Do Band a Harvard: Sacrifício

Oi, tudo bem por aí?

Hoje, vamos conversar sobre um tema para o qual eu não sei ao certo qual é a melhor abordagem. Não gosto muito desse assunto, e já me debati internamente inúmeras vezes sobre se deveria ou não o tornar um post. Contudo, uma vez que é uma parte muito grande da minha rotina no laboratório de Harvard e do mundo da ciência em geral, me vejo na obrigação de não omitir esse tema. Vamos falar sobre o meu maior dilema ético de 2017: o uso de animais em pesquisa científica.

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Já te expliquei anteriormente do que consiste a minha pesquisa no laboratório do Dr. Brain na Harvard School of Public Health, mas recapitulemos de modo bem simplificado: usando mini pedacinhos de pulmões de ratinhos, eu testo diferentes concentrações de diversas substâncias químicas a fim de estimar o que seria uma dose segura para ser inalada por seres humanos sem danos consideráveis. Entretanto, essa é só uma parte do meu trabalho. Além desse experimento, que eu repito várias e várias vezes, tenho uma outra tarefa no laboratório, que é concomitantemente a atividade mais interessante e triste que eu realizo. Esses pedacinhos de pulmões de ratos supracitados não aparecem prontos na minha bancada: cabe a mim obtê-los. Para isso, eu preciso realizar cirurgias nos animais, que têm apenas 30 gramas, então os procedimentos são assaz delicados. Bem resumidamente, eu abro a traqueia do rato, insiro um cano milimétrico pela abertura e, por meio desse cano, introduzo nos pulmões um gel de Agarose que se solidificará em alguns minutos. Depois, removo os pulmões e os entrego para uma parceira de outra laboratório, que os fatiará em centenas de pedaços.

Os ratinhos com os quais eu trabalho, de cerca de 30 gramas.

Os ratinhos com os quais eu trabalho, de cerca de 30 gramas

Eu tenho paixão por operar, inclusive quero ser cirurgiã no futuro, então eu me sinto muito bem realizando tais técnicas. Essa é a parte boa. O lado ruim é que, para utilizar os pulmões em meus experimentos, eu preciso retirá-los dos ratinhos, e, logicamente, estes não vivem sem respirar. Acho que você já entendeu, não é mesmo? Por mais triste que seja, eu preciso sacrificar os ratos. Em comparação com os outros pesquisadores do meu laboratório, que usam em média 15 roedores por semana, minha pesquisa exige poucos ratos, cerca de 6 por mês, e eu agradeço imensamente por isso. Contudo, recentemente, surgiram algumas modificações, e eu precisei usar os pulmões de 10 ratos em menos de uma semana, o que foi o gatilho para eu finalmente decidir escrever sobre esse assunto. Pois é, não posso negar que isso me abala.

Os pulmões dos ratinhos, insuflados por um gel, prontos para serem fatiados em centenas de pedaços

Os pulmões dos ratinhos, insuflados por um gel, prontos para serem fatiados em centenas de pedaços

Eu estava ciente de que teria que matar animais quando escolhi esse laboratório. Passei por um longo treinamento no início do ano sobre as formas de sacrifício e os cuidados para que os ratos sofram o mínimo possível. Entretanto, é bem mais difícil do que eu supusera. Eu escolhi fazer medicina porque tenho adoração pela vida, por curar e salvar – como posso, pelo contrário, tirar uma vida, nem que seja de um rato? Me parece completamente contraditório.

Na primeira vez que vi um sacrifício, logo nos primeiros dias em Harvard, fiquei mal. De verdade. Foi tão rápido, tão injusto. O ratinho estava profundamente anestesiado, provavelmente não sentiu nada. Mas aquilo esmagou meu coração. Por dentro, os ratos são extremamente parecidos com os seres humanos: praticamente os mesmos órgãos na mesma localização, só que em miniatura. Pensei no meu cachorro, pensei em Deus, pensei como eu me sentiria se eu fosse o rato. Pensei em tanta coisa… enquanto isso, o meu profissionalismo inexistia e a minha expressão era de espanto absoluto.

Ratinho com 3 dias de vida (não se preocupe, a mãe não o está matando!)

Ratinho com 3 dias de vida (não se preocupe, a mãe não o está matando!)

Algumas semanas depois, chegou a minha vez. No início, apenas manipulá-los já é uma Odisseia. Os ratinhos são muito sagazes, e estão loucos para escapar. E obviamente, eles nunca tentam fugir do meu experimento quando eu estou sozinha e tranquila no laboratório. Imagina, de modo algum. Os roedores esperam entrar alguém bem importante no lab, seja o meu chefe Dr. Brain ou algum supervisor, para pular graciosamente das minhas mãos e aventurar-se pelo chão cheio de lugares propícios para um esconderijo. E quando isso acontece, meu amigo, me jogo no chão também até recuperar o fugitivo, o que pode ser cômico para quem estiver assistindo, mas para mim é um desespero só.

Depois que o rato está devidamente controlado, vem uma parte ainda mais difícil, o sacrifício em si. No começo, eu não sabia lidar com isso. Eu dava nomes (Mickey, Pink, Cérebro, e por aí vai), ficava observando o comportamento deles (cada animal, por mais que seja um ratinho de laboratório, é muito diferente um do outro em termos de “personalidade”), fazia uma oração antes de trabalhar com cada um… Enfim, eu os humanizava mais do que deveria. Hoje em dia, porém, creio que consigo lidar com isso de uma forma um pouco menos emocional.

Esses são ratos um pouco maiores, com cerca de 300 gramas, mas eu normalmente não trabalho com eles

Esses são ratos um pouco maiores, com cerca de 300 gramas, mas eu normalmente não trabalho com eles

Certa vez, em um congresso em Washington, perguntei a uma renomada pesquisadora inglesa, que já deve ter sacrificado milhares de animais ao longo da sua carreira, se algum dia era possível se acostumar com aquilo. Ela sorriu, e disse com seu sotaque britânico inconfundível: “Claro que sim.” Eu só tenho 7 meses de experiência, mas sou obrigada a discordar: duvido que algum dia eu me acostume com provocar a morte, sendo tão apegada à vida. Como eu consigo dormir à noite, então? Como não me sinto horrivelmente culpada por matar tantos roedores? Bem, há três respostas para essas perguntas.

Primeiramente,  faço de todo o possível para que os animais não sofram, então uso muita anestesia, bem mais do que seria necessário, antes de matá-los com injeção letal e/ou exsanguinação. Em segundo lugar, me cobro muito para fazer tudo perfeitamente o maior número de vezes possível. Nem sempre eu consigo, mas, se eu erro, o rato e seus pulmões vão para o lixo, e isso é ainda mais triste. Por fim, eu simplesmente foco minha mente no propósito daquele sacrifício: quantas vidas humanas poderão ser salvas pelas descobertas que realizamos no laboratório, quantas doenças pulmonares poderão ser evitadas por causa dos nossos estudos! E então, quando eu resgato esse ideal do experimento, que nada mais é do que o meu ideal de vida, tudo fica mais suportável, porque sei que os sacrifícios diários não são em vão. Não é fácil, nunca será fácil, mas esses animais já me ensinaram muito mais do que se pode imaginar.

Prometo um tema mais leve semana que vem! Até lá!

Carol Martines

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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“Quem nunca errou nunca experimentou nada novo.” (Albert Einstein)