De olho em New Orleans

Olá mais uma vez!

Hoje, quero dividir com você minha mais recente aventura do intercâmbio: essa semana, tive o privilégio de frequentar o maior congresso de oftalmologia da América, a American Academy of Ophthalmology (AAO 2017), na lendária cidade de New Orleans.

Como já te contei anteriormente, apesar de apaixonada por medicina em geral, são as especialidades cirúrgicas que mais me encantam, e oftalmologia é uma das minhas primeiras opções de residência, juntamente com cirurgia vascular, torácica e cardíaca. Durante esse ano, por trabalhar em um laboratório focado no estudo do sistema respiratório, tive muito contato com cirurgia torácica. Ademais, em 2016, fiz várias atividades extracurriculares relacionadas à cirurgia cardiovascular. Entretanto, sentia que ainda me faltava uma experiência mais intensa na área oftalmológica para que eu compreendesse mais globalmente as minhas opções.

Pois bem, o congresso da AAO seria no começo de novembro, exatamente no feriado do Veterans’ Day. Com o apoio financeiro da Harvard University, que sempre estimula esse tipo de atividade, parti toda animada para New Orleans, o lar do jazz, do Mardi Gras e do jambalaya. Se você acompanha o blog há certo tempo, deve lembrar-se que esse não é o primeiro grande congresso que frequento esse ano. Em maio, estive na conferência da American Thoracic Society em Washington, junto a todos os membros do meu laboratório. Então, você deve estar se perguntando, por que raios eu estou escrevendo mais um post sobre um grande congresso?

A resposta: porque esse é especial. E o que torna a American Academy of Ophthalmology tão especial para mim é esse homem ao meu lado na foto abaixo: Dr. Eduardo Martines, introdutor da cirurgia a laser para correção de miopia no Brasil.

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Quer dizer, ele é o Dr. Eduardo Martines para todo o resto do mundo, mas, quando se trata de mim, ele atende por um nome muito mais simples: pai. E falta mais uma pessoa nessa foto, outra grande médica oftalmologista: Dra. Silvana, minha outra metade, minha alegria, minha mãe. Infelizmente, dessa vez, ela não conseguiu disponibilidade na sua agenda de atendimentos e cirurgias para viajar.

Desde que eu me conheço por gente, todo novembro sempre foi a mesma história: papai, mamãe ou ambos voavam para alguma cidade dos Estados Unidos para a AAO, ou simplesmente a “Academia”, como os médicos a chamam. Eu nunca ficava muito satisfeita com a ideia, temia pelos meus pais no avião, e começava a chorar como último recurso para convencê-los a não ir. Aí papai começava um longo discurso sobre a importância de frequentar esses eventos para atualizar-se, aprender sobre técnicas e aparelhos novos e ministrar palestras, dividindo seu conhecimento com outros médicos do mundo inteiro. Minha irmãzinha, por sua vez, estava preocupada mesmo com qual boneca meus pais trariam de presente para ela (desculpa, Bruna, tive que acrescentar esse detalhe). No final, eu parava de fazer birra, me despedia dos meus pais, e eu e minha irmã passávamos a semana seguinte sob os cuidados dos meus avós, o que era sinônimo de sete dias comendo os quitutes mais gostosos do mundo, de feijoada a bolo de laranja.

Franklin Square, coração do French Quarter em New Orleans

Franklin Square, coração do French Quarter em New Orleans

Cresci ouvindo “Filha, algum dia ainda te levo na Academia. Você vai ficar encantada.” Contudo, nunca dava certo. O tempo passou e entrei no Band, onde faltar às aulas por uma semana em pleno novembro é impensável – e tenho certeza que você, bandeirantino, concorda comigo: faltar uma semana é sinônimo de perder uns três séculos da matéria de história e umas 40 páginas do livro de exercícios de álgebra. Depois, entrei na faculdade de medicina, e, devido à grande quantidade de aulas práticas no hospital, viajar para a Academia ficou ainda mais impossível. Até que tudo encaixou-se esse ano e meu pai realizou seu sonho de me mostrar o mundo da oftalmologia na AAO 2017.

