Os três Carnavais de Boston

Oi, tudo bem por aí?

No post de hoje, vamos conversar sobre alguns aspectos culturais dos Estados Unidos que diferem muito do Brasil, com ênfase em um tema leve e divertido para compensar os posts anteriores, mais densos: falemos sobre celebrações!

Vou direto ao ponto: Boston é, na minha opinião, a pior cidade do mundo para festas. Sabe todo aquele agito que vemos nos filmes de Hollywood sobre faculdades americanas: festas de fraternidade, house parties e por aí vai? Sinto lhe informar, mas é tudo mentira, pelo menos aqui em Boston. Não posso dizer pelo resto dos Estados Unidos, talvez na região central e na costa oeste seja diferente, mas aqui na capital de Massachusetts, mesmo com a quantidade absurda de jovens universitários, as festas são muito muito ruins. No início do intercâmbio, acostumada com o agito de São Paulo, tenho que admitir que fiquei um pouco decepcionada com isso, mas Boston tem tantas outras opções de lazer incríveis a oferecer que realmente não sinto a menor falta de uma vida noturna intensa – mas a opinião da maioria dos meus amigos brasileiros que moram aqui diverge da minha.

Como explicar essa escassez? Todas as festas devem terminar antes das 2 da manhã por lei (o que é muito cedo para os padrões brasileiros), álcool é extremamente caro, as baladas cobram fortunas pela entrada. Mas eu acho que a verdadeira causa é muito menos concreta do que isso: o povo de Boston simplesmente não tem o espírito de festa que o brasileiro tem. E não é preciso sair à noite para dar-se conta disso, uma vez que a qualquer hora do dia os bostonianos andam sem esbanjar simpatia. Isso de dar bom dia e sorrir para um estranho no ônibus não existe aqui, o que é uma das poucas coisas que eu não gosto desse lugar.

Houve, no entanto, três exceções, três vezes em que eu vi a cidade transformar-se, ganhar vida e alegria, três celebrações em que os moradores de Boston sorriram à toa como se fossem brasileiros. Nessas ocasiões, tentei absorver o máximo possível da experiência cultural, seguindo cada clichê e fazendo exatamente o que um clássico americano faria. Com você, os três Carnavais de Boston.

St. Patrick’s Day

Celebrado no dia 17 de março, essa festa anual celebra a morte de São Patrício, padroeiro da Irlanda. Contudo, aqui nos Estados Unidos, St. Patrick’s Day passa bem longe de uma comemoração religiosa. As cores verde e branco, assim como os trevos de quatro folhas, tomam conta de Boston quando o grande dia vai chegando. E engana-se quem pensa que a festa dura apenas um dia: o final de semana inteiro é agitadíssimo.

Na sexta-feira, dia 17, o Quincy Market, um dos pontos turísticos mais populares da cidade, recebeu shows de dança e música irlandesa. Os bares da cidade toda, raramente cheios, ficaram lotados desde as 3 da tarde. Filas e mais filas para entrar. Cerveja verde, sorvete verde, copo verde, chocolate verde: era possível encontrar de tudo nessa cor, como se eu estivesse no meio da torcida do Palmeiras.

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Show no Quincy Market

A celebração seguiu até o domingo, quando aconteceu o evento mais tradicional e esperado: a famosa parada de St. Patrick’s Day em South Boston. Ainda estava muito frio (lembre-se que esse ano nevou até abril), mas as pessoas pareciam nem se importar enquanto dançavam ao som das músicas irlandesas.

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Carro decorado com as cores da Irlanda

Mais da parada em South Boston

Mais da parada em South Boston

Boston é uma das cidades americanas que celebra com mais alegria o St. Patrick’s Day, provavelmente por causa da grande quantidade de irlandeses vivendo na região. A única cidade que, na minha opinião, supera Boston nesse quesito é Chicago, onde eles chegam ao extremo de pintar o Chicago River de verde para a celebração. Não vi com meus próprios olhos, mas peguei emprestado do Google para te provar que é verdade!

