Do Band a Harvard: Sacrifício

Oi, tudo bem por aí?

Hoje, vamos conversar sobre um tema para o qual eu não sei ao certo qual é a melhor abordagem. Não gosto muito desse assunto, e já me debati internamente inúmeras vezes sobre se deveria ou não o tornar um post. Contudo, uma vez que é uma parte muito grande da minha rotina no laboratório de Harvard e do mundo da ciência em geral, me vejo na obrigação de não omitir esse tema. Vamos falar sobre o meu maior dilema ético de 2017: o uso de animais em pesquisa científica.

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Já te expliquei anteriormente do que consiste a minha pesquisa no laboratório do Dr. Brain na Harvard School of Public Health, mas recapitulemos de modo bem simplificado: usando mini pedacinhos de pulmões de ratinhos, eu testo diferentes concentrações de diversas substâncias químicas a fim de estimar o que seria uma dose segura para ser inalada por seres humanos sem danos consideráveis. Entretanto, essa é só uma parte do meu trabalho. Além desse experimento, que eu repito várias e várias vezes, tenho uma outra tarefa no laboratório, que é concomitantemente a atividade mais interessante e triste que eu realizo. Esses pedacinhos de pulmões de ratos supracitados não aparecem prontos na minha bancada: cabe a mim obtê-los. Para isso, eu preciso realizar cirurgias nos animais, que têm apenas 30 gramas, então os procedimentos são assaz delicados. Bem resumidamente, eu abro a traqueia do rato, insiro um cano milimétrico pela abertura e, por meio desse cano, introduzo nos pulmões um gel de Agarose que se solidificará em alguns minutos. Depois, removo os pulmões e os entrego para uma parceira de outra laboratório, que os fatiará em centenas de pedaços.

Os ratinhos com os quais eu trabalho, de cerca de 30 gramas.

Os ratinhos com os quais eu trabalho, de cerca de 30 gramas

Eu tenho paixão por operar, inclusive quero ser cirurgiã no futuro, então eu me sinto muito bem realizando tais técnicas. Essa é a parte boa. O lado ruim é que, para utilizar os pulmões em meus experimentos, eu preciso retirá-los dos ratinhos, e, logicamente, estes não vivem sem respirar. Acho que você já entendeu, não é mesmo? Por mais triste que seja, eu preciso sacrificar os ratos. Em comparação com os outros pesquisadores do meu laboratório, que usam em média 15 roedores por semana, minha pesquisa exige poucos ratos, cerca de 6 por mês, e eu agradeço imensamente por isso. Contudo, recentemente, surgiram algumas modificações, e eu precisei usar os pulmões de 10 ratos em menos de uma semana, o que foi o gatilho para eu finalmente decidir escrever sobre esse assunto. Pois é, não posso negar que isso me abala.

Os pulmões dos ratinhos, insuflados por um gel, prontos para serem fatiados em centenas de pedaços

Os pulmões dos ratinhos, insuflados por um gel, prontos para serem fatiados em centenas de pedaços

Eu estava ciente de que teria que matar animais quando escolhi esse laboratório. Passei por um longo treinamento no início do ano sobre as formas de sacrifício e os cuidados para que os ratos sofram o mínimo possível. Entretanto, é bem mais difícil do que eu supusera. Eu escolhi fazer medicina porque tenho adoração pela vida, por curar e salvar – como posso, pelo contrário, tirar uma vida, nem que seja de um rato? Me parece completamente contraditório.

Na primeira vez que vi um sacrifício, logo nos primeiros dias em Harvard, fiquei mal. De verdade. Foi tão rápido, tão injusto. O ratinho estava profundamente anestesiado, provavelmente não sentiu nada. Mas aquilo esmagou meu coração. Por dentro, os ratos são extremamente parecidos com os seres humanos: praticamente os mesmos órgãos na mesma localização, só que em miniatura. Pensei no meu cachorro, pensei em Deus, pensei como eu me sentiria se eu fosse o rato. Pensei em tanta coisa… enquanto isso, o meu profissionalismo inexistia e a minha expressão era de espanto absoluto.

