É permitido falhar

Olá, tudo bem com você­?

Em um dia normal, você acorda e checa o Facebook. Em menos de um minuto, é bombardeado por imagens e textos da blogueira fitness com corpo escultural que já terminou de malhar antes das sete da manhã, o menino prodígio que aos 16 anos foi aprovado em dez vestibulares, a atriz americana que está tomando champanhe em frente à Torre Eiffel, e por aí vai. Todo mundo no planeta parece estar nadando em sucesso, e você começa humildemente o seu dia pensando em tudo que deve fazer para ser nada menos do que fitness, inteligente e bem sucedido, tudo ao mesmo tempo. A sociedade cobra, e você se cobra.

Convenhamos que ninguém vive só de academia e suco verde

Convenhamos que ninguém vive só de academia e suco verde

Diversas vezes, já compartilhei com você aqui no blog histórias inspiradoras, seja de sucesso profissional, acadêmico ou pessoal, tanto minhas quanto de outras pessoas que tive o prazer de conhecer. A intenção? Sempre querer te estimular a ter gana e coragem de buscar seus sonhos, porque eu verdadeiramente acredito nisso como um combustível para uma vida plena. Todavia, ninguém funciona assim 365 dias por ano. Apesar de algumas pessoas aparentarem certa “invencibilidade”, meu amigo, isso não existe. Não quero iniciar um discurso derrotista – tenho grande aversão a esse tipo de postura, para ser sincera. O que eu quero dizer para você hoje, em meio a esse mundo em que todos buscam ser super-homem e mulher-maravilha o tempo todo, é: tudo bem falhar, tudo bem se permitir. Tudo bem dormir até tarde um dia em que você deveria estar estudando mas a exaustão física ou mental não lhe permite. Tudo bem faltar à academia. Tudo bem tirar uma nota ruim. Tudo bem estar mal arrumado. Está tudo bem. Desde que essas situações não se tornem rotina, sejam exceção e não regra.

Tratamos muitos das conquistas, dos acertos, mas rarissimamente falamos dos erros, sendo que esses são, não um fim horrível a ser temido, e sim uma etapa que constitui o trajeto para a vitória. É muito fácil encher o peito para contar como fui aprovada na USP e em Harvard ou como corri uma meia maratona. E as derrotas? Ah, dessas ninguém quer falar: seria o mesmo que admitir suas fraquezas aos quatro ventos. Logo, diferente de 99% do conteúdo que circula na internet atualmente, hoje conversaremos sobre falhas, defeitos, tudo isso que tentamos negar, mas que fazem parte de quem somos. Veja bem, não estou falando de modo algum que devemos estudar, treinar ou trabalhar menos. A dedicação deve sempre ser muito intensa. Hoje eu só tenho menos medo de errar, porque, ao contrário do que eu acreditava quando estava prestando vestibular, falhar está longe de ser o fim do mundo.

É muito difícil ouvir um “não”, principalmente quando se está acostumado com o contrário. Eu recebi mais “nãos” do que eu gostaria nos últimos anos, mas como esta página é sobre intercâmbio, ater-me-ei ao tema.

O primeiro “não” foi em 2014, quando apliquei para o intercâmbio do Ciências Sem Fronteiras. Havia boatos de que esse seria o último ano do programa, e realmente foi, por isso era tão importante ser aprovada. Eu sempre sonhara em fazer intercâmbio, e tinha certeza absoluta de que passaria, afinal, não conhecia ninguém da USP que tivesse sido reprovado. Porém, acredite se quiser, eu digitei incorretamente o meu CPF na hora de fazer a inscrição, e não passei. Tentei de tudo para mudar o resultado, mas não houve solução. Eu chorei muito, muito mesmo. Nunca contei o quanto isso me chateou para ninguém além da minha família, mas, a essa altura do campeonato, não faz o menor sentido esconder. (Nunca fez, na verdade, mas às vezes precisamos de um tempo para constatar isso.)

O segundo foi no ano seguinte, em 2015, quando apliquei para o intercâmbio de Harvard pela primeira vez. Como já detalhei em um dos primeiros posts do ano, eu fui recusada, e essa resposta negativa doeu ainda mais. O sonho do intercâmbio parecia se despedaçar bem ao alcance dos meus olhos, mas não das minhas mãos. Em ambas as tentativas, tenho plena consciência de que o erro foi totalmente meu, e não uma injustiça do sistema de seleção. Um ano depois, porém, tentei de novo e finalmente veio o “sim”.

Gosto muito do significado dessa foto. Foi tirada em 2015, quando eu achava que seria aprovada para estudar em Harvard em 2016, o que não aconteceu. Mas, se você olhar com atenção, percebe que ao fundo está escrito 2017 também. Coincidência?

Gosto muito do significado dessa foto. Foi tirada em 2015, quando eu achava que seria aprovada para estudar em Harvard em 2016, o que não aconteceu. Mas, se você olhar com atenção, percebe que ao fundo está escrito 2017 também. Coincidência?

