O caso dos dez ratinhos (parte 2)

Olá, como estão as coisas por aí?

1-2

Um pouco do outono aqui na Nova Inglaterra para embelezar a página

No post dessa semana, conforme prometido, vou te contar o resultado do meu fatídico experimento de 14 dias e o final do mistério da placa desaparecida. Preciso acrescentar que fiquei muito feliz com as várias mensagens que recebi de “Ei, me conta, a placa era sua mesmo?”. Me senti (quase) a Agatha Christie! A propósito, apenas sete ratinhos foram utilizados nessa experiência, e não dez, mas eu não poderia desperdiçar a oportunidade de fazer uma referência à minha obra favorita da rainha do crime. E se você não está entendendo nada do que eu disse até agora, leia o post anterior a esse, que contém o começo do caso dos dez ratinhos, antes de prosseguir.

Onde paramos? Eu havia passado os últimos 14 dias no laboratório muito envolvida com um experimento que incluía a análise de diferentes meios de cultura para manter pedacinhos de pulmões de ratos vivos por mais tempo. Era o 14o dia, quando eu faria as análises finais, essenciais para a conclusão do projeto. Entretanto, para meu total desespero, minha placa desaparecera da incubadora do laboratório, e encontrei a peruana Daysi, pesquisadora de outro time que esporadicamente usa o espaço do Dr. Brain, manipulando uma placa idêntica à minha e dizendo que era dela.

  • Daysi, o que esta placa está fazendo aqui? – eu esbravejei, absolutamente certa de que aquele era o meu experimento, já que a tampa transparente fora identificada com a data pela minha letra.
  • Essa placa está aqui porque é minha. Olha só o meu nome nela! – ela gritou de volta, pegando-a das minhas mãos.

Eu não sou uma pessoa nada agressiva, mas admito que nesse momento eu considerei seriamente pular no pescoço da peruana. Com o indicador, ela apontou para as letras na tampa.

  • Aqui está o meu nome: Daysi. Como isso pode não ser meu?

Repentinamente, uma combinação estranha de alívio e raiva preencheu meu peito. Estava tudo esclarecido, e eu só consegui rir. Tirei a disputada placa das mãos dela, e foi minha vez de indicar as palavras na tampa:

– Daysi, aqui está escrito “DAY 14”, não “DAYSI”.

2-2

– Ahhh, eu achei que fosse o meu nome – ela disse baixinho, com uma expressão de choque e vergonha.

Não me segurei e dei uma boa bronca (da maneira mais educada que eu consegui) antes de sair da sala levando o meu experimento. Daysi poderia ter destruído duas semanas do meu trabalho por causa desse erro. Onde já se viu entrar no laboratório alheio e pegar experimentos dos outros? E pior, como alguém pode simplesmente não lembrar das suas próprias placas? Os outros pesquisadores do laboratório Brain ficaram incrédulos com essa história, e as medidas de segurança foram reforçadas. Agora, a peruana me pede permissão dez vezes antes de mexer em qualquer coisa… Melhor assim, não é mesmo?

O mistério foi solucionado, mas eu ainda precisava cuidar do mais importante: a conclusão do projeto. Não totalmente recuperada da ira, passei o dia fazendo testes e análises estatísticas. Quando estava tudo pronto, comecei a interpretar os resultados e me dei conta de que o pior momento do dia não fora a discussão com Daysi, como eu supusera… A pior hora desse dia tão longo começaria naquele instante, pois os resultados não faziam o menor sentido.