Ratinho com 3 dias de vida (não se preocupe, a mãe não o está matando!)

Ratinho com 3 dias de vida (não se preocupe, a mãe não o está matando!)

Algumas semanas depois, chegou a minha vez. No início, apenas manipulá-los já é uma Odisseia. Os ratinhos são muito sagazes, e estão loucos para escapar. E obviamente, eles nunca tentam fugir do meu experimento quando eu estou sozinha e tranquila no laboratório. Imagina, de modo algum. Os roedores esperam entrar alguém bem importante no lab, seja o meu chefe Dr. Brain ou algum supervisor, para pular graciosamente das minhas mãos e aventurar-se pelo chão cheio de lugares propícios para um esconderijo. E quando isso acontece, meu amigo, me jogo no chão também até recuperar o fugitivo, o que pode ser cômico para quem estiver assistindo, mas para mim é um desespero só.

Depois que o rato está devidamente controlado, vem uma parte ainda mais difícil, o sacrifício em si. No começo, eu não sabia lidar com isso. Eu dava nomes (Mickey, Pink, Cérebro, e por aí vai), ficava observando o comportamento deles (cada animal, por mais que seja um ratinho de laboratório, é muito diferente um do outro em termos de “personalidade”), fazia uma oração antes de trabalhar com cada um… Enfim, eu os humanizava mais do que deveria. Hoje em dia, porém, creio que consigo lidar com isso de uma forma um pouco menos emocional.

Esses são ratos um pouco maiores, com cerca de 300 gramas, mas eu normalmente não trabalho com eles

Esses são ratos um pouco maiores, com cerca de 300 gramas, mas eu normalmente não trabalho com eles

Certa vez, em um congresso em Washington, perguntei a uma renomada pesquisadora inglesa, que já deve ter sacrificado milhares de animais ao longo da sua carreira, se algum dia era possível se acostumar com aquilo. Ela sorriu, e disse com seu sotaque britânico inconfundível: “Claro que sim.” Eu só tenho 7 meses de experiência, mas sou obrigada a discordar: duvido que algum dia eu me acostume com provocar a morte, sendo tão apegada à vida. Como eu consigo dormir à noite, então? Como não me sinto horrivelmente culpada por matar tantos roedores? Bem, há três respostas para essas perguntas.

Primeiramente,  faço de todo o possível para que os animais não sofram, então uso muita anestesia, bem mais do que seria necessário, antes de matá-los com injeção letal e/ou exsanguinação. Em segundo lugar, me cobro muito para fazer tudo perfeitamente o maior número de vezes possível. Nem sempre eu consigo, mas, se eu erro, o rato e seus pulmões vão para o lixo, e isso é ainda mais triste. Por fim, eu simplesmente foco minha mente no propósito daquele sacrifício: quantas vidas humanas poderão ser salvas pelas descobertas que realizamos no laboratório, quantas doenças pulmonares poderão ser evitadas por causa dos nossos estudos! E então, quando eu resgato esse ideal do experimento, que nada mais é do que o meu ideal de vida, tudo fica mais suportável, porque sei que os sacrifícios diários não são em vão. Não é fácil, nunca será fácil, mas esses animais já me ensinaram muito mais do que se pode imaginar.

Prometo um tema mais leve semana que vem! Até lá!

Carol Martines

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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“Quem nunca errou nunca experimentou nada novo.” (Albert Einstein)

Do Band a Harvard: Minha saudade

Bom dia.

Hoje eu acordei no meu quarto branco e rosa em São Paulo. O cheiro de pão francês fresco estava no ar, assim como o barulho das buzinas da 23 de maio e a música de entrada do Globo Rural na TV da sala. Era domingo. Minha mãe estava colocando a mesa do café. Meu pai, com seu pijama xadrez, certamente estava com os olhos vidrados no seu programa favorito. Minha irmã ainda estava sonhando, e sem dúvidas dormiria até perto do meio dia, quando minha mãe a acordaria para logo sairmos para o almoço de domingo na casa da Nonna. Mas ainda era cedo. Fechei os olhos de novo.