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A promessa cumpriu-se, e foi realmente sensacional. Salas e mais salas de discussão, fileiras incontáveis de pôsteres de trabalhos científicos e uma quantidade absurda de aulas acontecendo simultaneamente – nem preciso comentar que a palestra do meu pai foi a melhor de todas. Algo que me impressionou muito foi o Exhibition Hall, uma espécie de galpão do tamanho de SEIS campos de futebol onde as empresas que fabricam aparelhos e produtos oftalmológicos expõem de tudo para os médicos: de aplicativos para medir acuidade visual a pinças delicadíssimas de titânio para operar cataratas, de aparelhos enormes para medir precisamente a espessura da córnea a lentes de contato. Continuo sem saber se vou me especializar em oftalmologia ou em algum outro tipo de cirurgia, mas ainda tenho dois anos para me formar como médica e tomar essa decisão. De qualquer modo, a experiência da AAO 2017 foi incrível.

Uma fração mínima do Exhibition Hall

Uma fração mínima do Exhibition Hall

Filha coruja assistindo a aula do pai na primeira fileira

Filha coruja assistindo a aula do pai na primeira fileira

Quanto a New Orleans, achei a cidade charmosíssima e de uma riqueza cultural impressionante, mas não consegui conhecer muito da capital do jazz porque passamos praticamente o tempo todo dentro do Centro de Convenções – é isso que acontece quando se junta dois “nerds” com aulas super interessantes.

Um pouquinho de jazz...

Um pouquinho de jazz…

E um gostinho da arquitetura encantadora do French Quarter

E um gostinho da arquitetura encantadora do French Quarter

Por fim, vem a única parte difícil dessa jornada: me despedir mais uma vez daquele que é um grande amigo, um exemplo de garra e uma inspiração diária. Por mais que o intercâmbio seja uma vivência incrível e eu adore cada minuto em Harvard, sempre há um buraquinho no coração, louco para estar perto da família de novo. Depois desses dias vivendo tão intensamente ao seu lado, minha nossa, pai… Como é difícil te dizer adeus, nem que seja por pouco tempo. Obrigada por ser tão companheiro, tão protetor, tão amoroso – e não estou agradecendo apenas por essa viagem, e sim pelos últimos 22 anos.

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Aqui, peço licença para uma homenagem singela. Pai, mãe, obrigada pela cumplicidade infalível e pelo apoio irrestrito. Obrigada por dizerem “não” quando necessário – sei que doeu mais em vocês do que em mim. E, acima de tudo, obrigada por acreditarem nos meus sonhos.

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Até o próximo post! (E, família, até breve!)

Carol Martines

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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“A suprema felicidade da vida é ter a convicção de que somos amados.”

(Victor Hugo)

 

As quatro estações da ciência

Oi, tudo bem por aí?

Neste ano de intercâmbio, um dos aspectos mais fascinantes, e também uma das novidades que mais me tirou da zona de conforto, foi o clima, mais precisamente a mudança tão marcada das estações. Isso deve ter ficado muito claro para quem acompanha o blog desde o começo, vista a quantidade de vezes em que mencionei o assunto. Tem sido uma experiência única para uma brasileira que morou a vida toda no verão perceber como absolutamente todos os aspectos do cotidiano mudam ao longo do ano em Boston, do vestuário às opções de lazer, da alimentação à sua energia.

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Faltam pouco mais de 40 dias para o final do meu programa em Harvard e do ano mais esplêndido da minha vida e, enquanto vejo a natureza fechar mais um ciclo, é impossível não refletir sobre a minha trajetória em diversos quesitos, mas hoje me concentrarei na questão acadêmica, e como cada fase da minha rotina no laboratório dialoga curiosamente com o clima. Fui avisada desde o princípio que não se faz ciência de verdade em um ano, mas era só isso que eu teria a partir do momento que meu avião pousasse nos Estados Unidos, em janeiro de 2017. Voltemos no tempo…

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Tudo começou no inverno mais gélido, mas também mais emocionante da minha vida. Me vi em uma sala ampla e iluminada do 3o andar da Harvard School of Public Health, cercada por pessoas que eu nunca vira antes. Foi o meu primeiro dia no laboratório, o meu primeiro dia de neve.

Comecei a aprender algumas técnicas de nomes esquisitos – LDH, MPO, MTS, instilação, lavagem bronco alveolar, e por aí vai. Os procedimentos por si já eram complexos, mas mais difícil ainda era entender a aplicação de cada um deles nos fluidos retirados dos pulmões dos ratos.

O inverno foi eterno, assim como as religiosas reuniões de terça-feira de manhã. Eu não entendia a esmagadora maioria das discussões, porém estava lá, anotando e tentando aparentar ao máximo que toxicologia pulmonar sempre fora minha praia – ou, para ser mais adequada ao contexto, minha estação de esqui.

