Eu nunca ficava muito satisfeita com a ideia, temia pelos meus pais no avião, e começava a chorar como último recurso para convencê-los a não ir. Aí papai começava um longo discurso sobre a importância de frequentar esses eventos para atualizar-se, aprender sobre técnicas e aparelhos novos e ministrar palestras, dividindo seu conhecimento com outros médicos do mundo inteiro. Minha irmãzinha, por sua vez, estava preocupada mesmo com qual boneca meus pais trariam de presente para ela (desculpa, Bruna, tive que acrescentar esse detalhe). No final, eu parava de fazer birra, me despedia dos meus pais, e eu e minha irmã passávamos a semana seguinte sob os cuidados dos meus avós, o que era sinônimo de sete dias comendo os quitutes mais gostosos do mundo, de feijoada a bolo de laranja.

Franklin Square, coração do French Quarter em New Orleans

Franklin Square, coração do French Quarter em New Orleans

Cresci ouvindo “Filha, algum dia ainda te levo na Academia. Você vai ficar encantada.” Contudo, nunca dava certo. O tempo passou e entrei no Band, onde faltar às aulas por uma semana em pleno novembro é impensável – e tenho certeza que você, bandeirantino, concorda comigo: faltar uma semana é sinônimo de perder uns três séculos da matéria de história e umas 40 páginas do livro de exercícios de álgebra. Depois, entrei na faculdade de medicina, e, devido à grande quantidade de aulas práticas no hospital, viajar para a Academia ficou ainda mais impossível. Até que tudo encaixou-se esse ano e meu pai realizou seu sonho de me mostrar o mundo da oftalmologia na AAO 2017.

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A promessa cumpriu-se, e foi realmente sensacional. Salas e mais salas de discussão, fileiras incontáveis de pôsteres de trabalhos científicos e uma quantidade absurda de aulas acontecendo simultaneamente – nem preciso comentar que a palestra do meu pai foi a melhor de todas. Algo que me impressionou muito foi o Exhibition Hall, uma espécie de galpão do tamanho de SEIS campos de futebol onde as empresas que fabricam aparelhos e produtos oftalmológicos expõem de tudo para os médicos: de aplicativos para medir acuidade visual a pinças delicadíssimas de titânio para operar cataratas, de aparelhos enormes para medir precisamente a espessura da córnea a lentes de contato. Continuo sem saber se vou me especializar em oftalmologia ou em algum outro tipo de cirurgia, mas ainda tenho dois anos para me formar como médica e tomar essa decisão. De qualquer modo, a experiência da AAO 2017 foi incrível.

Uma fração mínima do Exhibition Hall

Uma fração mínima do Exhibition Hall

Filha coruja assistindo a aula do pai na primeira fileira

Filha coruja assistindo a aula do pai na primeira fileira

Quanto a New Orleans, achei a cidade charmosíssima e de uma riqueza cultural impressionante, mas não consegui conhecer muito da capital do jazz porque passamos praticamente o tempo todo dentro do Centro de Convenções – é isso que acontece quando se junta dois “nerds” com aulas super interessantes.

Um pouquinho de jazz...

Um pouquinho de jazz…

E um gostinho da arquitetura encantadora do French Quarter

E um gostinho da arquitetura encantadora do French Quarter

Por fim, vem a única parte difícil dessa jornada: me despedir mais uma vez daquele que é um grande amigo, um exemplo de garra e uma inspiração diária. Por mais que o intercâmbio seja uma vivência incrível e eu adore cada minuto em Harvard, sempre há um buraquinho no coração, louco para estar perto da família de novo. Depois desses dias vivendo tão intensamente ao seu lado, minha nossa, pai… Como é difícil te dizer adeus, nem que seja por pouco tempo. Obrigada por ser tão companheiro, tão protetor, tão amoroso – e não estou agradecendo apenas por essa viagem, e sim pelos últimos 22 anos.

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Aqui, peço licença para uma homenagem singela. Pai, mãe, obrigada pela cumplicidade infalível e pelo apoio irrestrito. Obrigada por dizerem “não” quando necessário – sei que doeu mais em vocês do que em mim. E, acima de tudo, obrigada por acreditarem nos meus sonhos.

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Até o próximo post! (E, família, até breve!)

Carol Martines

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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“A suprema felicidade da vida é ter a convicção de que somos amados.”

(Victor Hugo)