Hoje eu acordei no litoral. O ar quente, o som inconfundível do quebrar das ondas e as conversas animadas da família logo cedo não deixavam dúvidas: era o auge do verão, alguma data entre o Natal e o Ano Novo. Estava todo mundo ali. Os primos haviam jogado Banco Imobiliário ou alguma brincadeira nova de mímica até bem tarde na madrugada anterior, então me permiti virar para o outro lado e dormir mais um pouco.

Hoje eu acordei na terça-feira mais mundana possível. Estava chovendo de leve lá fora na Cidade da Garoa, e o dia seria bem intenso na faculdade, com aulas de Clínica Médica a manhã e a tarde inteiras. Porém terça sempre foi o “nosso dia”, nosso respiro no meio da semana. Eu jantaria com ele à noite, depois da aula. Que motivo melhor eu precisava para acordar feliz? Mas ainda não. Mais 5 minutos antes do despertador tocar. Só mais um pouquinho.

Hoje eu acordei e estava em todos os lugares, mas só estava aqui. Em Boston, em “casa”.

“Saudade” sempre foi a minha palavra favorita. Em parte porque ela não existe em muitos outros idiomas além do Português, mas principalmente por ser tão sucinta e precisa, dizendo tanto em tão poucas letras.

Sim, eu estou com saudades. Muitas. Longe de casa há mais de uma semana, há mais de sete meses. Pensei que fosse mais difícil no começo e depois melhorasse, mas eu estava enganada. O início é repleto de saudades agudas, desesperadas, até meio infantis. Uma dor em pontadas. Depois, meu amigo, a saudade cronifica-se… Você não chora, não se descabela, mas ela está sempre lá. Uma dor em pressão. Sutil, mas permanente.

Se você me desse uma passagem de volta para o Brasil agora, eu entraria no avião? Certamente não. Morro de saudades, mas gosto demais de Boston, e entendo a importância da experiência de um ano de intercâmbio. Tenho muito a aprender aqui ainda. Entretanto, se você aumentasse a minha estadia para dois anos… ah, aí seria demais. Não, obrigada.

Uma coisa é certa: de todas as lições desse ano em Harvard, que não foram poucas, a principal já foi aprendida. Eu sempre soubesse, na verdade, mas só uma experiência dessas é capaz de escancarar isso aos nossos olhos: não há nada melhor no mundo do que amar e ser amada.

Saudades…

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Mais um amanhecer em Boston

Até a próxima.

Carol Martines

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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“A saudade é o que faz as coisas pararem no tempo.” (Mário Quintana)

O que você quer ser quando crescer?

Oi, como estão as coisas por aí?

Estamos entrando agora na segunda quinzena de agosto, período em que, se não me falha a memória, ocorrem as inscrições para a FUVEST. Diante disso, hoje queria dividir com você uma história que se passou 5 anos atrás, quando era a minha vez de realizar a escolha da carreira. Espero poder ajudar um pouquinho, principalmente se você estiver indeciso ou inseguro.

Apesar de, atualmente, eu ser extremamente satisfeita por ter escolhido cursar medicina, nem sempre foi assim. Desde muito pequena, ao ser questionada com aquela clássica pergunta dos tios em festas de fim de ano “O que você quer ser quando crescer?”, eu dizia que queria ser médica, sem rodeios. Contudo, hoje tenho percepção de que eu só respondia isso porque metade da minha família trabalha na área da saúde. Não era uma decisão sobre a qual eu havia realmente refletido, e sim uma resposta fácil que deixava todos os adultos orgulhosos.

