Verdade & glamour

Olá, tudo bem?

Muitos de vocês, amigos e leitores do blog, me relatam que sentem que eu transmito uma imagem excessivamente feliz, idealizada e “glamorosa” do intercâmbio. Quanto à felicidade, temos a mais pura verdade: eu realmente amo a minha vida em Boston. Contudo, a respeito da idealização e do glamour, acho que eu te devo uma explicação. Se essa também é a sua impressão sobre o meu ano em Harvard, te garanto que ela está com os minutos contados… Prepare-se para por a mão na massa e conhecer a verdade nada glamorosa sobre a vida de um intercambista!

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Comecemos com alguns fatos sobre a Carol pré-intercâmbio para que você tenha noção da dimensão do problema: eu sempre morei com os meus pais, o que, na prática, significa que nunca lavei roupa, nunca limpei um banheiro, nunca varri o chão. O meu ovo mexido era a pior coisa que você comeria na sua vida, e a habilidade culinária parava por aí, apesar das inúmeras e frustradas tentativas da minha avó de me ensinar a cozinhar arroz. Já também realizei a proeza de falhar ao fazer miojo. Sim, miojo. O máximo que eu já havia feito em casa era lavar louças e arrumar a cama aos fins de semana, e olhe lá!

Somando-se a isso, há o fato de que eu havia alugado um apartamento com outros dois meninos, ainda menos prendados do que eu, se é que isso é possível. Aqui, vou acrescentar uma breve explicação: há 10 anos, os alunos do programa USP-Harvard dividem-se entre um apartamento e duas casas aqui em Boston. Não moramos no campus, e sim nesses imóveis alugados que são passados de ano a ano para o próximo grupo de brasileiros da USP. Quando nos reunimos para realizar a divisão das casas, apenas eu e esses dois garotos do segundo ano da faculdade de medicina, Lucas e Anderson, quisemos morar no apartamento, que tem exatamente três quartos (e apenas um banheiro). Desse modo, não tivemos muita opção a não ser morar juntos. Eu mal os conhecia, mas, do pouco que havia ouvido sobre eles, antecipei que a convivência seria complicada, para não dizer outra coisa.

Pois bem, voltando a 2017, como você já sabe, cheguei em Boston no final de janeiro. Anderson e Lucas já estavam na cidade há algumas semanas. Depois de alguns minutos tocando a campainha e esperando do lado de fora do apartamento, no frio e abarrotada de malas, finalmente a porta da minha nova casa abriu-se. E o que eu vi, de verdade, eu preferia não ter visto: era a redefinição da palavra “chiqueiro”! Que nada, chamar aquilo de chiqueiro era uma ofensa aos porcos. A sala parecia um campo minado, o banheiro, um zoológico, e a cozinha… que cozinha? Eu mal conseguia ver o fogão.

A cozinha antes da limpeza

A cozinha antes da limpeza

Eu realmente não conseguia entender como aqueles dois meninos estavam conseguindo morar ali. Como EU conseguiria morar ali?? A pior parte, porém, ainda estava por vi: abri a porta do meu quarto, que eu esperava encontrar vazio, e dei de cara com um depósito imundo. Vou poupá-lo de alguns detalhes, mas o quarto estava realmente asqueroso, e note que eu nunca fui muito exigente – meus pais que o digam. Cortinas escuras e pesadas, paredes manchadas de substâncias duvidosas, camadas de pó em todas as superfícies, baratas (ui!) e por aí vai.

Contratar uma diarista era impensável, dado o elevadíssimo custo. Me vi no meio do corredor, cansada de uma longa viagem, em um país estranho, ao lado de pessoas desconhecidas, e tudo que eu queria era chorar no colo da minha mãe. Entretanto, como essa não era uma opção viável, só me restava uma alternativa: engolir a vontade de chorar, colocar luvas de limpeza, ligar o axé no volume máximo, comprar um desinfetante e começar a faxina. Enquanto eu esfregava o chão, que seguramente não fora varrido no último ano, eu repetia mentalmente, como se fosse um mantra: “Faz parte da experiência. Você também está aqui para isso. Vai valer a pena.”