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Mesmo chegando em casa cedo, a noite sempre chegava antes de mim: as horas de luz eram escassas, assim como os momentos em que eu não estava passando frio. Pelas ruas, as pessoas andavam apressadas e taciturnas. Entretanto, tenho que admitir que gostei do inverno: impossível negar que tudo branquinho tem o seu charme, principalmente para uma brasileira que nunca vivenciou tudo aquilo antes, uma constante oscilação entre a certeza de que você vai morrer de hipotermia e de que chocolate quente é a melhor invenção da humanidade. Ademais, a estação mais fria do ano me apresentou um novo esporte pelo qual me encantei instantaneamente: esquiar. Deslizar por uma montanha alva ao som apenas dos meus esquis, da minha respiração e do meu coração com certeza é uma das sensações mais maravilhosas que já experimentei.

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Subindo a montanha para esquiar, com a temperatura de -32 graus Celsius lá fora

Subindo a montanha para esquiar, com a temperatura de -32 graus Celsius lá fora

Então, como em um passe de mágica, veio a primavera. Passarinhos cantando, rosas desabrochando, animais e pessoas saindo da toca e toda aquela história que eu já te contei em meados de abril.

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Dentro do laboratório, porém, nem tudo eram flores. Continuávamos com os mesmos 21oC de sempre, essenciais para manter o funcionamento adequado de uma das várias centrífugas super potentes. Eu já estava conseguindo me localizar um pouco melhor naquele ambiente e não precisa perguntar onde estava cada pipeta, tubo ou placa. Meu projeto já começava a se desenhar, eu realizava a maioria dos testes sozinha, mas eu ainda estava muito perdida quanto ao melhor jeito de organizar a metodologia e os resultados. Para ser sincera, não entendia muito bem o rumo daquela pesquisa, apenas realizava o que fora acordado pelos demais pesquisadores do grupo.

Nessa época, ouvi em uma palestra da Harvard School of Psychology que, às vezes, uma bússola é mais útil do que um mapa, e eu até possuía um esboço do segundo, mas claramente me faltava o primeiro. Minha primeira apresentação de resultados em reunião foi ruim. Tentei procurar no meu vocabulário uma palavra melhor, mas não posso ser mais precisa do que isso: foi ruim, sim. Não é como se eu não estivesse sendo bem orientada, de modo algum. Só havia uma lacuna considerável entre o meu pensamento como aluna de medicina e pesquisadora. Mas eu me afobava, me cobrava: “não posso sair daqui sem uma publicação!”. Paciência, menina. Paciência.

Picnic de Páscoa

Picnic de Páscoa

Meses depois, o Sol finalmente chegou mais perto de Boston e o verão mais esperado da minha vida chegou. O ano de 2017 foi atípico, e demorou mais do que o normal para esquentar de verdade, sendo que só foi possível livrar-se de vez dos casacos em meados de junho. O aumento das temperaturas mudou a dinâmica da cidade, regendo a vida da população com acordes muito felizes. As pessoas passaram a andar sorrindo nas ruas; as mesas dos restaurantes, antes hermeticamente fechados por causa do aquecimento, passaram a ocupar as calçadas; caiaques e barcos a vela tomaram o Charles River.

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Dentro do Brain lab, não poderia ser diferente. Não que alguém tenha sido mal educado comigo antes, mas o humor dos pesquisadores melhorou significativamente com a elevação das temperaturas e a aproximação de suas férias. Mais risadas, mais conversas, mais almoços em grupo. Tornou-se cada vez mais agradável estar no ambiente do laboratório. Com o recesso escolar de verão, a faculdade ficou praticamente deserta, sem alunos, apenas pesquisadores. Os seminários e aulas também foram interrompidos, o que era enfadonho, mas me sobrava mais tempo para me dedicar ao meu projeto. “Ganhei” uma pequena sala dentro do laboratório só para mim, mais estéril do que o restante do lab, o que era necessário para os meus experimentos, e organizada toda do meu jeitinho. E digo-o entre aspas porque ela não me foi dada, mas eu era a única pessoa a entrar lá, então, pelo menos na minha cabeça, era o meu cantinho.

