Run, Boston, Run!

Bem-vindo mais uma vez.

Se algum dia você vier para Boston, independente da estação do ano, há uma coisa que você vai reparar logo nos primeiros minutos: a capital do estado de Massachusetts é sem sombra de dúvidas uma cidade que corre. Há pessoas correndo pelas ruas a qualquer hora do dia, faça chuva, faça sol, faça neve.

Escadaria do principal shopping da cidade, o Prudential Center

Escadaria do principal shopping da cidade, o Prudential Center

Como eu gosto muito de correr, esse número surpreendente e contagiante de corredores de rua captou minha atenção desde o início do intercâmbio, e comecei a refletir sobre os motivos disso. Primeiramente, Boston é assaz segura, além de ter muitos parques e ruas amplas propícios para a prática desse esporte. Em segundo lugar, a cidade recebe todo mês de abril desde 1897 a Boston Marathon, a maratona anual mais antiga do mundo, e uma das seis maratonas mais importantes do planeta, junto com Berlim, Tóquio, Nova York, Londres e Chicago. Contudo, para mim, esses motivos ainda não eram suficientes para explicar tamanha fixação por corrida. Era mais do que paixão, havia um fervor, um orgulho. Havia algo a mais…

Correndo pela Harvard Bridge

Correndo pela Harvard Bridge

Então tudo tornou-se tão óbvio. Eu lembrei, e você deve se lembrar também. Em 2013, houve um ataque terrorista à 117a Boston Marathon. Duas bombas caseiras foram detonadas perto da linha de chegada, deixando 3 mortos e 264 feridos. As explosões foram efetuadas por dois irmãos muçulmanos, Tamerlan e Dzhokhar Tsarnaev, que tinham o plano de repetir o ato na Times Square alguns dias depois, o que felizmente não se concretizou. Durante uma perseguição policial alguns dias após o ataque, Tamerlan levou diversos tiros e foi atropelado por um carro roubado dirigido por Dzhokhar, que tentava fugir. O primeiro morreu pouco depois do atropelamento, e o segundo foi encontrado no dia seguinte, preso e sentenciado à morte. Mas meu foco aqui não é esse crime horrível, então se você quiser saber mais sobre o ataque, te convido a assistir o filme Patriots´ Day, dirigido por Peter Berg e lançado em 2016.

Uma das explosões de 2013 (fonte: DAN LAMPARIELL/REUTERS)

Uma das explosões de 2013 (fonte: DAN LAMPARIELL/REUTERS)

Retornando ao meu ponto principal, eu estava tentando entender, com base em percepções pessoais, textos jornalísticos e conversas com moradores de Boston, porque correr é tão vital para essa cidade, e o ataque de 2013 é a peça que faltava nesse quebra-cabeças. Pode parecer paradoxal, mas você verá que faz todo o sentido, e tem tudo a ver com o modo como o povo de Boston lidou com o ataque. Tem a ver com superação. Naturalmente, houve luto, mas ao contrário do esperado, o sentimento predominante não era de tristeza e medo, e sim de raiva. Eu conversei, ou melhor, praticamente entrevistei diversos conhecidos sobre o assunto. Um deles é a secretária que trabalha no meu departamento na Harvard University, e enquanto ela me contava sobre os acontecimentos daquele fatídico abril de 2013, eu vi raiva nos seus olhos. Vi também alegria quando ela me contou que os bostonianos saíram para festejar nas ruas quando os dois culpados foram encontrados.

E depois, no ano seguinte? O que fazer? Seria seguro dar continuidade à maratona depois de tudo isso? A resposta, na minha visão, é corajosa e emocionante: a segurança foi reforçada, e não só houve a 118a Boston Marathon em abril de 2014, como também foi a edição com número recorde de inscritos (36 mil corredores, superando o ano anterior) e de espectadores (um milhão de pessoas na linha de chegada, nada menos do que o dobro de 2013). De toda essa história inspiradora, surgiu o maior lema daqui: Boston Strong (em tradução literal, “Boston Forte”), que remete ao triunfo da cidade sobre tal tragédia.

Retornemos, mais uma vez, ao meu questionamento inicial. Boston não corre apenas por ter belos parques, ou por sediar um grande evento esportivo. Boston não corre apenas por vaidade ou por saúde. Boston corre por orgulho, por amor, justamente porque um dia alguém tentou impedi-lo de correr.