Não foi fácil, afinal eu nunca soube limpar nada, mas hoje percebo que não é uma questão de saber, e sim de precisar. A necessidade é o melhor professor, não é mesmo? E se você pensava que intercâmbio era só alegria, saiba que passei os primeiros dias do meu ano em Harvard glamourosamente, fazendo uma bela faxina ao som de Ivete Sangalo! Comecei pela cozinha, depois limpei o quarto e os demais cômodos, e aos poucos a casa foi ficando habitável e agradável, podendo ser enfim chamada de lar.

A cozinha depois da minha faxina

A cozinha depois da minha faxina

Os demais afazeres domésticos, que eu acreditava que seriam uma tortura antes do início do intercâmbio, surpreendentemente se mostraram o oposto. Lavar roupa é muito fácil, principalmente depois que o medo de manchar tudo passa. Admito que procrastinei ao máximo o uso da lavadora, mas chegou um ponto em que não havia mais um único par de meias limpo, e aí não houve escapatória. Inclusive, a primeiríssima vez que lavei roupa foi na Harvard University mesmo: os jalecos brancos estavam sujos, e um dos pesquisadores do laboratório me mostrou como acionar a máquina. Quantas pessoas podem dizer que aprenderam a lavar roupa em Harvard, não é mesmo?

Já cozinhar… Nunca pensei que proferiria tais palavras, mas cozinhar tem sido um dos maiores prazeres do intercâmbio. Gosto de ir ao mercado, de tentar receitas novas, de cozinhar para os outros e principalmente de saborear a minha própria comida. Não faço nada muito complexo, mas para quem apanhava do miojo alguns meses atrás, temos um avanço e tanto! Mas sejamos razoáveis: também não posso negar que há dias em que a preguiça de cozinhar prevalece, e eu sonho em ter a comida de casa prontinha à mesa.

Alguns dos meus últimos pratos

Alguns dos meus últimos pratos

Quanto aos meninos, esclareci as regras da casa e montei um cronograma de limpeza semanal para garantir que todo mundo faria a sua parte igualmente e, para a minha satisfação, os dois seguem-no (quase) religiosamente – e eu dou umas bronquinhas quando necessário. Contudo, acima de qualquer faxina ou cronograma, algo muito mais importante aconteceu: contrariando todas as probabilidades, nos tornamos MUITO amigos. Eu realmente me sinto em casa com eles. O Anderson é super sério e reservado, mas também extremamente prestativo, atencioso e educado. Um verdadeiro gentleman. Já para falar do Lucas, me faltam palavras. Ele é todo atrapalhado e indiscreto, mas definitivamente umas das pessoas mais genuínas e verdadeiras que já conheci. Meu grande companheiro de aventuras, o Lucas lembra demais a minha irmãzinha (eles inclusive têm a mesma idade), e com certeza não há palavra melhor para descrever a nossa parceria: irmandade. Acredite se quiser, mas nem nos meus sonhos mais otimistas eu pensei que nós três teríamos uma relação tão harmônica. De qualquer modo, sinto que um dia só termina de verdade quando sentamos os três juntos na sala para rir dos mistérios do Anderson, das maluquices do Lucas e das minhas excentricidades. Quase colocamos fogo na casa toda semana, mas quem liga? (Nota: Eles nunca leem o blog, então posso ser totalmente sincera. Mas, se por algum motivo, eles estiverem lendo, registro aqui meu mais carinhoso obrigada.)

