Muito (muito mesmo) além do laboratório

Oi, tudo bem?

Essa semana, eu quero te contar mais sobre o que acontece na vida de um cientista de Harvard. Como você já sabe, eu estou trabalhando como pesquisadora por um ano no laboratório do Dr. Joseph Brain, que é especializado no estudo dos pulmões. Contudo, o meu ofício aqui não se restringe apenas ao laboratório, onde eu fico cerca de 60% do tempo que passo na Harvard University. Eu gosto muito do trabalho no laboratório, mas acredito que os outros 40% sejam até mais importantes para mim como cientista, futura médica e principalmente como ser humano. De modo geral, são dois grupos de atividades.

Primeiramente, frequento várias reuniões. Toda terça-feira de manhã, a equipe completa do Laboratório Brain reúne-se religiosamente para discutir resultados, perspectivas e planos para novos experimentos. Como expliquei no post anterior, o time “titular” Brain é composto por 6 pessoas (Dr. Brain, 3 outros pesquisadores, Paulo e eu), mas há vários colaboradores de outros laboratórios dos EUA e do mundo, sendo que alguns destes também frequentam as reuniões a depender do que está em pauta a cada terça-feira.

Em um grupo multicultural de cerca de 10 pessoas absurdamente inteligentes, confesso que nas primeiras reuniões eu era incapaz de acompanhar a maioria das discussões, cujo nível intelectual é surreal. Entretanto, com o passar do tempo (e com muito estudo), atualmente já estou conseguindo entender quase a totalidade das reuniões, e às vezes dou minha tímida opinião. Tá bom, tá bom… se você me conhece, sabe que “tímida” e “Carol Martines” nunca estão na mesma frase, mas meu ponto é que procuro só falar quanto tenho muita certeza. Entretanto, ao contrário do que possa parecer, todos da equipe são muito atenciosos comigo e sempre fazem de tudo para me incluir – em especial o Dr. Joseph Brain, uma das pessoas que eu mais admiro em Boston, de quem falarei mais no futuro.

Gosto cada vez mais dessas reuniões, pois, na minha concepção, é nesse espaço que eu realmente vejo a ciência acontecer. Sendo bem sincera, o trabalho nas bancadas do laboratório qualquer pessoa faz. Desde que bem treinado, qualquer um faz. Pipetar, contar células ao microscópio, preparar soluções, operar ratos e todas as outras atividades do laboratório exigem atenção e graus variáveis de habilidade manual. Mas concordemos que ninguém precisa de um PhD para isso. Por outro lado, perceber o detalhe que todos os outros centros de pesquisa do mundo estão deixando escapar – e que pode salvar milhões de vidas – exige muito, muito brilhantismo intelectual. Gosto de pensar que nas reuniões são feitas as perguntas, e no laboratório são fabricadas as respostas. E o mais precioso e aparentemente paradoxal disso tudo é que o segredo de um pesquisador de sucesso é justamente saber fazer as perguntas certas. As respostas são mera consequência. Tanto que, quanto mais renomado, menos tempo o cientista passa na bancada. Em suma, as reuniões de terça-feira definem o cronograma, os experimentos, as doses de medicamentos, o tempo de incubação – absolutamente tudo que ocorrerá no resto da semana.

Vamos falar do segundo grupo de atividades, que é composto por palestras. Harvard oferece uma infinidade de palestras todos os dias sobre os mais variados temas, e segundo o meu programa de intercâmbio, eu sou “obrigada” (entre muitas aspas) a assistir pelo menos duas palestras de minha escolha por semana. Agora, deixe-me explicar o porquê das aspas: ninguém de fato verifica se os alunos estiveram presentes em cada aula. Contudo, as palestras são tão incríveis que eu acabo assistindo a muito mais aulas do que o mínimo exigido. Simplesmente tenho a chance de aprender com os melhores profissionais não só de Harvard, mas do mundo todo. E ainda tem mais um detalhe que eu não posso deixar de mencionar: a maioria das palestras é acompanhada de muita comida deliciosa e GRÁTIS. Não é exatamente uma chance a se desperdiçar, não é mesmo?

Por exemplo, nas últimas semanas, eu fui a palestras sobre liderança, infecção aguda por HIV, legalização da maconha e “a biologia da consciência”, sendo esta última uma das melhores aulas a que já tive o prazer de assistir na vida. Além dessas, houve uma aula de uma pesquisadora brasileira sobre o vírus da Zika a que eu queria muito assistir, mas não consegui sair do laboratório a tempo. No entanto, isso não foi um problema, já que Harvard é tão de outro mundo que a palestra foi transmitida online e eu pude assistir ao vivo. Imagine só a minha alegria ao descobrir isso! A propósito, você pode ver também se tiver interesse, clicando aqui.

A palestra sobre os impactos da maconha, que é legalizada em Massachusetts, contou com 4 profissionais de médicos a advogados e uma produção digna de televisão

A palestra sobre os impactos da maconha, que é legalizada em Massachusetts, contou com 4 profissionais de médicos a advogados e uma produção digna de televisão

As palestras vão muito além de medicina ou de saúde pública. Na semana passada, tive a honra de assistir a uma aula na Harvard Business School sobre tomada de decisões e riscos. Ao contrário de todas as outras, que são abertas para qualquer aluno, para ter acesso a essa aula em especial era preciso ser convidado. A aula era um misto de exposição, feita eximiamente por um professor genial de MBA da Business School, e discussão de um artigo de 26 páginas que deveria ser lido a priori pelos frequentadores da palestra. Na plateia, entre um grupo seleto de 40 pessoas, um tal de Luciano Huck e nada mais nada menos do que Jorge Paulo Lemann. Sim, exatamente. Apenas o homem mais rico do Brasil. Agora só imagine a riqueza dessa discussão. Quantas pessoas no mundo tem a chance de presenciar esse tipo de evento?

Luciano Huck, meu colega de aula

Luciano Huck, meu colega de aula

Por isso tudo que eu digo e repito: a experiência de ser aluna de Harvard vai muito além das paredes do laboratório. Vai além até de mim e da minha capacidade de absorver tudo isso. Só sei que todas as manhãs, ao mostrar minha carteirinha para a segurança e entrar em Harvard, eu  só penso: “Uau. Isso é mesmo de verdade?”

Jorge Paulo Lemann, um dos empresários de maior sucesso do mundo, com os brasileiros do programa USP-Harvard

Jorge Paulo Lemann, um dos empresários de maior sucesso do mundo, com os brasileiros do programa USP-Harvard

Até semana que vem!

Carol Martines
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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

Tudo o que temos de decidir é o que fazer com o tempo que nos é dado.” (J.R.R. Tolkien)

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