Falamos de 2013 e 2014. Agora, conversemos sobre o presente. Se eu passei tanto tempo pensando e pesquisando sobre as origens do “Boston Strong”, por que eu só escrevi esse post agora? Simplesmente porque hoje, senhoras e senhores, é a terceira segunda-feira de abril, é Patriots’ day, é o dia da 121a Boston Marathon. E, apesar das súplicas dos meus pais, não havia a menor possibilidade de eu não ver a linha de chegada com meus próprios olhos.

A famosa linha de chegada, onde as bombas explodiram em 2013

A famosa linha de chegada, onde as bombas explodiram em 2013

Revista da polícia

Revista da polícia

A Boston Marathon percorre 42,125 km e termina com uma leve subida, uma curva à esquerda e mais alguns metros pela Boylston Street, que é o coração de Boston. Eu e minha amiga Isabella Fernandes, a quem devo os créditos das fotos a seguir, demoramos para entrar na área do evento porque havia um grande público e a polícia estava revistando cada um dos espectadores, mas conseguimos ficar justamente nessa curva da Boylston, a fim de acompanhar o último esforço dos maratonistas antes da tão esperada glória. Vi muito mais do que isso. Vi o público estimulando cada corredor que parava a poucos metros do final com câimbras a não desistir. Vi maratonistas parando para dividir sua garrafa d´água com outros. Vi corredores com bandeiras de países do mundo todo. Vi pessoas com próteses no lugar das pernas e cadeirantes cruzando a linha de chegada. Vi pais completando os 42 quilômetros empurrando seus filhos em cadeiras de rodas. Meus olhos encheram-se de lágrimas a cada um deles.

Quando um corredor é tomado pelas câimbras, o público dá muito apoio

Quando um corredor é tomado pelas câimbras, o público dá muito apoio

Quando as pernas falham, os braços completam os 42 km

Quando as pernas falham, os braços completam os 42 km

Heroína

Heroína

A multidão acompanhando a maratona

A multidão acompanhando a maratona

Se eu senti medo? Não nego que senti, era impossível não pensar em 2013. Fiquei bem alerta e preocupada no princípio. Mas a energia da maratona e de Boston estava tão maravilhosa e contagiante que os pensamentos negativos não tiveram espaço. Sempre coloco ao final de cada post uma citação, mas creio que esta mereça fazer parte do corpo do texto. O governador de Massachusetts na época do atentado, Deval Patrick, disse sabiamente: “Os terroristas tiraram vidas e membros, tiraram também um pouco do nosso senso de segurança. Mas eles nos tiraram muito menos do que eles pretendiam, e nos deram coisas que eles não imaginavam: eles nos deram um senso de comunidade, uma causa comum.”

Boston continua correndo, cada vez mais longe, cada vez mais rápido, apesar de todas as adversidades. E você? Qual a sua maratona?

Foto 11

Até a próxima.

Carol Martines
_____________________________________________________________________________

Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

Primavera, te amo

Olá, como estão as coisas?

Se você me fizer essa mesma pergunta, normalmente eu vou responder com um sorriso largo que está tudo maravilhoso. Contudo, se a pergunta fosse feita na semana passada, a resposta seria bem diferente: eu simplesmente não estava aguentando mais essa desgraça de frio. Nos primeiros meses, eu me encantei com o inverno, me emocionei com a neve… mas chegou o equinócio de primeira, depois veio abril, e continuou nevando. Mesmo quando não nevava, chovia ininterruptamente, o que é ainda pior que neve, porque te deixa com frio E molhado. Comecei a andar na rua diariamente rezando para que o frio se abrandasse. Veja bem, não era como se eu estivesse pedindo o verão do Brasil. Eu só queria poder sair de casa usando apenas UMA calça. É pedir muito? Uma temperatura de 10 graus Celsius me faria a pessoa mais feliz do mundo. Mas o clima não melhorava, e meu humor parecia acompanhar os termômetros.

Repare na minha expressão de felicidade no dia mais frio da minha vida: - 32 graus Celsius

Repare na minha expressão de felicidade no dia mais frio da minha vida: – 32 graus Celsius

Até que, de súbito, tudo mudou. Acordei em uma manhã de abril e fui verificar a previsão do tempo para aquele dia. As botas impermeáveis aguardavam no chão, o casaco de neve repousava na mesa. “Máxima de 28 graus.” Não era possível. Esfreguei os olhos, achei que ainda estivesse dormindo, verifiquei se a temperatura não estava em Fahrenheit. “Máxima de 28 graus Celsius.” Estava correto. Meu Deus, que alegria inexplicável!