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Almoço com o time do Brain Lab

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Aos poucos, eu cada vez me sentia mais confortável naquela rotina e mais parte daquele mundo. Sentia falta de muita coisa do Brasil, mas estava genuína e indubitavelmente feliz no ambiente científico, na minha mini sala dentro do laboratório já toda organizada do meu jeitinho. E minha pesquisa seguia. Até que, no início de setembro, aconteceu um episódio muito marcante. As folhas das árvores começavam a secar lá fora enquanto eu finalizava uma análise de resultados de um experimento muito grande que eu realizara no dia anterior. E vou ter que confessar: os resultados não eram nada animadores. À primeira vista, não faziam sentido nenhum, e parecia haver um milhão de coisas que poderiam ter dado errado. Nesse momento, o meu supervisor, Ramon, entrou no laboratório, seguido pela Sumati, pesquisadora colaboradora do meu projeto, poucos minutos depois. Ambos começaram a discutir o experimento, e uma terceira voz, falando com confiança, entrou na conversa, mas não havia mais ninguém na sala. A discussão foi produtiva e vários detalhes foram acertados e refinados. Quando eles saíram, eu me dei conta: aquela voz ativa era minha. Veja bem, não é como se eu ficasse calada antes, eu sempre expressei minha opinião. Mas essa foi a primeira vez que eu senti que eu realmente dominava o projeto e o assunto, e tinha plena capacidade de ajudar a tomar grandes decisões sobre o mesmo. Nesse dia, te garanto, ninguém saiu pelas portas da Harvard School of Public Health com um sorriso mais largo do que o meu. A partir disso, tudo mudou, principalmente as reuniões semanais. A esse ponto, eu entendia cada palavra proferida e, mais do que apenas entender, eu tornei-me capaz de interpretar, avaliar e concordar (ou não). A ciência origina-se da discordância, não é mesmo?

Aproveitando cada minuto de sol

Aproveitando cada minuto de sol

O verão partiu de vez, mas não levou consigo minha alegria, muito menos o meu ímpeto. Restavam poucos meses para a entrega do relatório final, e eu estava cada vez mais perto de descobertas muito promissoras.

Veio o outono, e aqui preciso abrir um parênteses. O outono! Eu nasci no outono, e sempre tive um certo ressentimento disso, principalmente porque minha irmã nascera na primavera, a estação das flores! E eu, na temporada das… folhas secas?! Me parecia a maior chatice. Nunca vi muita graça nessa estação, sempre a interpretei como uma primavera sem flores, ou um período neutro entre verão e outono. Os poetas sempre enaltecem e romanceiam essas três, deixando o outono um pouco de lado. O mesmo é aplicável quando se trata de filmes e livros. Contudo, quer que eu te conte a verdade? Todo esse pessoal que subestima o outono, inclusive eu mesma antes de morar em Boston… todo esse pessoal não sabe de nada! Não há absolutamente nada mais deslumbrante no mundo do que o outono na região da Nova Inglaterra.

O outono na Nova Inglaterra, região compreendida pelos estados de Vermont, New Hampshire, Connecticut, Rhode Island, Maine e Massachusetts, onde fica Boston

O outono na Nova Inglaterra, região compreendida pelos estados de Vermont, New Hampshire, Connecticut, Rhode Island, Maine e Massachusetts, onde fica Boston

Uma beleza sem tamanho toma conta de tudo, e as árvores pintam-se dos mais variados tons de laranja, amarelo, vermelho, e até roxo. As folhas vão caindo, e dessa vez o solo vira a atração principal. Tenho demorado o dobro de tempo para chegar a qualquer lugar, porque sou incapaz de não parar a fim de apreciar o espetáculo. Como se não fosse suficiente, o ar tem um cheiro tão maravilhoso, tão indescritível! Para melhorar, ainda tive a sorte de viver o mês de outubro mais quente em Boston desde 1947, então pude passar muito tempo saboreando a natureza.

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Mais uma vez, o interior do laboratório reflete o exterior encantador. Em suma, meus afazeres incluem mais experimentos para obter os últimos resultados a tempo e o planejamento da apresentação e do relatório finais. Algumas semanas atrás, meu chefe pediu para que eu preparasse alguns dos meus dados para que ele os apresentasse no congresso europeu de pneumologia em Bratislava, e voltou da conferência dizendo que a comunidade internacional elogiou muito a minha pesquisa. Ademais, outro projeto foi submetido para o maior congresso de Pneumologia da América. Por fim, outra novidade muito animadora: eu, que no começo do inverno estava completamente perdida dentro do laboratório, hoje tenho alunos que vem me assistir operando os ratinhos para aprender a técnica cirúrgica. Sou responsável pelo treinamento de pesquisadores de outros laboratórios, todos formados e muito mais velhos do que eu. Qual a dúvida de que estou adorando isso tudo?