Nós 3! Anderson à esquerda e Lucas à direita

Nós 3! Anderson à esquerda e Lucas à direita

Em suma, acho que essas sejam algumas das maiores riquezas e surpresas do intercâmbio: se (re)descobrir. Me descobri faxineira e cozinheira. Me descobri blogueira. Me descobri dona de casa e irmã mais velha. Me descobri morrendo de saudades da minha família no Brasil, mas encontrando uma outra aqui. Me descobri uma pessoa muito mais paciente. Descobri, enfim, que o “glamour” não está no que você faz, e sim no modo como o faz: feliz!

Ah, não! Acho que idealizei tudo de novo…

Até a próxima!

 

Carol Martines
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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

 

“Cozinhar é o mais privado e arriscado ato.
No alimento se coloca ternura ou ódio.
Na panela se verte tempero ou veneno.
Cozinhar não é um serviço.
Cozinhar é um modo de amar os outros.”. (Mia Couto)

Pausa para um café: Brasil x EUA

Oi, pessoal!

Harvard Medical School

Harvard Medical School

A história de hoje começou na super concorrida aula de zumba de sexta-feira da academia da Harvard Medical School. Eu não conhecia ninguém dentre o enorme grupo que esperava o início da aula, então avistei uma pessoa que parecia tão deslocada quanto eu: um único menino no meio daquela mulherada toda. Ele também me viu, e veio todo sorridente se apresentar.

Foi assim que eu conheci o Julio, um americano de origem mexicana natural do Colorado, que está terminando o primeiro ano de medicina na Harvard Medical School. Quando ele descobriu que eu era brasileira (o que não é nada difícil, dado que eu uso 100% do tempo um colar com uma bandeirinha do Brasil), Julio ficou muito animado: ele já viajou para a nossa terra várias vezes e fala português fluentemente. Como tínhamos muito assunto e a aula de zumba já estava começando, marcamos um café para a semana seguinte para continuarmos essa conversa. E é justamente esse diálogo que tivemos no café, um pouco em português, um pouco em inglês e um pouco em espanhol, que eu quero dividir com vocês hoje. Como ambos são alunos de medicina, o nosso foco principal foram as diferenças do estudo e da prática dessa profissão no Brasil e nos Estados Unidos. Saí do café pensando: “Hm, isso tem tudo a ver com o blog!”

Carol: No Brasil, logo que terminamos o Ensino Médio, prestamos inúmeros vestibulares, um para cada faculdade em que gostaríamos de estudar. Os vestibulares são provas escritas que podem ter uma ou mais fases. Se aprovados, começamos o curso de medicina, que dura 6 anos. Depois, vem a residência.

Faculdade de Medicina da USP

Faculdade de Medicina da USP

Julio (me olhando perplexo): Como assim? É completamente diferente dos Estados Unidos. Quando terminamos o high school (Ensino Médio), temos primeiramente que fazer 4 anos de college. Depois desse período, fazemos uma única prova, o MCAT – medical college admission test. Mandamos applications para as faculdades que desejamos cursar, e as mesmas analisam, além da nossa nota no MCAT, nosso currículo, histórico escolar e carta de motivação. Posteriormente, ainda passamos pela entrevista. Enfim, se aprovados, começamos o curso de medicina, que dura mais 4 anos. Depois disso, começa a residência. Mas achei isso injusto: no Brasil, vocês se formam muito mais cedo, Carol!

Carol: Pois é, vou receber meu diploma de médica aos 24 anos. E isso porque eu estou passando um ano em Harvard, senão me formaria aos 23.

Julio: Não acredito! Eu tenho 23 anos, e ainda estou no primeiro ano da faculdade. E a residência, como funciona no Brasil?

Carol: A duração da residência é semelhante no Brasil e nos EUA, em média de 3 a 6 anos, a depender da especialidade: pediatria, oftalmologia, ginecologia, dermatologia duram 3 anos. Cirurgia plástica, cirurgia gastrointestinal, cirurgia vascular duram 5 anos. Neurocirurgia dura 6! Para entrar na residência na USP, você escolhe uma dessas áreas e faz uma prova, praticamente no mesmo formato do vestibular. Depois, também tem uma prova prática e uma entrevista. Cada hospital tem o seu processo seletivo, e publica o resultado em um dia diferente.