Veja bem, no mundo da ciência, costuma-se dizer que todo resultado, positivo ou negativo, é um resultado válido. Contudo, em algumas situações específicas, há resultados verdadeiramente nulos, que mostram que o experimento deu errado. Era esse o caso: os números indicavam que a viabilidade dos pedaços de pulmões em todos os quatro grupos aumentava no último dia em comparação com os anteriores, o que é biologicamente impossível. Por acaso, você assistiu ao filme “O curioso caso de Benjamin Button”, em que o protagonista nasce idoso e vai rejuvenescendo ao longo dos anos? Então, os resultados do meu experimento indicavam que os pulmões dos ratinhos estavam comportando-se à la Benjamin Button, ganhando vida com o passar do tempo, o que simplesmente não pode ser explicado pela nossa ciência, pelo menos não por enquanto. Em suma, falemos um português bem claro: os meus 14 dias de trabalho foram para o lixo. O fato de Daysi ter tirado a placa da incubadora antes do tempo poderia ter contribuído para tal? Quiçá, mas também podem ter sido inúmeros outros fatores. Eu nunca saberei ao certo. De qualquer modo, não precisava de um culpado, e sim de uma solução.

Na manhã seguinte a esse dia tão conturbado, apresentei meus resultados para o Ramon, meu orientador, e pedi para repetir o experimento. Mesmo concordando comigo quanto à necessidade de repetir tudo devido aos resultados impossíveis obtidos, ele não ficou nada animado, por dois motivos. Primeiramente, seria muito custoso refazer o projeto, já que os ratos, o meio de cultura novo e as nanopartículas de prata são assaz caros. Em segundo lugar, o laboratório estava com outras prioridades naquele momento, e eu seria necessária em um outro projeto. Entretanto, apesar de sua objeção inicial, eu insisti, dizendo que queria muito concluir esse experimento, e que me comprometia a realizar os dois projetos concomitantemente. Assim, Ramon concordou, e lá fui eu recomeçar mais uma série de 14 dias: mais ratos sacrificados, mais 200 pedacinhos de pulmões, mais sábados e domingos no laboratório.

Enfim, depois de fazer leves ajustes para minimizar a chance de erros,  refiz o experimento inteiro por duas semanas e, dessa vez, para o meu deleite, obtive resultados interessantes e plausíveis. Toda animada, preparei uma apresentação em PowerPoint para a reunião do laboratório Brain do dia seguinte. Eu havia me envolvido muito com esse projeto, e estava ansiosíssima para dividir minhas descobertas com o resto do time. Contudo, infelizmente, a reunião foi bem diferente do que eu imaginara: ninguém mostrou o menor interesse pelos resultados.

Como expliquei no post anterior, esse projeto fora discutido inicialmente em julho desse ano, logo passaram-se mais de três meses da elaboração inicial até o dia da apresentação, 17 de outubro. Muita coisa muda em três meses, e o experimento claramente deixara de ser uma prioridade para o laboratório. Caberia a mim apenas aceitar essa realidade, pelo menos por enquanto. Mas não posso negar que fiquei extremamente chateada e decepcionada com toda essa história: foram semanas de expectativa e trabalho intenso em vão.

E foi assim que eu planejei que esse post terminaria. Um pouco melancólico, eu sei, mas sinto que tenho a obrigação de ser realista e mostrar tanto o lado maravilhoso de fazer pesquisa em Harvard, quanto as partes frustrantes e desagradáveis. Às vezes, ganhamos; às vezes, aprendemos. E eu havia aprendido uma lição valiosa: tenha paciência, menina, saiba a hora de controlar sua intensidade.

Fim.

Porém… (Sempre tem um porém.)

Eu não estava super satisfeita com esse post, – quem não prefere um final feliz? – mas saí para escrevê-lo mesmo assim. Peguei meu laptop e fui para um parque perto de Harvard para aproveitar enquanto o clima me permite escrever ao ar livre.

3

Estava começando a digitar o título quando chegou um e-mail, O e-mail: era uma colaboradora do Brain lab dizendo que os resultados do meu projeto serão parte de um abstract que será submetido para a conferência anual da American Thoracic Society (ATS 2018), maior congresso de pneumologia da América. UAU. Consegue imaginar o sorriso que eu abri com essa notícia?

Depois dessa, creio que o final mereça ser atualizado, porque não há absolutamente nada melhor do que sonhar alto, trabalhar duro e, de pouco em pouco, conquistar o que você sempre quis.