Segui desse modo até o segundo ano do Ensino Médio, quando eu comecei a de fato me questionar sobre o que eu queria para o meu futuro. Foi um momento em que o mundo se abriu diante dos meus olhos e, de repente, eu me vi cercada de muitas opções tentadoras: pensei em cursar letras (completamente influenciada pela maravilhosa equipe de Português do Band), depois engenharia, então relações internacionais, aí direito, ou administração, quem sabe jornalismo? Só sei que fiquei no meio desse turbilhão de carreiras por mais de um ano. Frequentei palestras, fiz testes vocacionais, conversei com profissionais de todas as áreas… e cada vez ficava mais difícil decidir! Eu queria mesmo ter umas 7 vidas para conseguir me formar em todos esses cursos, mas isso evidentemente não era possível, e as inscrições para os vestibulares estavam cada vez mais próximas.

Minha turma do segundo ano do Band

Minha turma do segundo ano do Band

Sendo bem sincera, foi um período conturbado. Sempre fui um pouco decidofóbica para tudo, desde escolher qual prato eu pediria em um restaurante a qual boneca eu ganharia de Natal. Imagine então como foi decidir o que eu seria “para o resto da minha vida”! E, no topo de tudo isso, eu ainda precisava continuar estudando, mesmo sem propósito definido.

Resultado: começou o período de inscrições para os vestibulares e eu ainda não tinha a mais vaga ideia do que eu queria. Acabei me “decidindo” por prestar medicina, direito e engenharia, uma em cada lugar: UNIFESP, FGV, UFRJ, UFSCar. Parece piada, mas não é. Contudo, eu só podia prestar uma dessas na FUVEST, e meu grande sonho, como a maioria dos bandeirantinos, era estudar na USP.

O sonho de entrar na USP (e aquele abraço carinhoso na Professora Eneida)

O sonho de entrar na USP (e aquele abraço carinhoso na Professora Eneida)

Então, em uma tarde de agosto da qual eu me lembro como se fosse ontem, estávamos eu e minha mãe fazendo a minha inscrição para a FUVEST 2013. Começamos com aquela parte de dados pessoais, endereço, telefone. Até aí tudo bem, essas respostas eu sabia. Eis que chega o temido campo da escolha de carreira. Olho para minha mãe, olho para a tela do computador, olho para minha mãe de novo. Ela e meu pai obviamente participaram de tudo e sofreram tanto quanto eu durante a tomada dessa decisão, mas, a esse ponto, eu já esgotara completamente a paciência deles. Eu continuava paralisada. Então minha mãe olhou bem seriamente para mim, e disse: “Ah Carol, põe medicina e não me enche o saco!”. Nem pensei, só conclui a inscrição, desliguei o computador e não refleti mais sobre isso. (Até hoje, eu e minha mãe damos risada desse episódio, sempre dizemos que foi a bronca mais bizarra que ela já me deu!)

Avançando alguns meses no tempo, fui aprovada em todos os vestibulares que eu prestei, e aí tive que decidir definitivamente, o que se mostrou muito menos complicado. Optei por cursar medicina na USP, pelo simples fato de que, se eu não gostasse da faculdade, era muito mais fácil tentar passar em direito ou engenharia de novo do que em medicina.

Comemorando a aprovação com o querido Professor Heinz

Comemorando a aprovação com o querido Professor Heinz

Comecei o curso de coração e mente abertos, e o final dessa história não poderia ser mais feliz: me apaixonei perdidamente por medicina, e agora tenho certeza absoluta de que fiz a escolha certa.

Queria fazer mais algumas observações que eu gostaria que alguém me tivesse dito naquela época. Eu me pressionava muito com o fato de ter que “fazer uma escolha para o resto da minha vida”. Meu amigo, isso não existe: é uma carreira, não uma tatuagem. Sempre é possível tomar outro rumo, e ser ainda mais feliz por isso. Tenho vários amigos que fazem medicina comigo que já são formados em direito, engenharia, física, medicina veterinária. E o oposto também não é incomum: médicos que decidem mudar de profissão. Pessoas que se formaram, começaram a trabalhar e perceberam que queriam algo diferente. Eu morria de medo disso aos 17 anos, queria realizar a escolha certa logo de primeira, e tive a sorte, creio eu, de o ter conseguido, mas se não tivesse, qual o problema? O fato é que tudo se ajeita no final das contas. Na época, essa dúvida me consumia e parecia o fim do mundo, mas hoje sei que não há nada mais normal do que não saber se você quer ser médico se você nunca estudou medicina, não é mesmo?