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Mais cores do outono

Mais cores do outono

O outono tem sido, de longe, minha estação favorita. Não só pela beleza, não só pelos resultados positivos na faculdade. Depois do inverno, primavera e verão aprendendo, localizando-me, fazendo novas amizades, lidando com a saudade, criando novos hábitos, é no outono em que eu me sinto total e completamente adaptada. É o momento da colheita. Está também cada vez mais perto a hora da despedida, mas ignoremos esse fato por enquanto. Ainda tenho muitas aventuras a viver – e muitos posts a escrever.

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Queria muito lembrar quem me disse uma vez que ciência não se faz em um ano. De fato, não se faz mesmo. É preciso muito mais tempo, estudo e maturidade para isso. Mas, cá entre nós, em um ano dá sim para ter um gostinho…

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Até semana que vem!

 

Carol Martines

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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

 

“Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.”

(Álvaro de Campos)

 

Os três Carnavais de Boston

Oi, tudo bem por aí?

No post de hoje, vamos conversar sobre alguns aspectos culturais dos Estados Unidos que diferem muito do Brasil, com ênfase em um tema leve e divertido para compensar os posts anteriores, mais densos: falemos sobre celebrações!

Vou direto ao ponto: Boston é, na minha opinião, a pior cidade do mundo para festas. Sabe todo aquele agito que vemos nos filmes de Hollywood sobre faculdades americanas: festas de fraternidade, house parties e por aí vai? Sinto lhe informar, mas é tudo mentira, pelo menos aqui em Boston. Não posso dizer pelo resto dos Estados Unidos, talvez na região central e na costa oeste seja diferente, mas aqui na capital de Massachusetts, mesmo com a quantidade absurda de jovens universitários, as festas são muito muito ruins. No início do intercâmbio, acostumada com o agito de São Paulo, tenho que admitir que fiquei um pouco decepcionada com isso, mas Boston tem tantas outras opções de lazer incríveis a oferecer que realmente não sinto a menor falta de uma vida noturna intensa – mas a opinião da maioria dos meus amigos brasileiros que moram aqui diverge da minha.

Como explicar essa escassez? Todas as festas devem terminar antes das 2 da manhã por lei (o que é muito cedo para os padrões brasileiros), álcool é extremamente caro, as baladas cobram fortunas pela entrada. Mas eu acho que a verdadeira causa é muito menos concreta do que isso: o povo de Boston simplesmente não tem o espírito de festa que o brasileiro tem. E não é preciso sair à noite para dar-se conta disso, uma vez que a qualquer hora do dia os bostonianos andam sem esbanjar simpatia. Isso de dar bom dia e sorrir para um estranho no ônibus não existe aqui, o que é uma das poucas coisas que eu não gosto desse lugar.

Houve, no entanto, três exceções, três vezes em que eu vi a cidade transformar-se, ganhar vida e alegria, três celebrações em que os moradores de Boston sorriram à toa como se fossem brasileiros. Nessas ocasiões, tentei absorver o máximo possível da experiência cultural, seguindo cada clichê e fazendo exatamente o que um clássico americano faria. Com você, os três Carnavais de Boston.

St. Patrick’s Day

Celebrado no dia 17 de março, essa festa anual celebra a morte de São Patrício, padroeiro da Irlanda. Contudo, aqui nos Estados Unidos, St. Patrick’s Day passa bem longe de uma comemoração religiosa. As cores verde e branco, assim como os trevos de quatro folhas, tomam conta de Boston quando o grande dia vai chegando. E engana-se quem pensa que a festa dura apenas um dia: o final de semana inteiro é agitadíssimo.

Na sexta-feira, dia 17, o Quincy Market, um dos pontos turísticos mais populares da cidade, recebeu shows de dança e música irlandesa. Os bares da cidade toda, raramente cheios, ficaram lotados desde as 3 da tarde. Filas e mais filas para entrar. Cerveja verde, sorvete verde, copo verde, chocolate verde: era possível encontrar de tudo nessa cor, como se eu estivesse no meio da torcida do Palmeiras.