Julio: Aqui nos Estados Unidos, você não escolhe uma opção de residência como no Brasil. Você ranqueia as suas primeiras 10 opções em ordem de preferência, e aplica para diferentes serviços de residência. Então, no mesmo dia, conhecido como “Match Day”, todos os hospitais do país publicam o resultado, e a pessoa fica sabendo se passou, em qual hospital passou e em qual área passou.

Carol (foi a minha vez de ficar completamente em choque): Essa é uma diferença MUITO marcante! Quando é o Match Day desse ano? Deve ser um dia muito feliz para os novos médicos!

Julio: Muito feliz ou muito triste, não é mesmo? E você não vai acreditar, mas o Match Day é justamente hoje.

(Juro que não estou mentindo para deixar a história mais interessante, foi muita coincidência mesmo. Isso aconteceu no dia 17 de março, mas o Match Day muda a cada ano.)

Carol: Que legal! E como são as aulas na faculdade? Nos primeiros anos, na USP, temos mais aulas expositivas. São 2 turmas de 90 alunos cada, e a maioria das aulas seguem o modelo clássico: o professor na frente do anfiteatro, expondo uma apresentação em PowerPoint. Temos bastante contato com pacientes também, que vai crescendo ao longo dos anos. A partir do quarto ano, porém, as aulas são para turmas cada vez menores, e há mais discussão e menos aulas expositivas. Vemos pacientes todos os dias.

Minha turma da USP em um dos maravilhosos anfiteatros da faculdade

Minha turma da USP em um dos maravilhosos anfiteatros da faculdade

Julio: Interessante. Na Harvard Medical School, entram 165 alunos. Temos esse formato de grupos menores com mais discussão e menos exposição desde o primeiro ano. Contudo, você parece ter bem mais contato com pacientes desde o começo do curso na USP do que eu tenho aqui. Ah, e você paga muito caro para estudar na USP? Aqui, as melhores faculdades de medicina não custam menos do que milhares de dólares por ano.

Carol (já estava rindo internamente, porque sabia que ele ficaria impressionado com o que eu diria a seguir): No Brasil, as melhores faculdades de medicina e de outros cursos são públicas. Não pago nada para estudar na USP. Quer dizer, toda a população paga impostos, e deles vem o dinheiro para as faculdades estaduais e federais. Há faculdades particulares também, que são extremamente caras, mas as melhores, segundo os rankings universitários, são públicas.

Julio (visivelmente irritado): Não é possível! Por que eu não moro no Brasil? E me diz uma coisa, qual foi a sua reação quando você ficou sabendo que tinha passado na USP? É a melhor faculdade da América Latina, não é?

Carol: Foi o melhor dia da minha vida. E você?

Julio: Acho que até hoje, quase um ano depois, ainda não caiu a ficha. É bom demais pra ser verdade.

Carol: Pois é, falamos de tantas diferenças… mas acho que a alegria de ser aprovado em medicina é igual em todo e qualquer país do mundo!

Anfiteatro da Harvard Medical School

Anfiteatro da Harvard Medical School

Espero que o post tenha sido útil e motivante, principalmente para os que estão pensando em fazer medicina, seja no Brasil, seja nos Estados Unidos. Semana que vem tem mais!

Carol Martines
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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“Curar às vezes, aliviar frequentemente, consolar sempre.”

(Hipócrates)

Você tem dúvidas ou sugestões para o próximo post? Então mande um email para dobandaharvard@gmail.com!

14 Maravilhas de Boston (Parte 2)

Olá!

Essa semana, conforme o prometido, vamos continuar a conversar sobre os motivos que fazem de Boston uma cidade apaixonante.