Céu azul, flores e a Harvard School of Public Health

Céu azul, flores e a Harvard School of Public Health

Flores que surgiram de um dia para o outro no jardim de casa

Flores que surgiram de um dia para o outro no jardim de casa

Saí para a faculdade de casaco, obedecendo à parte de mim que se recusava a acreditar naquele milagre, mas no final da tarde coloquei shorts e regata pela primeira vez em 3 meses, e fui correr por Boston ao som de Feeling Good para sentir a primavera na pele – literalmente.

Como em um passe de mágica, sem dar nenhum aviso, a cidade floresceu, a vida floresceu. O verde tomou conta dos parques antes desprovidos de cor. Flores se multiplicaram por toda parte. E mais importante do que a vegetação, as pessoas floresceram. Eu nunca vira tantas pessoas andando pelas ruas de Boston. Praticando esportes, passeando com seus cachorros, ou simplesmente saboreando aquele novo estado de espírito deitadas na grama. Nessas condições, o simples fato de existir é prazeroso.

Esquilo apreciando as flores

Esquilo apreciando as flores

Atividade física ao ar livre, que seria impensável há uma semana

Atividade física ao ar livre, que seria impensável há uma semana

Difícil traduzir em palavras essa sensação única de renascimento que nós brasileiros nunca experimentamos até nos aventurarmos em outros países. Aprendemos que as quatro estações existem na escola, mas o real impacto disso em nossas vidas ensolaradas é mínimo. Não tenho dúvidas que o clima do nosso Brasil é infinitamente melhor, com verão o ano todo, porém tenho que admitir que essas estações tão bem definidas têm o seu charme. É aquele velho clichê: só aprendemos a valorizar o calor quando conhecemos o frio de verdade. Uma moça que trabalha em um laboratório associado ao meu definiu sutil e precisamente isso tudo: “Gosto das mudanças das estações. Faz com que você sempre tenha esperança de algo novo.” Esperança, essa é a palavra.

Como se não fossem suficientes a primavera e essa temperatura deliciosa enchendo meu coração de alegria, ainda foi Páscoa no domingo e é meu aniversário na sexta, duas datas que também são sinônimo de renovação para mim. Pois é… os dias têm sido muito felizes por aqui!

Foto 6 copy

Até semana que vem, quando vamos conversar sobre a maratona de Boston, terrorismo e ainda mais sobre esperança.

Carol Martines
_____________________________________________________________________________
Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“Não se pode dizer para a primavera ‘tomara que chegue logo e dure bastante’. Pode-se apenas dizer: ‘venha, me abençoe com sua esperança, e fique o máximo de tempo que puder’.” (Paulo Coelho)

Muito (muito mesmo) além do laboratório

Oi, tudo bem?

Essa semana, eu quero te contar mais sobre o que acontece na vida de um cientista de Harvard. Como você já sabe, eu estou trabalhando como pesquisadora por um ano no laboratório do Dr. Joseph Brain, que é especializado no estudo dos pulmões. Contudo, o meu ofício aqui não se restringe apenas ao laboratório, onde eu fico cerca de 60% do tempo que passo na Harvard University. Eu gosto muito do trabalho no laboratório, mas acredito que os outros 40% sejam até mais importantes para mim como cientista, futura médica e principalmente como ser humano. De modo geral, são dois grupos de atividades.

Primeiramente, frequento várias reuniões. Toda terça-feira de manhã, a equipe completa do Laboratório Brain reúne-se religiosamente para discutir resultados, perspectivas e planos para novos experimentos. Como expliquei no post anterior, o time “titular” Brain é composto por 6 pessoas (Dr. Brain, 3 outros pesquisadores, Paulo e eu), mas há vários colaboradores de outros laboratórios dos EUA e do mundo, sendo que alguns destes também frequentam as reuniões a depender do que está em pauta a cada terça-feira.

Em um grupo multicultural de cerca de 10 pessoas absurdamente inteligentes, confesso que nas primeiras reuniões eu era incapaz de acompanhar a maioria das discussões, cujo nível intelectual é surreal. Entretanto, com o passar do tempo (e com muito estudo), atualmente já estou conseguindo entender quase a totalidade das reuniões, e às vezes dou minha tímida opinião. Tá bom, tá bom… se você me conhece, sabe que “tímida” e “Carol Martines” nunca estão na mesma frase, mas meu ponto é que procuro só falar quanto tenho muita certeza. Entretanto, ao contrário do que possa parecer, todos da equipe são muito atenciosos comigo e sempre fazem de tudo para me incluir – em especial o Dr. Joseph Brain, uma das pessoas que eu mais admiro em Boston, de quem falarei mais no futuro.