Até a próxima!

Carol Martines

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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“Eu sei o preço do sucesso: dedicação, trabalho duro, e uma incessante devoção às coisas que você quer ver acontecer.” (Frank Lloyd Wright)

O caso dos dez ratinhos

Oi, tudo bem por aí?

Hoje, quero te contar uma história que quem convive comigo não aguenta mais ouvir, uma novela que se estendeu por quase dois meses e tomou uma proporção muito grande na minha vida em Boston. Praticamente um caso de polícia, meu amigo. Os personagens principais são: eu, dez ratinhos, uma peruana e dois meios de cultura. A cena do crime, nada mais nada menos do que Harvard University.

Widener Library em Harvard

Widener Library em Harvard

Preciso começar te explicando o projeto científico que causou todo o alvoroço. Não gosto muito de detalhar meus experimentos porque creio que certas minúcias do laboratório não acrescentem muito na sua vida, então irei apenas prover o mínimo de informação necessário para a compreensão da história de hoje. Como já falei diversas vezes, eu trabalho em um laboratório de Harvard especializado em realizar análises de toxicologia no sistema respiratório. A minha linha de pesquisa tem como foco o uso de finíssimas fatias de pulmões de ratos como meio de testar a toxicidade de vários produtos químicos: é como se cada pedacinho funcionasse como um pulmão inteiro. Toda vez que começo a explicar isso para um amigo, a primeira pergunta invariavelmente é: “Carol, como esses pedacinhos são mantidos vivos?”. No meu laboratório, é usada há anos uma espécie de meio de cultura com um nome super longo e complicado do qual te pouparei, que é capaz de suprir todas as necessidades vitais das fatias de pulmões por alguns dias. Eu e meus experimentos vivíamos felizes com esse meio de cultura.

Até que, em meados de julho, fui convocada para uma reunião praticamente emergencial. Um outro laboratório americano concorrente ao nosso, chefiado por um tal de Dr. Holger, havia descoberto um novo meio de cultura que, segundos os seus criadores, era capaz de manter as fatias de pulmão com maior viabilidade por mais tempo – e naturalmente custava 30 vezes mais caro. Nosso laboratório, evidentemente, precisava testar logo essa nova substância. Desenvolvemos rapidamente um experimento a fim de comparar o nosso meio de cultura usual com o do grupo Holger. No mundo da ciência, não se pode ficar para trás!

Fiquei responsável por esse projeto, o que me deixou muito animada, já que parecia algo muito direto e promissor. As férias de verão e a demora para recebermos cada um dos componentes do novo meio de cultura atrasaram consideravelmente o início dos experimentos, que só ocorreu no final de agosto.

Enfim, finalmente estava tudo pronto para começar. Seria um experimento de 14 dias consecutivos (ou seja, adeus, finais de semana!) que exigiria minha dedicação total. No dia 1, os ratos seriam sacrificados e seus pulmões, removidos e fatiados. A partir do dia 2, os 200 pedacinhos obtidos seriam divididos em 4 grupos:

  • A: 50 seriam imersos apenas no nosso meio de cultura padrão
  • B: 50 no meio padrão com nanopartículas de prata
  • C: 50 apenas no meio Holger
  • D: 50 no meio Holger com nanopartículas de prata

Ambos os meios de cultura precisavam ser trocados no máximo a cada 48 horas, pois, simplificadamente, os pedaços de pulmões consomem todo o “alimento” presente no líquido nesse período. Ademais, em dias específicos, eu mediria a atividade metabólica das fatias usando um teste chamado MTS, até finalizar os 14 dias.