Contudo, antes disso, quero te contar mais uma curiosidade sobre a capital de Massachusetts. Se você procurar no dicionário pela palavra “wicked”, encontrará significados como “perverso”, “malvado”. Porém, na região dos Estados Unidos conhecida como Nova Inglaterra, da qual Boston faz parte, essa palavra é usada de modo completamente diferente, significando “muito”, “bastante”. “Wicked”, por aqui, não é um adjetivo com conotação negativa, e sim um advérbio, normalmente usado para reforçar coisas boas: “this place is wicked amazing!”.

Tudo bem, e como isso se relaciona a esse tema? O título original do post era “13 Reasons Why”, que é o nome de uma série famosa e sombria da Netflix cujo tema é suicídio. Minha intenção foi, do mesmo modo que os moradores da Nova Inglaterra deram à palavra “wicked” um ar positivo, ressignificar o nome da série, transformando-o em algo leve e feliz. Te agradeço se você apreciou a referência, e te peço profundas desculpas se te incomodei. Com certeza, não era a intenção. Agora, vamos aos motivos, e para excluir qualquer relação com um tema potencialmente desagradável, serão 14 e não 13!

#8 – Meca dos frutos do mar

Se você tem gota (doença causada pelo acúmulo de ácido úrico e que piora com o consumo de frutos do mar), Boston não é um bom destino de férias para você. Por aqui, esqueça o fast food normalmente associado à cultura americana: a cidade é conhecida pela enorme disponibilidade de lagostas, ostras, camarões, mexilhões. Tanto que, para reforçar o meu ponto, o símbolo da cidade é uma lagosta. Mesmo.

Overdose de lagostas

Overdose de lagostas

O prato mais clássico de Boston é a clam chowder: uma sopa de mexilhões que normalmente vem dentro de um pão, tudo quentinho e delicioso, fazendo jus à palavra imperdível. E quem não é fã de frutos do mar? Naturalmente, sendo uma cidade culturalmente rica e diversificada, há opções para todos os gostos, com culinárias de todos os tipos, de vietnamita a irlandesa, de japonesa a indiana. E brasileira…

A alegria nos olhos de quem vai provar a famosa clam chowder

A alegria nos olhos de quem vai provar a famosa clam chowder

#9 – Sentiu saudades de casa?

Isso não é um problema, visto que há muitos brasileiros na região. O exemplo mais emblemático é a vila de Framingham que, localizada há poucos quilômetros do centro de Boston, possui uma das maiores comunidades brasileiras dos Estados Unidos.

Quando se trata de culinária, além do exorbitante e inacessível Fogo de Chão localizado na região mais nobre da cidade, há diversos restaurantes brasileiros que realmente têm a cara e a energia do país. Tento ao máximo evitar esses locais (se fosse para comer churrasco, feijoada e moqueca, eu teria ficado no Brasil, não é mesmo?), mas é sempre bom ter a opção.

No Carnaval, época em que eu mais senti falta do astral brasileiro, a associação de alunos brasileiros do MIT organizou uma festa com samba, brigadeiro, guaraná, e até passistas. Obviamente não chegou aos pés do nosso Carnaval, mas ter um gostinho de casa de vez em quando é delicioso.

#10 – Turistando

Moro em Boston durante a semana, mas aos sábados e domingos eu tenho orgulho de viver como turista diante das inúmeras opções de lazer: museus, igrejas, shows, exposições, lojas, festivais, parques, aquários, restaurantes. Tem Chinatown, tem Little Italy, tem Broadway. Por ser um tema muito extenso e aprazível, farei um post inteiro sobre o assunto em breve, mas deixo aqui um gostinho de um dos museus mais estonteantes da cidade.