Gosto cada vez mais dessas reuniões, pois, na minha concepção, é nesse espaço que eu realmente vejo a ciência acontecer. Sendo bem sincera, o trabalho nas bancadas do laboratório qualquer pessoa faz. Desde que bem treinado, qualquer um faz. Pipetar, contar células ao microscópio, preparar soluções, operar ratos e todas as outras atividades do laboratório exigem atenção e graus variáveis de habilidade manual. Mas concordemos que ninguém precisa de um PhD para isso. Por outro lado, perceber o detalhe que todos os outros centros de pesquisa do mundo estão deixando escapar – e que pode salvar milhões de vidas – exige muito, muito brilhantismo intelectual. Gosto de pensar que nas reuniões são feitas as perguntas, e no laboratório são fabricadas as respostas. E o mais precioso e aparentemente paradoxal disso tudo é que o segredo de um pesquisador de sucesso é justamente saber fazer as perguntas certas. As respostas são mera consequência. Tanto que, quanto mais renomado, menos tempo o cientista passa na bancada. Em suma, as reuniões de terça-feira definem o cronograma, os experimentos, as doses de medicamentos, o tempo de incubação – absolutamente tudo que ocorrerá no resto da semana.

Vamos falar do segundo grupo de atividades, que é composto por palestras. Harvard oferece uma infinidade de palestras todos os dias sobre os mais variados temas, e segundo o meu programa de intercâmbio, eu sou “obrigada” (entre muitas aspas) a assistir pelo menos duas palestras de minha escolha por semana. Agora, deixe-me explicar o porquê das aspas: ninguém de fato verifica se os alunos estiveram presentes em cada aula. Contudo, as palestras são tão incríveis que eu acabo assistindo a muito mais aulas do que o mínimo exigido. Simplesmente tenho a chance de aprender com os melhores profissionais não só de Harvard, mas do mundo todo. E ainda tem mais um detalhe que eu não posso deixar de mencionar: a maioria das palestras é acompanhada de muita comida deliciosa e GRÁTIS. Não é exatamente uma chance a se desperdiçar, não é mesmo?

Por exemplo, nas últimas semanas, eu fui a palestras sobre liderança, infecção aguda por HIV, legalização da maconha e “a biologia da consciência”, sendo esta última uma das melhores aulas a que já tive o prazer de assistir na vida. Além dessas, houve uma aula de uma pesquisadora brasileira sobre o vírus da Zika a que eu queria muito assistir, mas não consegui sair do laboratório a tempo. No entanto, isso não foi um problema, já que Harvard é tão de outro mundo que a palestra foi transmitida online e eu pude assistir ao vivo. Imagine só a minha alegria ao descobrir isso! A propósito, você pode ver também se tiver interesse, clicando aqui.

A palestra sobre os impactos da maconha, que é legalizada em Massachusetts, contou com 4 profissionais de médicos a advogados e uma produção digna de televisão

A palestra sobre os impactos da maconha, que é legalizada em Massachusetts, contou com 4 profissionais de médicos a advogados e uma produção digna de televisão

As palestras vão muito além de medicina ou de saúde pública. Na semana passada, tive a honra de assistir a uma aula na Harvard Business School sobre tomada de decisões e riscos. Ao contrário de todas as outras, que são abertas para qualquer aluno, para ter acesso a essa aula em especial era preciso ser convidado. A aula era um misto de exposição, feita eximiamente por um professor genial de MBA da Business School, e discussão de um artigo de 26 páginas que deveria ser lido a priori pelos frequentadores da palestra. Na plateia, entre um grupo seleto de 40 pessoas, um tal de Luciano Huck e nada mais nada menos do que Jorge Paulo Lemann. Sim, exatamente. Apenas o homem mais rico do Brasil. Agora só imagine a riqueza dessa discussão. Quantas pessoas no mundo tem a chance de presenciar esse tipo de evento?

Luciano Huck, meu colega de aula

Luciano Huck, meu colega de aula

Por isso tudo que eu digo e repito: a experiência de ser aluna de Harvard vai muito além das paredes do laboratório. Vai além até de mim e da minha capacidade de absorver tudo isso. Só sei que todas as manhãs, ao mostrar minha carteirinha para a segurança e entrar em Harvard, eu  só penso: “Uau. Isso é mesmo de verdade?”