Um dos primeiros dias de aula na USP

Um dos primeiros dias de aula na USP

E, por mais que seja improvável no meu caso, se um dia a medicina não me agradar mais, não terei problemas em escolher outro rumo. De qualquer modo, se me questionarem hoje em uma festa de família o que eu quero ser quando crescer, a resposta será sempre a mesma: quero é ser feliz! Todo o resto encaixa-se, mais cedo ou mais tarde.

Tudo bem não ter todas as respostas… é a vida que ainda não fez todas perguntas!

Até breve!

Carol Martines

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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“Nada é mais difícil e, portanto, tão precioso, do que ser capaz de decidir.”. (Napoleão Bonaparte)

 

 

Meia maratona

Oi, que bom ter você aqui de novo!

Desde o início do blog, eu sempre acreditei que o principal intuito de compartilhar meu ano de intercâmbio com você é te inspirar a sonhar mais alto, não somente no campo acadêmico, mas também em outros aspectos. Dito isso, e levando em conta o fato de que esse é o 21o post do ano, quero dividir com você hoje o sonho que eu realizei mais recentemente: correr uma meia maratona, o equivalente a 21 quilômetros.

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Já fazia alguns anos que eu nutria essa vontade, mas completar uma meia maratona não é algo que se alcance do dia para a noite: é preciso planejamento, tempo e muito treino. Fui postergando, “quem sabe depois dos 30?”, eu pensava. Até que começou 2017, e eu cumpri meu religioso ritual pessoal de me propor três desafios para o ano que acabava de se iniciar, e um deles era completar uma prova de 21 quilômetros de corrida. Uau. Eu ofegava só de pensar.

Sendo muito sincera, quando me fiz essa proposta, tenho que confessar que, em parte, esse desafio estava muito relacionado ao fato de que eu moraria um ano no país do fast food, e estava morrendo de medo de voltar redonda dos Estados Unidos. Mas outra parcela bem significativa advinha do fato de que eu sempre fui muito competitiva, e queria um objetivo esportivo para esse período de intercâmbio. Logo, uma meia maratona parecia cumprir perfeitamente esses dois objetivos.

Algumas semanas após minha chegada em Boston, procurei por uma prova de corrida na região da Nova Inglaterra que fosse ocorrer durante o verão, para que eu tivesse tempo suficiente para treinar. Escolhi a Old Port Half Marathon, que seria no dia 8 de julho em Portland, Maine, a duas horas de ônibus de Boston. Portanto, eu teria cerca de 4 meses para me preparar. Veja bem, eu nunca fui sedentária e sempre gostei de correr, mas apenas distâncias razoáveis como 5, 8, até 10 quilômetros. 21 me parecia um infinito – e esse gostinho de impossível só me estimulou mais.

Assim, comecei minha jornada de 4 meses de treinos rumo ao meu objetivo. Durante esse período, eu corria 3 vezes por semana e realizava musculação mais 3, sempre orientada por um grande amigo meu que também já fez intercâmbio em Harvard em 2015, ano no qual ele treinou e completou uma maratona INTEIRA, ou seja, 42 quilômetros.