Isabella Stewart Gardner Museum

Isabella Stewart Gardner Museum

#11 – Luta constante

Boston é uma cidade muito ativa politicamente. Além dos ininterruptos protestos contra a gestão do atual presidente Donald Trump (dos quais eu tratei no post A Era Trump), os bostonianos lutam constantemente pela inclusão das minorias, pela preservação do meio ambiente, pela aceitação de refugiados, pelos direitos das mulheres. Me agrada muito morar em uma cidade onde as pessoas transformam insatisfação em ação, ao invés de ficarem paradas esperando algo mudar magicamente.

#12 – Oásis urbano

Em Boston, foi construído um sistema de parques unificados, o Emerald Necklace, que permite que você atravesse a cidade inteira só por meio de áreas verdes. Na verdade, esse sistema é tão grande que até extrapola os limites da capital, chegando a cidades vizinhas. Do Boston Common ao Franklin Park, há rios, trilhas, campos abertos e jardins ininterruptos. Não sei se isso existe em alguma outra cidade do mundo, mas para mim essa é a definição de qualidade de vida.

Mapa do Emerald Necklace

Mapa do Emerald Necklace

Public Garden, um dos parques que compõe o sistema

Public Garden, um dos parques que compõe o sistema

#13 – Fanáticos por esportes

Os bostonianos revolucionam o conceito de paixão por esportes, sendo verdadeiramente impossível morar na capital de Massachusetts sem conhecer os quatro times que aceleram o coração da cidade: Boston Bruins (time de hockey), Boston Celtics (basquete), New England Patriots (futebol americano) e Boston Red Sox (beisebol).

Jogo dos Celtics no TD Garden

Jogo dos Celtics no TD Garden

As temporadas de cada um desses esportes intercalam-se ao longo do ano, de modo que, de janeiro a janeiro, a demanda por fortes emoções nos canais esportivos é atendida. Por exemplo, agora estamos no meio de maio, então a temporada de basquete já está perto do fim, e a de beisebol acabou de começar. Esse último fato impacta enormemente a minha vida, uma vez que eu moro muito perto do Fenway Park, o lendário campo de beisebol dos Red Sox. E, como tem jogo quase todos os dias, acho que você pode imaginar como o bairro fica: é difícil ver na rua uma única pessoa sem as roupas do time de 116 anos de história. Eu acho isso o máximo!

Foto 7

Contudo, para mim, o dia mais emocionante na vida esportiva de Boston até agora foi logo no começo de fevereiro: os New England Patriots, time de futebol americano de Tom Brady (mais conhecido por nós brasileiros como marido da Gisele Bündchen), estavam na final do Super Bowl. Imagine a cidade deserta, e os bares lotados! O time de Boston começou perdendo de 28 a 3 dos Atlanta Falcons, o que me fez sair do bar onde eu estava e ir jantar em uma das poucas hamburguerias abertas naquele dia. Afinal, o jogo estava para lá de deprimente e as chances de virada eram praticamente inexistentes. Qual não foi a minha surpresa ao ligar a televisão algum tempo depois e me deparar com os últimos minutos de uma partida inacreditável: os Patriots haviam empatado e levado o jogo para a prorrogação, na qual venceram por 34 a 28, o que se configurou como a maior virada de uma final de Super Bowl da história. Ademais, Tom Brady, ídolo absoluto de Boston, foi eleito o melhor jogador da partida. Como você pode imaginar, a cidade estava em êxtase absoluto nos dias seguintes.

As palavras de incentivo ao time, “GO PATS”, escritas no prédio principal da cidade, no dia da final

As palavras de incentivo ao time, “GO PATS”, escritas no prédio principal da cidade, no dia da final

Curiosamente, no ano passado, eu também estava em Cleveland coordenando um programa de pesquisa quando os Cleveland Cavaliers, time de basquete do incomparável LeBron James, foram campeões da NBA. Acho que eu dou sorte!!!