Chicago River VERDE no St. Patrick’s Day: note que é utilizada uma substância que não polui o rio

Chicago River VERDE no St. Patrick’s Day: note que é utilizada uma substância que não polui o rio

4th of July

Outra celebração marcante é o dia da Independência dos Estados Unidos no dia 4 de julho. De fato, também temos, no Brasil, o nosso feriado análogo, mas, enquanto para nós é apenas mais um dia de descanso da escola ou do trabalho, nos EUA a comemoração atinge proporções inacreditáveis, principalmente em Boston, considerado o berço da independência americana, sendo a folia é ainda maior. Como a comemoração dá-se no auge do verão e das férias escolares, a cidade fica repleta de turistas.

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O povo americano é patriota por definição o ano todo, mas, no início de julho, Boston veste-se da cabeça aos pés das cores da bandeira americana, similarmente ao que fazemos no Brasil em época de Copa do Mundo. Para onde quer que você olhe, verá um sinal de patriotismo.

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Diferentemente das outras duas datas citadas neste post, que são dias úteis normais apesar da folia, o 4th of July é o único que é um feriado de verdade. E aqui está mais uma enorme diferença entre nosso Brasil e os EUA: a abundância de feriados do primeiro em contraste com a escassez do segundo. Desse modo, nada mais natural do que aproveitar o dia de sol com um clássico barbecue americano ou uma boa praia. A propósito, as praias da cidade não são tão bonitas quanto as brasileiras, mas serviram para matar a saudade da areia e do sol. Contudo, apesar do calor de 35 graus, entrar no mar estava fora de questão para mim, já que a água era MUITO fria.

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Praias em Boston

Praias em Boston

Ao entardecer, depois de um dia relaxante, a maioria das pessoas dirige-se às margens do Charles River para a grande atração do dia: o concerto do 4th of July, seguido de uma queima de fogos de artifício inacreditável – sem sombra de dúvida, a mais linda que já vi na minha vida, com uma quantidade e variedade de cores inimaginável. O evento é grátis e reúne mais de meio milhão de pessoas anualmente, sendo inclusive televisionado. Obviamente, tratando-se de tamanha aglomeração de pessoas, o policiamento da atração é igualmente maciço.

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Halloween

Apesar de ser celebrado no dia 31 de outubro, o clima de Halloween toma conta da cidade e, principalmente, das lojas de departamento, em meados de agosto. Nestas, há corredores e corredores vendendo absolutamente tudo que se pode e não se pode imaginar no tema Halloween, de fantasias a peças de decoração, de doces a utensílios domésticos. Tudo é vendido na versão “dia das bruxas”, de chocolates a cafés do Starbucks, como você pode ter uma noção a partir das fotos abaixo. Concordo que seja um exagero, mas já conversamos em posts anteriores que o consumismo é um dos motores dos Estados Unidos.

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Bolacha especial de Halloween

Bolacha especial de Halloween

Chocolates de dia das bruxas

Chocolates de dia das bruxas

Nem o Starbucks escapou, lançando seu Frappuccino zumbi

Nem o Starbucks escapou, lançando seu Frappuccino zumbi

E obviamente, abóboras de todos os tamanhos e formas!

E obviamente, abóboras de todos os tamanhos e formas!

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O clima é muito gostoso e, conforme o grande dia vai chegando, fica praticamente impossível não se contagiar pela festa. Um dia antes do 31 de outubro, veja só a fila na porta da principal loja de Halloween do centro da cidade.

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É de conhecimento geral que um dos lugares mais famosos do mundo para essa celebração é Salem, a cidade das bruxas. Entretanto, poucos sabem que essa cidade mágica fica a um curto voo de vassoura – ou 40 minutos de trem – de Boston. Desse modo, grande parte dos moradores da capital de Massachusetts opta por comemorar a data na pequena Salem, além de hordas de turistas vindos de toda parte. A fofíssima cidade de 40 mil habitantes vive basicamente do turismo, de modo que lá é dia das bruxas 365 dias por ano!