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Show no Quincy Market

A celebração seguiu até o domingo, quando aconteceu o evento mais tradicional e esperado: a famosa parada de St. Patrick’s Day em South Boston. Ainda estava muito frio (lembre-se que esse ano nevou até abril), mas as pessoas pareciam nem se importar enquanto dançavam ao som das músicas irlandesas.

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Carro decorado com as cores da Irlanda

Mais da parada em South Boston

Mais da parada em South Boston

Boston é uma das cidades americanas que celebra com mais alegria o St. Patrick’s Day, provavelmente por causa da grande quantidade de irlandeses vivendo na região. A única cidade que, na minha opinião, supera Boston nesse quesito é Chicago, onde eles chegam ao extremo de pintar o Chicago River de verde para a celebração. Não vi com meus próprios olhos, mas peguei emprestado do Google para te provar que é verdade!

Chicago River VERDE no St. Patrick’s Day: note que é utilizada uma substância que não polui o rio

Chicago River VERDE no St. Patrick’s Day: note que é utilizada uma substância que não polui o rio

4th of July

Outra celebração marcante é o dia da Independência dos Estados Unidos no dia 4 de julho. De fato, também temos, no Brasil, o nosso feriado análogo, mas, enquanto para nós é apenas mais um dia de descanso da escola ou do trabalho, nos EUA a comemoração atinge proporções inacreditáveis, principalmente em Boston, considerado o berço da independência americana, sendo a folia é ainda maior. Como a comemoração dá-se no auge do verão e das férias escolares, a cidade fica repleta de turistas.

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O povo americano é patriota por definição o ano todo, mas, no início de julho, Boston veste-se da cabeça aos pés das cores da bandeira americana, similarmente ao que fazemos no Brasil em época de Copa do Mundo. Para onde quer que você olhe, verá um sinal de patriotismo.

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Diferentemente das outras duas datas citadas neste post, que são dias úteis normais apesar da folia, o 4th of July é o único que é um feriado de verdade. E aqui está mais uma enorme diferença entre nosso Brasil e os EUA: a abundância de feriados do primeiro em contraste com a escassez do segundo. Desse modo, nada mais natural do que aproveitar o dia de sol com um clássico barbecue americano ou uma boa praia. A propósito, as praias da cidade não são tão bonitas quanto as brasileiras, mas serviram para matar a saudade da areia e do sol. Contudo, apesar do calor de 35 graus, entrar no mar estava fora de questão para mim, já que a água era MUITO fria.

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Praias em Boston

Praias em Boston

Ao entardecer, depois de um dia relaxante, a maioria das pessoas dirige-se às margens do Charles River para a grande atração do dia: o concerto do 4th of July, seguido de uma queima de fogos de artifício inacreditável – sem sombra de dúvida, a mais linda que já vi na minha vida, com uma quantidade e variedade de cores inimaginável. O evento é grátis e reúne mais de meio milhão de pessoas anualmente, sendo inclusive televisionado. Obviamente, tratando-se de tamanha aglomeração de pessoas, o policiamento da atração é igualmente maciço.

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Halloween

Apesar de ser celebrado no dia 31 de outubro, o clima de Halloween toma conta da cidade e, principalmente, das lojas de departamento, em meados de agosto. Nestas, há corredores e corredores vendendo absolutamente tudo que se pode e não se pode imaginar no tema Halloween, de fantasias a peças de decoração, de doces a utensílios domésticos. Tudo é vendido na versão “dia das bruxas”, de chocolates a cafés do Starbucks, como você pode ter uma noção a partir das fotos abaixo. Concordo que seja um exagero, mas já conversamos em posts anteriores que o consumismo é um dos motores dos Estados Unidos.

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Bolacha especial de Halloween

Bolacha especial de Halloween

Chocolates de dia das bruxas

Chocolates de dia das bruxas

Nem o Starbucks escapou, lançando seu Frappuccino zumbi

Nem o Starbucks escapou, lançando seu Frappuccino zumbi

E obviamente, abóboras de todos os tamanhos e formas!

E obviamente, abóboras de todos os tamanhos e formas!

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O clima é muito gostoso e, conforme o grande dia vai chegando, fica praticamente impossível não se contagiar pela festa. Um dia antes do 31 de outubro, veja só a fila na porta da principal loja de Halloween do centro da cidade.