Final da NBA de 2016 em Cleveland

Final da NBA de 2016 em Cleveland

#14 – O que os olhos não veem…

O coração sente, sim, senhor! Enumerei diversos motivos objetivos e pontuais, mas, sinceramente, não é possível explicar racionalmente porque Boston é uma cidade encantada. O ar, a água, o céu… a energia daqui faz bem! Não é o que a cidade oferece em termos de infraestrutura, mas o que ela faz sentir: liberdade, plenitude e uma apreciação constante da vida.

Queria salientar que isso é uma questão de ponto de vista. Há vários alunos do programa USP-Harvard que concordam comigo ipsis litteris e acham Boston “wicked awesome”, mas há outros que não veem a hora de voltar para o Brasil. Quanto a mim, sim, sou uma romântica incurável, e pretendo continuar nesse caso de amor por Boston por muito tempo!

Semana que vem, vamos conversar sobre medicina. Espero você!

 

Carol Martines
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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“A alegria é a pedra filosofal que tudo converte em ouro.” (Benjamin Franklin)

14 maravilhas de Boston

Oi, tudo bem por aí?

Por aqui, como de costume, tudo ótimo. E hoje quero contar para você a primeira parte de um dos principais fatores responsáveis por tornar sempre tudo ótimo nesse intercâmbio: a cidade de Boston. Com você, as 13 razões pelas quais Boston é a cidade dos sonhos de qualquer um.

#1 – Capital intelectual do mundo

Boston é uma das maiores produtoras de conhecimento do planeta, e não estou falando só de Harvard, a melhor universidade do mundo. Na área metropolitana de Boston, há precisamente 54 instituições de ensino superior, a maioria delas de exímio prestígio acadêmico, como Berklee College of Music, Northeastern University e Massachusetts Institute of Technology – o MIT, sonho de qualquer engenheiro.

Prédio principal do MIT

Prédio principal do MIT

Para que você tenha uma noção melhor da densidade geográfica de universidades nessa cidade, considere que, durante a minha caminhada diária de menos de 1 quilômetro da minha casa até a Harvard Medical School, eu passo por três faculdades. Isso mesmo, quatro faculdades em 1 km: Simmons College, Emmanuel College e Massachusetts College of Pharmacy. Difícil de acreditar, não é mesmo?

#2 – O frescor da juventude

O segundo motivo é uma agradável consequência do anterior: com essa quantidade enorme de instituições de ensino, há obviamente muitos alunos, a maioria deles jovens. Isso de fato salta aos olhos pelas ruas bostonianas: há visivelmente mais jovens entre 17 e 25 anos do que qualquer outra faixa etária. E entre os idosos que vi pela cidade, a maioria deles é professor universitário.

Aqui, me sinto na obrigação de ser sincera e fazer um adendo: adoro morar aqui, mas estaria mentindo se dissesse que o povo bostoniano é simpático. Não que as pessoas sejam mal educadas, elas simplesmente parecem absortas demais nos seus afazeres pessoais, celulares e fones de ouvido para parar, sorrir e conversar. E se você tenta socializar, a resposta é lacônica. Os ingleses têm fama de serem fechados, mas tenho certeza que o povo de Boston desbanca a Inglaterra nesse aspecto. Sim, até o britânico é mais caloroso e receptivo que o bostoniano. Se essa frieza é uma consequência da faixa etária predominante da cidade? Quiça.

#3 – Segurança

Nasci e morei minha vida inteira em São Paulo, então para mim a segurança que eu tenho em Boston é comparativamente inacreditável. Aqui, mulheres andam sozinhas pelas ruas de madrugada sem nenhum problema, as pessoas usam seus iPhones e laptops de última geração no transporte público. Aqui, ninguém pega o que não é seu. Aqui, nunca conheci ninguém que já tenha sido assaltado. Aqui, as pessoas riem quando eu conto que muitos paulistas andam de carro blindado. “Por quê?”, elas perguntam. Tão bom nunca saber a resposta.

#4 – Quem precisa de carro?