O primeiro treino no começo de fevereiro: toda agasalhada

O primeiro treino no começo de fevereiro: toda agasalhada

Todo esse processo de 4 meses mostrou-se muito mais marcante do que a prova em si. Foram concomitantemente intrigantes e esclarecedoras as coisas que eu aprendi comigo mesma nesses meses de treinos. E acredito que o ponto mais importante que eu quero dividir com você é que o treino é muito mais mental do que físico, por mais louco que isso possa soar. Veja bem, eu acredito que qualquer pessoa aos seus 20 e poucos anos com um condicionamento físico razoável seja capaz de correr 21 quilômetros. O corpo é perfeitamente capaz, mas a mente não. A distância assusta, e o seu cérebro boicota seus músculos, fazendo-os acreditar que não conseguem ir adiante quando, na verdade, conseguem correr muito mais. Essa foi a minha principal lição: a mente desiste antes do corpo. E, quanto mais eu treinava, mais o meu corpo ensinava para a minha mente que eu era capaz daquela loucura, sim. Cada treino, cada superação me fazia mais feliz e confiante. E é óbvio que o preparo físico é essencial, mas meu ponto é que a parte psicológica é tão importante quanto.

Correndo mesmo com neve

Correndo mesmo com neve

Nas primeiras semanas de treinos, meu objetivo era simplesmente completar a prova, sem pensar no relógio. Contudo, conforme eu fui correndo distâncias cada vez mais longas fazendo cada vez menos esforço, eu tive certeza que completaria a prova, e comecei a sonhar mais alto: minha meta agora seria correr o percurso inteiro com uma velocidade média de 10km/h, cruzando a linha de chegada em pouco mais do que duas horas.

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Enfim, chegou o tão esperado dia 8 de julho. Não dormi praticamente nada na noite anterior, em parte devido ao nervosismo, mas majoritariamente porque o maravilhoso quarto onde eu fiquei hospedada tinha um colchão de ar furado, não tinha porta e os dois gatos da casa não saíam de lá por nada. Perrengues à parte, eu estava muito feliz.

Pontualmente às 7 horas da manhã, foi dado o tiro de largada, e eu comecei a correr com o coração saindo pela boca. Mas logo me acalmei: a energia e o apoio que as pessoas da pequena cidade de Portland transmitiam para os corredores era reconfortante. Cartazes com mensagens de incentivo, sinos, pessoas acenando… O nervosismo deu lugar à emoção, e eu tive que segurar o meu choro fácil logo no primeiro quilômetro.

Foi dada a largada!

Foi dada a largada!

A parte poética do percurso resumiu-se a esse comecinho, porque logo depois a situação ficou bem complicada. Os primeiros 7 quilômetros eram só, apenas, única e exclusivamente compostos por subidas. E nada daquelas subidinhas amigáveis às quais eu estava acostumada em Boston: eram ladeiras e mais ladeiras como as do Sumaré, bairro de São Paulo. Como se isso não fosse suficiente, contrariando a previsão do tempo, um sol estonteante e uma temperatura de 32 graus me acompanharam desde os primeiros metros, sem nenhuma sombrinha no meio do caminho. Aí sim, eu quis chorar de verdade, mas reprimi as lágrimas pela segunda vez no dia.

Do quilômetro 7 ao 15 eu consegui entrar em um ritmo bem agradável,  apreciar a paisagem e realmente sentir o prazer da corrida. Entretanto, mal sabia eu que essa paz interior estava com os metros contados: logo que começou o quilômetro 16, o caos instaurou-se. Faltavam apenas 5 quilômetros para o fim, então metade dos corredores começou a acelerar loucamente a fim de melhorar seu tempo, e outra metade começou a parar ou andar, seja por câimbras ou por exaustão. E eu nessa história toda? Perdi completamente a referência. Parar não era uma opção, mas eu também não podia acelerar, pois sabia que precisava guardar energia para as últimas ladeiras do trajeto. Eu precisava apenas manter a velocidade constante. Mas pense um pouco, você já tentou manter seu ritmo de corrida enquanto há pessoas muito mais rápidas e outras muito mais lentas do que você? Pois é, isso está longe de ser uma tarefa fácil. Esse esforço novo e imprevisto por uma caloura de meia maratona me desconcentrou completamente, e minha mente começou a tentar me boicotar e me fazer parar. “Onde eu estava com a cabeça quando me inscrevi para essa porcaria de corrida?” Desliguei a música que saía dos fones de ouvido, uma vez que não estava ajudando mais a me distrair, e comecei a repetir ininterruptamente dentro da minha cabeça: “Você não vai parar. Você não vai parar.”