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É de conhecimento geral que um dos lugares mais famosos do mundo para essa celebração é Salem, a cidade das bruxas. Entretanto, poucos sabem que essa cidade mágica fica a um curto voo de vassoura – ou 40 minutos de trem – de Boston. Desse modo, grande parte dos moradores da capital de Massachusetts opta por comemorar a data na pequena Salem, além de hordas de turistas vindos de toda parte. A fofíssima cidade de 40 mil habitantes vive basicamente do turismo, de modo que lá é dia das bruxas 365 dias por ano!

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“Poções” à venda na cidade das bruxas

“Poções” à venda na cidade das bruxas

Apesar de ter adquirido fama por servir como cenário para filmes e séries como “As bruxas de Salem”, “Hocus Pocus” e “A feiticeira”, a relação da pequena cidade litorânea com a bruxaria é muito anterior ao advento da televisão, datando precisamente de 1692. Eu poderia fazer um post inteiro sobre esse lugar assustadoramente interessante, mas serei breve: no final do século XVII, alguns moradores da região, mulheres em sua maioria, foram acusados de bruxaria e perseguidos. Mais de 60 foram presos, alguns foram julgados nos famosos “Salem witch trials”, e 20 foram efetivamente condenados pelo crime de bruxaria e morreram enforcados (com exceção de um homem, que foi cruelmente executado por meio de esmagamento com pedras). Pode parecer um roteiro de filme de terror, mas infelizmente esse absurdo de fato aconteceu, e é um exemplo emblemático de histeria coletiva e do perigo de falsas acusações. Por séculos, os moradores de Salem quiseram esconder seu passado vergonhoso, mas atualmente a história é usada como uma preciosa lição para todos que passam por lá, e as vítimas da “caça às bruxas” serão eternamente lembradas e homenageadas, sendo a cidade um museu a céu aberto.

Eu particularmente optei por visitar Salem alguns meses antes do Halloween, pois as atrações não estariam tão lotadas e eu poderia aprender melhor sobre esse passado tão chocante.

Salem Witch Museum

Salem Witch Museum

Era julho, mas a contagem regressiva já estava valendo

Era julho, mas a contagem regressiva já estava valendo

Estátua da Feiticeira, do seriado americano da década de 60

Estátua da Feiticeira, do seriado americano da década de 60

Sem mais delongas, vou finalmente falar do dia 31 de outubro em si, e já adianto: foi um dos dias mais legais do ano. Eu e meus amigos ficamos em Boston mesmo e não saímos para uma balada como a maioria dos jovens americanos faria, já que tínhamos um plano muito melhor: viver um sonho de infância e sair pelas ruas em clima de “doces ou travessuras”.

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Optamos pelo bairro de Beacon Hill, um dos mais chiques de Boston, onde as casas são lindamente decoradas para a ocasião, havendo inclusive uma competição informal pela casa mais bonita. Pessoas fantasiadas de todas as idades e até animais de estimação tomam as ruas e nenhum carro passa. Engana-se quem pensa que só as criancinhas ganham doces: a distribuição de gostosuras nas portas das casas é muito democrática. Nesse ponto, preciso confessar que me empolguei… me fantasiei de unicórnio!

A criança mais feliz da rua

A criança mais feliz da rua

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Talvez pareça algo muito simples pelo meu depoimento, mas, para mim, foi realmente mágico. Fascinou-me ver tudo aquilo que assistimos pela televisão com meus próprios olhos e sentir tanta alegria nas pessoas, normalmente tão fechadas. Famílias inteiras sentadas na porta de casa distribuindo doces, famílias inteiras fantasiadas pelas ruas admirando as decorações. “Trick or treat! Happy Halloween!” por toda a parte. Acho que é o tipo de coisa que é preciso viver para compreender inteiramente o encanto.

Resultado do Halloween: alguém me ajuda!!

Resultado do Halloween: alguém me ajuda!!

E acredite se quiser: logo no dia seguinte, primeiro de novembro, as lojas já estavam transformadas, dessas vez no tema natalino!

Quando se trata de comércio, os americanos não perdem tempo

Quando se trata de comércio, os americanos não perdem tempo

Espero que você tenha se divertido comigo enquanto lia sobre as três comemorações mais animadas de Boston. Me surpreendeu a intensidade dos americanos em cada uma dessas datas. Contudo, verdade seja dita: não há nada comparável ao Carnaval do jeitinho brasileiro!

Até semana que vem!

 

Carol Martines

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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“O mundo está cheio de coisas mágicas , pacientemente à espera de que nossos sentidos tornem-se mais afiados.” (W. B. Yeats)