Em Boston, é possível fazer praticamente tudo a pé. A cidade é grande, mas tudo fica muito próximo, diferente da maioria das cidades americanas, onde ter carro é imprescindível. Se caminhar não for do seu agrado, você também pode andar de bicicleta por inúmeras ciclovias ou usar o metrô, que é bem antigo – inclusive, é o sistema metropolitano mais velho dos Estados Unidos, tendo sido inaugurado em 1897 -, mas funciona admiravelmente bem. Curiosidade: aqui as pessoas não falam que vão pegar o metrô, simplesmente dizem que vão usar o “T”.

A linha mais velha do Metrô de Boston, que em alguns ponto não é subterrânea. Nada bonito, eu concordo.

A linha mais velha do Metrô de Boston, que em alguns ponto não é subterrânea. Nada bonito, eu concordo.

#5 – A magia das mudanças de estação

Este item contempla tanto o que eu mais gosto em Boston, quanto o que mais me apavorava: o frio! Mas já falei muito disso nos posts Winter is here! e Primavera, te amo.

O encanto da primavera: flores de cerejeiras por toda a parte

O encanto da primavera: flores de cerejeiras por toda a parte

#6 – Nova York a 1 dólar de distância

Sim, você leu direito. Como Nova York fica a pouco mais de 3 horas de distância de carro de Boston – uma viagem ainda mais curta do que ir de São Paulo ao Rio de Janeiro -, as passagens de ônibus são extremamente baratas, podendo chegar a 1 dólar se você comprar com antecedência. Inclusive, já ouvi várias pessoas dizendo que essa distância mínima até a Estátua da Liberdade é a parte favorita delas sobre Boston.

Manhattan ao fundo, do topo do One World Trade Center, prédio que deu lugar às Torres Gêmeas

Manhattan ao fundo, do topo do One World Trade Center, prédio que deu lugar às Torres Gêmeas

Contudo, apesar de Nova York realmente ser incrível, sou obrigada a discordar dos que dizem que a melhor coisa de Boston é a proximidade da Big Apple, uma vez que, para mim, é exatamente o contrário: Nova York é que tem sorte de ser tão perto de Boston. A primeira é vibrante, glamorosa, porém caótica. Um final de semana como turista na Times Square é delicioso, mas imagine viver todos os dias da sua vida imerso em uma overdose de sons, luzes e pessoas? Ah, eu não! Sou muito mais morar em Boston.

A intensa Times Square

A intensa Times Square

#7 – Berço da independência americana

Quando eu estava decidindo qual seria o destino do meu intercâmbio, a Europa era uma forte candidata devido à sua riqueza histórica: monumentos, igrejas, castelos e por aí vai. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que Boston também respira história por todos os cantos!

Quem aí se lembra daquela aula de história sobre a célebre Boston Tea Party? Se você tiver esquecido (ou dormido nessa aula do Pérsio), esse é o nome que designa o protesto realizado pelos colonos ingleses em 1773 contra a Inglaterra, na qual os mesmos lançaram os carregamentos de chá de três navios pertencentes à Companhia Britânica das Índias Orientais nas águas do Porto de Boston. Este é considerado um evento fundamental para a Guerra de Independência Americana.

A Boston Tea Party é só um exemplo dentre os milhares de acontecimentos do passado que dão um charme verdadeiramente europeu a essa cidade, sem perder a praticidade americana.

O museu da Boston Tea Party, no qual você pode se sentir um revolucionário e jogar caixas de chá no mar. Mesmo.

O museu da Boston Tea Party, no qual você pode se sentir um revolucionário e jogar caixas de chá no mar. Mesmo.

Uma vez que esse tema é muito extenso, vamos continuar as 13 Reasons Why na próxima semana, combinado?

Até lá!

Carol Martines

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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“Um navio, no porto, está seguro. Mas não é para isso que os navios são feitos.” (William Shedd)