Somente o necessário

Olá mais uma vez, diretamente dos últimos dias de verão em Boston!

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Como você bem sabe, os Estados Unidos da América são conhecidos pelo elevadíssimo consumismo. Com uma mentalidade na qual excesso é sinônimo de sucesso, um americano consome em média uma quantidade de produtos que somada é maior do que o seu próprio peso. Lembro-me de entrar em choque quando, em uma aula de Geografia da Marcia Abdo, aprendi que, se o mundo todo consumisse como os EUA, precisaríamos de 4,5 Terras para não entrar em colapso. E eu poderia ficar horas e horas te dando mais dados que comprovam o estilo de vida nada sustentável dos americanos, mas creio que você já entendeu o meu ponto.

Diante disso, para mim é realmente uma surpresa estar escrevendo um post com um tema exatamente oposto de tudo isso. Antes de embarcar para Boston, eu fiz uma lista de possíveis assuntos para o blog, e o que você lerá a seguir definitivamente não estava entre eles. Por mais paradoxal que possa parecer, hoje quero te contar como aprendi a viver com menos (bem menos) no meu ano de intercâmbio.

Primeiramente, quero que você responda quatro perguntas mentalmente: quantas camisetas você tem? (Muitas, dá preguiça de contar.) Quantos pares de sapatos? (Vários.) Qual foi a última vez que você realmente usou uma peça de roupa até ter que aposentá-la? (Não me lembro.) Qual foi a última vez que você comprou algo que você definitivamente não precisava? (Recentemente.) Entre parênteses, estão as minhas respostas na época em que eu morava em São Paulo, que provavelmente são semelhantes às suas. Por mais que não sejamos norte-americanos, também temos um padrão de consumo muito mais elevado do que precisamos.

Pois bem, antes de me mudar para os Estados Unidos, encontrei de cara uma situação que desafiava o meu consumismo e a minha vaidade, por tabela: como fazer toda a minha vida caber em apenas duas malas? Lembre-se que não eram apenas roupas de verão e de inverno (que ocupam MUITO espaço), mas também sapatos, toalhas, roupas de cama, bolsas, utensílios de cozinha, livros, aparelhos eletrônicos… enfim, tudo! Na minha situação, muitos evitariam esse problema comprando tais coisas diretamente nos EUA, mas eu preferi levar tudo de casa tanto para economizar quanto para ser capaz de trazer meus bens de volta ao Brasil nas mesmas duas malas quando eu retornasse do intercâmbio. E ainda havia mais um ponto a considerar: o quarto que me aguardava em Boston seria pequeno, e definitivamente não acomodaria muito mais do que o necessário.

A mala abarrotada e meu cachorrinho querendo entrar nela também

A mala abarrotada e meu cachorrinho querendo entrar nela também

Inicialmente, eu queria levar tudo, o que obviamente se mostrou impraticável. Portanto, tive que me contentar com menos: 2 toalhas, 2 roupas de cama, 4 calças, 2 sapatilhas, 10 pares de meias, 12 camisetas, 2 roupas mais arrumadinhas para algum evento, e daí em diante. Quando finalmente cheguei em Boston, pensei que teria sérias dificuldades para me adaptar a esse novo ritmo. Entretanto, para a minha agradável surpresa, foi fácil até demais. Quanto menos coisas você tem, é muito mais simples escolher o que usar (fim do dilema “com que roupa eu vou?”) e também manter tudo em ordem. De fato, tenho que lavar roupas com uma certa frequência, mas isso não mata ninguém. Várias amigas que nunca fizeram intercâmbio me perguntam: “como você vive com tão poucas peças de roupa?”. Acredite, não vivo como se estivesse na Semana de Moda de Paris, mas vivo bem demais. E, naturalmente, se uma calça ou um casaco dão sinais de que devem ser aposentados, eu compro outro, sem problemas. A questão não é deixar de consumir, e sim consumir com mais responsabilidade, mais consciência das minhas reais necessidades.

Demais aspectos de morar sozinha também me mostraram uma nova perspectiva e me ensinaram muito no quesito consumo. Por exemplo, aqui em Boston, divido um apartamento com outros dois meninos, e somos responsáveis por todos os afazeres domésticos, inclusive levar o lixo da casa todos os dias para a área de coleta fora do prédio. Quando você vê a quantidade de lixo que produz e tem que carregá-lo por dois lances de escada e mais 200 metros no meio de uma nevasca, você definitivamente pensa duas vezes antes de descartar algo.

Outro fator que influencia enormemente é ter que cuidar do próprio orçamento. Morar em Boston é muito caro, sendo a cidade com o quarto maior custo de vida dos EUA, atrás somente de Nova York, São Francisco e Honolulu. Logo, é essencial ter prioridades muito bem estabelecidas na hora de gastar meus limitados dólares: em primeiro lugar, as coisas indispensáveis, como aluguel, luz, água e comida; depois, gastos com momentos de lazer e cultura; e por último, bens materiais. A consequência natural disso é uma diminuição do consumo.

Óbvia e infelizmente, do lado de fora, tudo continua igual nos Estados Unidos: lojas sempre lotadas, sacolas de compras abarrotadas, ruas repletas de carros que consomem absurdos de combustível, desperdícios revoltantes de comida e energia. A todo vapor, toda hora, tudo é motivo para comprar. Olha o novo iPhone! Você ainda não tem? Isso move o país.

Times Square, o epicentro da cultura do consumismo

Times Square, o epicentro da cultura do consumismo

De todos os muitos aprendizados do intercâmbio, esse é um que eu realmente espero levar de volta para o Brasil. Não digo que é preciso passar vontade, apenas ficar atento aos excessos. O que você de fato precisa? O que você apenas quer? Pense nisso você também!

Até a próxima!

Carol Martines

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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“A simplicidade é o último grau de sofisticação.” (Leonardo Da Vinci)