Hoje, não sei expressar quão grata eu sou por ter “falhado” essas duas vezes. Vim para o intercâmbio dos sonhos de qualquer maneira, mas muito mais madura do que se o tivesse feito nas duas oportunidades anteriores, o que me faz aproveitar a experiência de uma maneira muito mais consciente e completa. Ademais, tudo que eu vivi nos dois últimos anos em que eu estava no Brasil por não estar nem no programa do Ciências Sem Fronteiras nem do de Harvard foi tão maravilhoso que sinto que qualquer palavra que eu tentar usar para descrever será um eufemismo. Eu não trocaria tudo que aconteceu por eu ter recebido esses dois “nãos” por nada, nada mesmo. Meus pais sempre falaram que Deus escreve certo por linhas tortas, e cada vez mais eu tenho fé nisso. Ou talvez Ele escreva certo por linhas certas, nós é que lemos torto.

Afinal, onde eu quero chegar com tudo isso? Apesar de alguns dos textos deste blog serem mais genéricos, escrevo a maioria deles pensando especificamente em alguém, de pessoas próximas como meus pais, minha irmã, meu namorado, até desconhecidos como um vestibulando ansioso ou uma bandeirantina em dúvida entre medicina e direito. Contudo, dessa vez, o leitor em foco sou eu. Eu sempre me cobrei muito em diversos aspectos, e hoje sou eu que preciso ouvir: é permitido falhar. Espero que esse lembrete te ajude também.

Em uma sociedade na qual há uma cobrança gigantesca, tanto dos outros quanto de nós mesmos, para sermos inteligentes, ricos, fitness e bem sucedidos, quando sobra tempo para simplesmente sermos? Para sentar na janela com um pijama bem confortável e uma xícara de chocolate quente em mãos, ver a chuva cair e deixar um ou outro errinho te preparar para um dia vitorioso no futuro?

Até a próxima!

 

Carol Martines

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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.” (Clarice Lispector)

O gênio da lâmpada

Oi, tudo bem?

Esta foto e todas as outras deste post mostram o crepúsculo em diferentes locais de Boston na última semana

Esta foto e todas as outras deste post mostram o crepúsculo em diferentes locais de Boston na última semana

Tem sido muito interessante essa experiência de escrever semanalmente em um blog, pois, entre várias outras coisas, sinto-me constantemente estimulada a ir atrás de algo novo, peculiar, desconhecido. Toda semana, procuro algo digno de nota, seja pela beleza, pelo caráter informativo, pela surpresa. Contudo, sejamos sinceros: nem sempre o texto reflete o que vivo mais intensamente a cada ciclo de sete dias aqui em Boston. E a verdade é que, se assim fosse, este provavelmente seria o blog mais chato do mundo. Desde janeiro, tenho vivido uma explosão de experiências diferentes: aprendi muito sobre ciência no laboratório, conheci pessoas e lugares incríveis, frequentei conferências enriquecedores, superei os limites do meu corpo com a corrida, lidei com a saudade, sofri com o frio, aprendi a cozinhar e cuidar da casa, reimaginei meu futuro como médica, e por aí vai. Contudo, apesar da inegável relevância dos acontecimentos supracitados, eu considero tudo isso uma parte relativamente pequena desse presente lindo que tem sido o intercâmbio. Não que a importância disso tudo seja menor, mas qual seria o real valor dessas vivências se resultassem em tristeza? Este seria o blog mais entediante do mundo porque, se cada post reunisse o que eu mais senti no fundo do meu coração a cada semana, todos os textos seriam praticamente iguais: eu falaria de 40 modos diferentes como essa experiência me faz inenarravelmente feliz. Como cada dia eu acordo sorrindo com a luz dourada da manhã entrando pela janela do meu quartinho. Como é simples e maravilhosa a sensação do ar, quente ou frio a depender da estação, enchendo meus pulmões na caminhada diária até a Harvard University. Como eu nunca estive tão inspirada, tão em contato com Deus e com o que há de melhor em mim. Como eu mudo meu caminho no final de várias tardes só para apreciar o horizonte pintar-se de um rosa apaixonante enquanto o sol se põe. Como eu me sinto segura e livre, de um jeito que nunca imaginei que fosse possível. Como o céu dessa cidade parece tão amplo e infinito, me fazendo querer voar cada vez mais…

2

Não que eu não fosse feliz antes, de modo algum. Sempre fui e sempre serei. Mas esse ano de 2017 em Boston, ah… é mágico, é especial. E confesso que já estava há semanas tentando colocar em palavras toda essa ressignificação da palavra felicidade para mim quando algo aconteceu.

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No final da tarde de uma quinta-feira de setembro, enquanto cruzava a Harvard Bridge, ponte que une as cidades de Boston e Cambridge, encontrei uma lâmpada. Como reza a lenda, esfreguei-a e de lá saiu um gênio. Porém, ao invés de me oferecer três desejos como seria esperado, o gênio disse que eu poderia escolher entre uma máquina do tempo e uma máquina de teletransporte. Pensei em todos os momentos lindos do meu passado que poderia reviver com a primeira. Pensei em todos os lugares maravilhosos desse mundo aos quais eu poderia me teletransportar com a segunda.

O que você escolheria?

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Olhei para o sol se pondo soberano nas águas do rio, e não tive dúvidas. Arremessei a lâmpada com o gênio o mais longe que pude no Charles River, e continuei minha caminhada muito contente: eu já estava exatamente no lugar e no tempo certos. Esse é o meu real significado pessoal de felicidade.

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Até a próxima!

Carol Martines

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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“Claro que está acontecendo dentro de sua cabeça, Harry, mas por que isso deveria significar que não é real?” (Alvo Dumbledore em Harry Potter e as Relíquias da Morte – J.K. Rowling).