Acredite se quiser, eu corri os últimos 5 quilômetros do percurso com essa única frase em mente. Tortura? Na percepção de alguns, talvez. Para mim, foi uma espécie de meditação à base de adrenalina. O importante é que… funcionou! Depois de 21 quilômetros, usei minha última gota de energia para cruzar a linha de chegada, pegar a medalha e encostar meu corpo na parede com sombra mais próxima. Nem sequer sentei, era esforço demais. Olhei para a tela do celular que monitorava minha corrida, marcando 21.1 quilômetros percorridos a exatamente 10.0 km/h. Eu tinha conseguido. Eu completara uma meia maratona. Uau! Uma onda de alegria inexplicável tomou conta de mim. Meus olhos queriam chorar desesperadamente pela terceira vez, mas parecia não haver água suficiente para tal.

Logo depois da linha de chegada

Logo depois da linha de chegada

Nesse exato momento, meu telefone tocou. Era uma ligação de vídeo da minha mãe. Desde o começo, ela considerara toda essa história um devaneio meu. Dizia que eu era muito frágil, que me machucaria, que eu não precisava disso: “Meia maratona é muito, só ¼ já está bom, filha!”. Apesar de tentar me demover da ideia, ela nunca deixou de me apoiar. E, na manhã desse 8 de julho, minha mãe acordou cedo e passou as mais de 2 horas da corrida me acompanhando pelo aplicativo da corrida até a linha de chegada. 2 horas vendo um pontinho se mexer sobre um mapa. Só mãe para fazer isso, não é mesmo? Pois bem, ela me ligou, com os olhos marejados e um sorriso lindo de orgulho. “Filha, você conseguiu!” Nesse momento, meu amigo, eu desabei, e as lágrimas que eu inibira a manhã inteira brotaram irrefreáveis. Um misto de satisfação com alegria com gratidão…todos os sentimentos bons do mundo pareciam explodir em mim ao mesmo tempo!

E digo mais: essa sensação vicia! Menos de 6 horas depois, eu já estava me inscrevendo para a próxima meia maratona. Será em outubro, e dessa vez quero completar em menos de 2 horas! Torça por mim!

E quer saber qual o mais legal de tudo isso? Acima de todos os benefícios físicos e psicológicos que eu proporcionei para mim, estão as coisas boas que eu pude apresentar para os outros. Nessa empreitada, eu estimulei vários amigos a correrem também. Alguns nunca haviam corrido na vida, e agora estão treinando e se inscrevendo para futuras provas. Para mim, isso é impagável.

Por fim, seja em posts sobre assuntos acadêmicos ou não, sinto que muitas vezes eu sou repetitiva e retorno para o mesmo ponto: você pode fazer absolutamente tudo que você desejar, basta planejamento e dedicação. Eu realmente acredito nisso, e te garanto: não há sentimento melhor do que o de missão cumprida.

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Até logo!

Carol Martines

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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“Uma viagem de mil milhas começa com um único passo.” (Lao Tsé)

Voo solo

Olá! Tudo bem?

O ano de intercâmbio é único, não só pelas experiências acadêmicas, mas também pela oportunidade de se aventurar e fazer coisas que você jamais imaginou. Diante disso, quero te contar sobre minha mais recente descoberta.

Eu sempre quis conhecer Chicago, no estado de Illinois. Queria ver com meus próprios olhos alguns pontos turísticos famosos da cidade, como “the bean” (aquela escultura em formato de feijão que reflete vários prédios, no centro de Chicago), a Sears Tower, o Navy Pier e o Michigan Lake.

