Pausa para um café: Brasil x EUA

Oi, pessoal!

Harvard Medical School

Harvard Medical School

A história de hoje começou na super concorrida aula de zumba de sexta-feira da academia da Harvard Medical School. Eu não conhecia ninguém dentre o enorme grupo que esperava o início da aula, então avistei uma pessoa que parecia tão deslocada quanto eu: um único menino no meio daquela mulherada toda. Ele também me viu, e veio todo sorridente se apresentar.

Foi assim que eu conheci o Julio, um americano de origem mexicana natural do Colorado, que está terminando o primeiro ano de medicina na Harvard Medical School. Quando ele descobriu que eu era brasileira (o que não é nada difícil, dado que eu uso 100% do tempo um colar com uma bandeirinha do Brasil), Julio ficou muito animado: ele já viajou para a nossa terra várias vezes e fala português fluentemente. Como tínhamos muito assunto e a aula de zumba já estava começando, marcamos um café para a semana seguinte para continuarmos essa conversa. E é justamente esse diálogo que tivemos no café, um pouco em português, um pouco em inglês e um pouco em espanhol, que eu quero dividir com vocês hoje. Como ambos são alunos de medicina, o nosso foco principal foram as diferenças do estudo e da prática dessa profissão no Brasil e nos Estados Unidos. Saí do café pensando: “Hm, isso tem tudo a ver com o blog!”

Carol: No Brasil, logo que terminamos o Ensino Médio, prestamos inúmeros vestibulares, um para cada faculdade em que gostaríamos de estudar. Os vestibulares são provas escritas que podem ter uma ou mais fases. Se aprovados, começamos o curso de medicina, que dura 6 anos. Depois, vem a residência.

Faculdade de Medicina da USP

Faculdade de Medicina da USP

Julio (me olhando perplexo): Como assim? É completamente diferente dos Estados Unidos. Quando terminamos o high school (Ensino Médio), temos primeiramente que fazer 4 anos de college. Depois desse período, fazemos uma única prova, o MCAT – medical college admission test. Mandamos applications para as faculdades que desejamos cursar, e as mesmas analisam, além da nossa nota no MCAT, nosso currículo, histórico escolar e carta de motivação. Posteriormente, ainda passamos pela entrevista. Enfim, se aprovados, começamos o curso de medicina, que dura mais 4 anos. Depois disso, começa a residência. Mas achei isso injusto: no Brasil, vocês se formam muito mais cedo, Carol!

Carol: Pois é, vou receber meu diploma de médica aos 24 anos. E isso porque eu estou passando um ano em Harvard, senão me formaria aos 23.

Julio: Não acredito! Eu tenho 23 anos, e ainda estou no primeiro ano da faculdade. E a residência, como funciona no Brasil?

Carol: A duração da residência é semelhante no Brasil e nos EUA, em média de 3 a 6 anos, a depender da especialidade: pediatria, oftalmologia, ginecologia, dermatologia duram 3 anos. Cirurgia plástica, cirurgia gastrointestinal, cirurgia vascular duram 5 anos. Neurocirurgia dura 6! Para entrar na residência na USP, você escolhe uma dessas áreas e faz uma prova, praticamente no mesmo formato do vestibular. Depois, também tem uma prova prática e uma entrevista. Cada hospital tem o seu processo seletivo, e publica o resultado em um dia diferente.

Julio: Aqui nos Estados Unidos, você não escolhe uma opção de residência como no Brasil. Você ranqueia as suas primeiras 10 opções em ordem de preferência, e aplica para diferentes serviços de residência. Então, no mesmo dia, conhecido como “Match Day”, todos os hospitais do país publicam o resultado, e a pessoa fica sabendo se passou, em qual hospital passou e em qual área passou.

Carol (foi a minha vez de ficar completamente em choque): Essa é uma diferença MUITO marcante! Quando é o Match Day desse ano? Deve ser um dia muito feliz para os novos médicos!

Julio: Muito feliz ou muito triste, não é mesmo? E você não vai acreditar, mas o Match Day é justamente hoje.

(Juro que não estou mentindo para deixar a história mais interessante, foi muita coincidência mesmo. Isso aconteceu no dia 17 de março, mas o Match Day muda a cada ano.)

Carol: Que legal! E como são as aulas na faculdade? Nos primeiros anos, na USP, temos mais aulas expositivas. São 2 turmas de 90 alunos cada, e a maioria das aulas seguem o modelo clássico: o professor na frente do anfiteatro, expondo uma apresentação em PowerPoint. Temos bastante contato com pacientes também, que vai crescendo ao longo dos anos. A partir do quarto ano, porém, as aulas são para turmas cada vez menores, e há mais discussão e menos aulas expositivas. Vemos pacientes todos os dias.

Minha turma da USP em um dos maravilhosos anfiteatros da faculdade

Minha turma da USP em um dos maravilhosos anfiteatros da faculdade

Julio: Interessante. Na Harvard Medical School, entram 165 alunos. Temos esse formato de grupos menores com mais discussão e menos exposição desde o primeiro ano. Contudo, você parece ter bem mais contato com pacientes desde o começo do curso na USP do que eu tenho aqui. Ah, e você paga muito caro para estudar na USP? Aqui, as melhores faculdades de medicina não custam menos do que milhares de dólares por ano.

Carol (já estava rindo internamente, porque sabia que ele ficaria impressionado com o que eu diria a seguir): No Brasil, as melhores faculdades de medicina e de outros cursos são públicas. Não pago nada para estudar na USP. Quer dizer, toda a população paga impostos, e deles vem o dinheiro para as faculdades estaduais e federais. Há faculdades particulares também, que são extremamente caras, mas as melhores, segundo os rankings universitários, são públicas.

Julio (visivelmente irritado): Não é possível! Por que eu não moro no Brasil? E me diz uma coisa, qual foi a sua reação quando você ficou sabendo que tinha passado na USP? É a melhor faculdade da América Latina, não é?

Carol: Foi o melhor dia da minha vida. E você?

Julio: Acho que até hoje, quase um ano depois, ainda não caiu a ficha. É bom demais pra ser verdade.

Carol: Pois é, falamos de tantas diferenças… mas acho que a alegria de ser aprovado em medicina é igual em todo e qualquer país do mundo!

Anfiteatro da Harvard Medical School

Anfiteatro da Harvard Medical School

Espero que o post tenha sido útil e motivante, principalmente para os que estão pensando em fazer medicina, seja no Brasil, seja nos Estados Unidos. Semana que vem tem mais!

Carol Martines
_____________________________________________________________________________

Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“Curar às vezes, aliviar frequentemente, consolar sempre.”

(Hipócrates)

Você tem dúvidas ou sugestões para o próximo post? Então mande um email para dobandaharvard@gmail.com!