Tudo parecia muito simples comparando com os meus projetos anteriores, e eu sabia muito bem o que esperar: ao longo dos dias, todos os grupos sofreriam uma diminuição fisiológica da atividade metabólica, mas esse decréscimo seria menor nas fatias tratadas com o meio Holger. As nanopartículas de prata eram tóxicas, então se esperava maior viabilidade no grupo A do que no B, e no grupo C do que no D. Tudo parecida simples até demais…

O único ponto que tinha um potencial gigantesco para dar errado era a contaminação. Manter essas fatias vivas por uma dia sem atrair milhões de bactérias já é difícil, imagine por 14. Soma-se a isso o fato de que os outros pesquisadores do meu laboratório estariam fazendo experimentos com ratos ininterruptamente, tornando um desafio ainda maior manter o ambiente o mais estéril possível. Todavia, contrariando as expectativas de muitas pessoas, eu consegui manter 199 dos 200 pedacinhos livres de bactérias, não sem esgotar o estoque de álcool do laboratório e de paciência da narradora.

Adoraria acabar a história aqui com um final feliz, mas a verdade dos fatos me obriga a continuar. O que mais poderia falhar? Vamos direto ao ponto: a única coisa que NÃO deu errado foi a parte da contaminação. Todo o resto foi um desastre. Todos os reagentes deram algum problema, nenhum dos materiais funcionava como deveria. Cada dia, aparecia um problema novo, alguma máquina travava, algum produto expirava antes do previsto. E lá saia eu feito louca pelos corredores da Harvard School of Public Health tentando encontrar uma solução. E o problema não podia ser resolvido no dia seguinte, pois o experimento tinha um cronograma muito fixo e definido. Em suma, ou eu solucionava o conflito do dia, ou eu perdia tudo que fizera até aquele ponto.

Fileiras de laboratórios em todos os andares do prédio

Fileiras de laboratórios em todos os andares do prédio

Eis que, depois de duas semanas de muito esforço, finalmente chegou o último dia. Na noite anterior, eu havia sonhado com aquele experimento, tamanho o meu envolvimento (sonho ou pesadelo? Ou talvez um pressentimento?). Na manhã do 14o dia, assim que cheguei ao laboratório, verifiquei se a minha placa com as fatias de pulmões estava livre de bactérias dentro da incubadora. Satisfeita com o que vi, fui para outra sala e comecei a fazer os preparativos para a última medida de viabilidade do projeto.

Cerca de uma horas depois, voltei para pegar minha placa na incubadora… e ela não estava lá. Simplesmente, desapareceu. Primeiramente, pensei que estivesse delirando. Eu mesma deveria ter esquecido de recolocá-la no lugar de costume. Depois de reconfirmar minha sanidade mental, já muito preocupada, comecei a perguntar aos demais pesquisadores do laboratório se haviam pegado minha placa. Todos negaram, obviamente ninguém pega experimentos alheios, principalmente os que são arruinados se retirados da incubadora por alguns minutos. A única pessoa que havia entrado no recinto e não estava mais lá era a peruana Daysi, pesquisadora de outro laboratório de Harvard que ocasionalmente utiliza algumas das nossas máquinas. Como ela não atendia o celular, saímos todos em busca dela. Daysi deveria estar em algum lugar entre o terceiro andar e o subsolo, o que compreende uma quantidade enorme de possibilidades. Não sei como, mas, no meio daquele mar de salas e corredores, eu a encontrei. Daysi estava manipulando uma placa idêntica à minha, e meu coração quase parou durante os dois segundos em que demorei para perceber que não era a mesma. Era muito parecida, mas certamente não era a minha.

A placa à qual me refiro era desse tipo

A placa à qual me refiro era desse tipo

Respirei fundo e tentei me recompor, já que não podia começar gritando com alguém que podia perfeitamente ser inocente.

  • Oi, Daysi. Tudo bem? Você por acaso usou nas últimas horas a incubadora do Brain lab? – perguntei em inglês com a voz mais amigável que consegui.
  • Oi, Carolina. Usei, mas só mexi nas minhas placas.
  • Tem certeza?
  • Tenho, absoluta. Todas as minhas placas têm o meu nome.