“The Bean” ou “Cloud Gate”, um dos símbolos de Chicago

“The Bean” ou “Cloud Gate”, um dos símbolos de Chicago

Portanto, desde o começo do ano, iniciei uma busca desenfreada por uma passagem de avião bem baratinha para a “cidade dos ventos”. Você não imagina a minha empolgação ao encontrar a passagem que eu tanto sonhara por um preço muito amigável, justamente em um feriado. Comprei-a rápido, toda animada, e só depois me dei conta de um probleminha: quem iria comigo? Liguei preocupada para meus amigos que moram em Boston e todos já tinham compromissos agendados naquele feriado. Liguei até para a minha prima, que mora no Colorado, e ela também não podia. Minhas esperanças foram minadas por cada tentativa frustrada de arranjar uma companhia para a viagem. E agora? Eu já comprara a passagem! O que eu ia fazer?

Foi aí que a resposta, que estivera bem na minha frente o tempo todo, surgiu óbvia e cristalina: eu vou sozinha! E apesar de estar inicialmente insegura com isso, foi a melhor decisão que eu poderia ter tomado. Esse post, porém, não é sobre a viagem para Chicago. A cidade é apaixonante, mas isso sempre foi evidente. O texto de hoje é sobre aprender a ser sua própria companhia – e estar feliz da vida com isso!

Lago Michigan

Lago Michigan

Chicago foi a minha primeira viagem sozinha de verdade. Sozinha, sem nenhum familiar me buscando no aeroporto, sem uma “host mother” me esperando com comida quentinha, sem outros intercambistas me aguardando no destino. Sozinha, sem conhecer ninguém no avião, no hostel, na cidade.

Perdi a conta de quantas vezes ouvi da família e dos amigos “Você vai sozinha, mesmo?”, “Tem certeza?”. Sim, viajei pra Chicago completamente sozinha, e foi uma das melhores experiências da minha vida.

No começo, me achei meio boba por estar encarando isso como algo marcante. Não era como se eu estivesse mochilando sozinha pela Ásia! Mas depois, percebi que era exatamente o contrário: é algo grande e marcante, sim! Quantas pessoas de 22 anos você conhece que já fizeram isso? Quantas pessoas de 90 anos você conhece que já fizeram isso? Pois bem, viajar sozinho não é uma coisa tão trivial assim… É preciso muita coragem, e eu deveria sim ter muito orgulho de mim mesma por isso.

Não é como se eu fosse preferir viajar sozinha de agora em diante. Eu queria mesmo era ter pai, mãe, irmã, namorado e os amigos todos viajando junto. Mas às vezes não dá, paciência. O que eu aprendi é a trocar o “só vou se você for” por “vai ser um prazer se você me acompanhar”.

Viajar sozinha é também se desligar completamente do celular, e ficar conectado muito mais intensamente ao lugar e a você mesmo. É aprender muito muito mais sobre a história da cidade onde você está. É ficar conversando com o dono do restaurante sobre a infância dele na Grécia, e com o motorista do Uber sobre a rivalidade entre os Cubs e os White Sox, os dois times de beisebol de Chicago. É ser olhada com estranheza pelos recepcionistas de todos os restaurantes quando você pede “mesa pra 1.” E abrir um sorriso largo ao responder “sim, 1. Pode ser a mesa da janela?”. É poder fazer todas as suas vontades. Viajar sozinha é, por fim, se jogar de cabeça pra baixo e de pernas pro ar em uma cidade nova e em você mesmo. Que venha a próxima aventura!

Do topo da Willis Tower (mais conhecida como Sears Tower), o segundo prédio mais alto do ocidente, depois do One World Trade Center, em Nova York

Do topo da Willis Tower (mais conhecida como Sears Tower), o segundo prédio mais alto do ocidente, depois do One World Trade Center, em Nova York

Te vejo na semana quem vem!

 

Carol Martines

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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

 

“Ou a vida é uma audaciosa aventura, ou não é nada.”. (Helen Keller)