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“Poções” à venda na cidade das bruxas

“Poções” à venda na cidade das bruxas

Apesar de ter adquirido fama por servir como cenário para filmes e séries como “As bruxas de Salem”, “Hocus Pocus” e “A feiticeira”, a relação da pequena cidade litorânea com a bruxaria é muito anterior ao advento da televisão, datando precisamente de 1692. Eu poderia fazer um post inteiro sobre esse lugar assustadoramente interessante, mas serei breve: no final do século XVII, alguns moradores da região, mulheres em sua maioria, foram acusados de bruxaria e perseguidos. Mais de 60 foram presos, alguns foram julgados nos famosos “Salem witch trials”, e 20 foram efetivamente condenados pelo crime de bruxaria e morreram enforcados (com exceção de um homem, que foi cruelmente executado por meio de esmagamento com pedras). Pode parecer um roteiro de filme de terror, mas infelizmente esse absurdo de fato aconteceu, e é um exemplo emblemático de histeria coletiva e do perigo de falsas acusações. Por séculos, os moradores de Salem quiseram esconder seu passado vergonhoso, mas atualmente a história é usada como uma preciosa lição para todos que passam por lá, e as vítimas da “caça às bruxas” serão eternamente lembradas e homenageadas, sendo a cidade um museu a céu aberto.

Eu particularmente optei por visitar Salem alguns meses antes do Halloween, pois as atrações não estariam tão lotadas e eu poderia aprender melhor sobre esse passado tão chocante.

Salem Witch Museum

Salem Witch Museum

Era julho, mas a contagem regressiva já estava valendo

Era julho, mas a contagem regressiva já estava valendo

Estátua da Feiticeira, do seriado americano da década de 60

Estátua da Feiticeira, do seriado americano da década de 60

Sem mais delongas, vou finalmente falar do dia 31 de outubro em si, e já adianto: foi um dos dias mais legais do ano. Eu e meus amigos ficamos em Boston mesmo e não saímos para uma balada como a maioria dos jovens americanos faria, já que tínhamos um plano muito melhor: viver um sonho de infância e sair pelas ruas em clima de “doces ou travessuras”.

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Optamos pelo bairro de Beacon Hill, um dos mais chiques de Boston, onde as casas são lindamente decoradas para a ocasião, havendo inclusive uma competição informal pela casa mais bonita. Pessoas fantasiadas de todas as idades e até animais de estimação tomam as ruas e nenhum carro passa. Engana-se quem pensa que só as criancinhas ganham doces: a distribuição de gostosuras nas portas das casas é muito democrática. Nesse ponto, preciso confessar que me empolguei… me fantasiei de unicórnio!

A criança mais feliz da rua

A criança mais feliz da rua

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Talvez pareça algo muito simples pelo meu depoimento, mas, para mim, foi realmente mágico. Fascinou-me ver tudo aquilo que assistimos pela televisão com meus próprios olhos e sentir tanta alegria nas pessoas, normalmente tão fechadas. Famílias inteiras sentadas na porta de casa distribuindo doces, famílias inteiras fantasiadas pelas ruas admirando as decorações. “Trick or treat! Happy Halloween!” por toda a parte. Acho que é o tipo de coisa que é preciso viver para compreender inteiramente o encanto.

Resultado do Halloween: alguém me ajuda!!

Resultado do Halloween: alguém me ajuda!!

E acredite se quiser: logo no dia seguinte, primeiro de novembro, as lojas já estavam transformadas, dessas vez no tema natalino!

Quando se trata de comércio, os americanos não perdem tempo

Quando se trata de comércio, os americanos não perdem tempo

Espero que você tenha se divertido comigo enquanto lia sobre as três comemorações mais animadas de Boston. Me surpreendeu a intensidade dos americanos em cada uma dessas datas. Contudo, verdade seja dita: não há nada comparável ao Carnaval do jeitinho brasileiro!

Até semana que vem!

 

Carol Martines

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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“O mundo está cheio de coisas mágicas , pacientemente à espera de que nossos sentidos tornem-se mais afiados.” (W. B. Yeats)