Não havia como rebater uma resposta categórica dessas. Eu estava quase saindo do laboratório dela quando vi. Sobre a bancada atrás da Daysi, estava a MINHA placa. Minha placa, da qual eu cuidara por 14 dias. Quase minha filha àquela altura! Atravessei a sala, peguei-a na mão e não havia espaço para dúvidas. Era a minha placa. Eram meus pulmões. Era a minha letra na tampa.

  • O que. Essa placa. Está. Fazendo. Aqui? – eu esbravejei, tremendo de raiva.
  • Essa placa está aqui porque é minha. Tem o meu nome nela. – ela também levantou a voz.

Ah, não. Aí já era demais! Só podia ser brincadeira! Eu estava furiosa, e nem imaginava o que viria depois…

Semana que vem, te conto o restante dessa loucura da placa desaparecida, o resultado do experimento e outras coisinhas que só Harvard mesmo para me ensinar.

Até lá!

Carol Martines

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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“Para todo problema complexo existe sempre uma solução simples, elegante e completamente errada.”– H. L. Mencken)

É permitido falhar

Olá, tudo bem com você­?

Em um dia normal, você acorda e checa o Facebook. Em menos de um minuto, é bombardeado por imagens e textos da blogueira fitness com corpo escultural que já terminou de malhar antes das sete da manhã, o menino prodígio que aos 16 anos foi aprovado em dez vestibulares, a atriz americana que está tomando champanhe em frente à Torre Eiffel, e por aí vai. Todo mundo no planeta parece estar nadando em sucesso, e você começa humildemente o seu dia pensando em tudo que deve fazer para ser nada menos do que fitness, inteligente e bem sucedido, tudo ao mesmo tempo. A sociedade cobra, e você se cobra.

Convenhamos que ninguém vive só de academia e suco verde

Convenhamos que ninguém vive só de academia e suco verde

Diversas vezes, já compartilhei com você aqui no blog histórias inspiradoras, seja de sucesso profissional, acadêmico ou pessoal, tanto minhas quanto de outras pessoas que tive o prazer de conhecer. A intenção? Sempre querer te estimular a ter gana e coragem de buscar seus sonhos, porque eu verdadeiramente acredito nisso como um combustível para uma vida plena. Todavia, ninguém funciona assim 365 dias por ano. Apesar de algumas pessoas aparentarem certa “invencibilidade”, meu amigo, isso não existe. Não quero iniciar um discurso derrotista – tenho grande aversão a esse tipo de postura, para ser sincera. O que eu quero dizer para você hoje, em meio a esse mundo em que todos buscam ser super-homem e mulher-maravilha o tempo todo, é: tudo bem falhar, tudo bem se permitir. Tudo bem dormir até tarde um dia em que você deveria estar estudando mas a exaustão física ou mental não lhe permite. Tudo bem faltar à academia. Tudo bem tirar uma nota ruim. Tudo bem estar mal arrumado. Está tudo bem. Desde que essas situações não se tornem rotina, sejam exceção e não regra.

Tratamos muitos das conquistas, dos acertos, mas rarissimamente falamos dos erros, sendo que esses são, não um fim horrível a ser temido, e sim uma etapa que constitui o trajeto para a vitória. É muito fácil encher o peito para contar como fui aprovada na USP e em Harvard ou como corri uma meia maratona. E as derrotas? Ah, dessas ninguém quer falar: seria o mesmo que admitir suas fraquezas aos quatro ventos. Logo, diferente de 99% do conteúdo que circula na internet atualmente, hoje conversaremos sobre falhas, defeitos, tudo isso que tentamos negar, mas que fazem parte de quem somos. Veja bem, não estou falando de modo algum que devemos estudar, treinar ou trabalhar menos. A dedicação deve sempre ser muito intensa. Hoje eu só tenho menos medo de errar, porque, ao contrário do que eu acreditava quando estava prestando vestibular, falhar está longe de ser o fim do mundo.

É muito difícil ouvir um “não”, principalmente quando se está acostumado com o contrário. Eu recebi mais “nãos” do que eu gostaria nos últimos anos, mas como esta página é sobre intercâmbio, ater-me-ei ao tema.

O primeiro “não” foi em 2014, quando apliquei para o intercâmbio do Ciências Sem Fronteiras. Havia boatos de que esse seria o último ano do programa, e realmente foi, por isso era tão importante ser aprovada. Eu sempre sonhara em fazer intercâmbio, e tinha certeza absoluta de que passaria, afinal, não conhecia ninguém da USP que tivesse sido reprovado. Porém, acredite se quiser, eu digitei incorretamente o meu CPF na hora de fazer a inscrição, e não passei. Tentei de tudo para mudar o resultado, mas não houve solução. Eu chorei muito, muito mesmo. Nunca contei o quanto isso me chateou para ninguém além da minha família, mas, a essa altura do campeonato, não faz o menor sentido esconder. (Nunca fez, na verdade, mas às vezes precisamos de um tempo para constatar isso.)

O segundo foi no ano seguinte, em 2015, quando apliquei para o intercâmbio de Harvard pela primeira vez. Como já detalhei em um dos primeiros posts do ano, eu fui recusada, e essa resposta negativa doeu ainda mais. O sonho do intercâmbio parecia se despedaçar bem ao alcance dos meus olhos, mas não das minhas mãos. Em ambas as tentativas, tenho plena consciência de que o erro foi totalmente meu, e não uma injustiça do sistema de seleção. Um ano depois, porém, tentei de novo e finalmente veio o “sim”.

Gosto muito do significado dessa foto. Foi tirada em 2015, quando eu achava que seria aprovada para estudar em Harvard em 2016, o que não aconteceu. Mas, se você olhar com atenção, percebe que ao fundo está escrito 2017 também. Coincidência?

Gosto muito do significado dessa foto. Foi tirada em 2015, quando eu achava que seria aprovada para estudar em Harvard em 2016, o que não aconteceu. Mas, se você olhar com atenção, percebe que ao fundo está escrito 2017 também. Coincidência?

Hoje, não sei expressar quão grata eu sou por ter “falhado” essas duas vezes. Vim para o intercâmbio dos sonhos de qualquer maneira, mas muito mais madura do que se o tivesse feito nas duas oportunidades anteriores, o que me faz aproveitar a experiência de uma maneira muito mais consciente e completa. Ademais, tudo que eu vivi nos dois últimos anos em que eu estava no Brasil por não estar nem no programa do Ciências Sem Fronteiras nem do de Harvard foi tão maravilhoso que sinto que qualquer palavra que eu tentar usar para descrever será um eufemismo. Eu não trocaria tudo que aconteceu por eu ter recebido esses dois “nãos” por nada, nada mesmo. Meus pais sempre falaram que Deus escreve certo por linhas tortas, e cada vez mais eu tenho fé nisso. Ou talvez Ele escreva certo por linhas certas, nós é que lemos torto.

Afinal, onde eu quero chegar com tudo isso? Apesar de alguns dos textos deste blog serem mais genéricos, escrevo a maioria deles pensando especificamente em alguém, de pessoas próximas como meus pais, minha irmã, meu namorado, até desconhecidos como um vestibulando ansioso ou uma bandeirantina em dúvida entre medicina e direito. Contudo, dessa vez, o leitor em foco sou eu. Eu sempre me cobrei muito em diversos aspectos, e hoje sou eu que preciso ouvir: é permitido falhar. Espero que esse lembrete te ajude também.

Em uma sociedade na qual há uma cobrança gigantesca, tanto dos outros quanto de nós mesmos, para sermos inteligentes, ricos, fitness e bem sucedidos, quando sobra tempo para simplesmente sermos? Para sentar na janela com um pijama bem confortável e uma xícara de chocolate quente em mãos, ver a chuva cair e deixar um ou outro errinho te preparar para um dia vitorioso no futuro?

Até a próxima!

 

Carol Martines

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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.” (Clarice Lispector)

O gênio da lâmpada

Oi, tudo bem?

Esta foto e todas as outras deste post mostram o crepúsculo em diferentes locais de Boston na última semana

Esta foto e todas as outras deste post mostram o crepúsculo em diferentes locais de Boston na última semana

Tem sido muito interessante essa experiência de escrever semanalmente em um blog, pois, entre várias outras coisas, sinto-me constantemente estimulada a ir atrás de algo novo, peculiar, desconhecido. Toda semana, procuro algo digno de nota, seja pela beleza, pelo caráter informativo, pela surpresa. Contudo, sejamos sinceros: nem sempre o texto reflete o que vivo mais intensamente a cada ciclo de sete dias aqui em Boston. E a verdade é que, se assim fosse, este provavelmente seria o blog mais chato do mundo. Desde janeiro, tenho vivido uma explosão de experiências diferentes: aprendi muito sobre ciência no laboratório, conheci pessoas e lugares incríveis, frequentei conferências enriquecedores, superei os limites do meu corpo com a corrida, lidei com a saudade, sofri com o frio, aprendi a cozinhar e cuidar da casa, reimaginei meu futuro como médica, e por aí vai. Contudo, apesar da inegável relevância dos acontecimentos supracitados, eu considero tudo isso uma parte relativamente pequena desse presente lindo que tem sido o intercâmbio. Não que a importância disso tudo seja menor, mas qual seria o real valor dessas vivências se resultassem em tristeza? Este seria o blog mais entediante do mundo porque, se cada post reunisse o que eu mais senti no fundo do meu coração a cada semana, todos os textos seriam praticamente iguais: eu falaria de 40 modos diferentes como essa experiência me faz inenarravelmente feliz. Como cada dia eu acordo sorrindo com a luz dourada da manhã entrando pela janela do meu quartinho. Como é simples e maravilhosa a sensação do ar, quente ou frio a depender da estação, enchendo meus pulmões na caminhada diária até a Harvard University. Como eu nunca estive tão inspirada, tão em contato com Deus e com o que há de melhor em mim. Como eu mudo meu caminho no final de várias tardes só para apreciar o horizonte pintar-se de um rosa apaixonante enquanto o sol se põe. Como eu me sinto segura e livre, de um jeito que nunca imaginei que fosse possível. Como o céu dessa cidade parece tão amplo e infinito, me fazendo querer voar cada vez mais…

2

Não que eu não fosse feliz antes, de modo algum. Sempre fui e sempre serei. Mas esse ano de 2017 em Boston, ah… é mágico, é especial. E confesso que já estava há semanas tentando colocar em palavras toda essa ressignificação da palavra felicidade para mim quando algo aconteceu.

3

No final da tarde de uma quinta-feira de setembro, enquanto cruzava a Harvard Bridge, ponte que une as cidades de Boston e Cambridge, encontrei uma lâmpada. Como reza a lenda, esfreguei-a e de lá saiu um gênio. Porém, ao invés de me oferecer três desejos como seria esperado, o gênio disse que eu poderia escolher entre uma máquina do tempo e uma máquina de teletransporte. Pensei em todos os momentos lindos do meu passado que poderia reviver com a primeira. Pensei em todos os lugares maravilhosos desse mundo aos quais eu poderia me teletransportar com a segunda.

O que você escolheria?

4

Olhei para o sol se pondo soberano nas águas do rio, e não tive dúvidas. Arremessei a lâmpada com o gênio o mais longe que pude no Charles River, e continuei minha caminhada muito contente: eu já estava exatamente no lugar e no tempo certos. Esse é o meu real significado pessoal de felicidade.

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Até a próxima!

Carol Martines

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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“Claro que está acontecendo dentro de sua cabeça, Harry, mas por que isso deveria significar que não é real?” (Alvo Dumbledore em Harry Potter e as Relíquias da Morte – J.K. Rowling).