Jorge Paulo Lemann, um dos empresários de maior sucesso do mundo, com os brasileiros do programa USP-Harvard

Jorge Paulo Lemann, um dos empresários de maior sucesso do mundo, com os brasileiros do programa USP-Harvard

Até semana que vem!

Carol Martines
_____________________________________________________________________________
Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

Tudo o que temos de decidir é o que fazer com o tempo que nos é dado.” (J.R.R. Tolkien)

Você tem dúvidas ou sugestões para o próximo post? Então mande um email para dobandaharvard@gmail.com!

Entre cérebros e pulmões

Oi, pessoal!

No post de hoje, eu vou finalmente parar de divagar sobre clima e política, e responder ao que provavelmente foi a sua primeira pergunta ao começar a acompanhar o blog: afinal, o que eu estou fazendo aqui?

Como você já sabe, fui selecionada para atuar como pesquisadora e aluna por um ano no laboratório Brain, na Universidade de Harvard. Ao contrário do que possa aparentar à primeira vista, uma vez que “brain” significa cérebro em inglês, meu laboratório não tem nenhuma relação com o sistema nervoso: o estudo realizado por aqui é focado nos pulmões. De onde veio esse nome, então? Na Universidade, os laboratórios são nomeados de acordo com os seus P.I.s (sigla para “principal investigator”, o que em um português bem claro seria traduzido como “o chefão”.). Pois bem, o meu P.I. chama-se Dr. Joseph Brain. Agora tudo fez sentido, não é mesmo?

Além do Dr. Brain, o nosso time é composto por mais 3 super pesquisadores: um filipino perfeccionista, Ramon, um indiano muito sério, Nagarjun, e um sueco sempre bem humorado, Tom. Por último, mas de modo algum menos importante, temos um futuro super pesquisador: Paulo, das longínquas terras de Minas Gerais, que é da minha turma na USP e também foi aprovado no mesmo programa. Há também outras pessoas provenientes de outros laboratórios que trabalham conosco como colaboradoras, mas a composição do time Brain é basicamente essa, e fiz questão de ressaltar um dos meus pontos favoritos sobre o meu ambiente de trabalho: a pluralidade cultural. Conviver com pessoas de origens, hábitos, religiões e histórias tão distintos gera um aprendizado constante de uma riqueza inenarrável.

Paulo, meu colega da USP e de Harvard, realizando um experimento

Paulo, meu colega da USP e de Harvard, realizando um experimento

O nosso laboratório – e tenho o maior orgulho em chamá-lo de nosso – tem como principal especialidade o estudo dos pulmões, mais especificamente dos efeitos que substâncias tóxicas a que estamos expostos diariamente provocam em nossas vias aéreas. Para isso, usamos um modelo animal: ratinhos. E sim, isso envolve o sacrifício deles, o que para mim é uma questão ética e religiosa muito extensa e complexa, da qual pretendo falar mais detalhadamente no futuro.

Os experimentos nessa área de toxicologia e fisiologia pulmonar são realizados basicamente de dois modos, sendo o primeiro mais tradicional e o segundo maravilhosamente inovador. De cara, já ficou bem claro qual o meu preferido. O método tradicional envolve introduzir uma substância X pela traqueia do rato anestesiado. Depois de 24 horas, realizamos uma lavagem do pulmão do animal e analisamos diversos parâmetros a fim de avaliar a extensão e o tipo de dano causado. Já a segunda técnica foi desenvolvida e aprimorada nesse mesmo laboratório por alunos que participaram do meu programa em anos anteriores, e é chamada de PCLS (“Precision Cut Lung Slices”). De modo bem simplificado, fatiamos os pulmões do rato em centenas de pedacinhos, que são colocados em uma placa, onde a mesma substância X é aplicada e tem seus efeitos analisados. E por que eu sou tão mais fã do PCLS? É simples: se quisermos avaliar 15 substâncias diferentes usando a primeira técnica, precisamos sacrificar pelo menos 15 animais. Contudo, usando o segundo método, podemos utilizar 15 pedacinhos do pulmão de um único rato – e ainda congelar o que sobrou para experimentos futuros. Não é o máximo?

Você consegue ver esta fina fatia de pulmão flutuando no líquido rosa? É com isso que realizamos o PCLS.

Você consegue ver esta fina fatia de pulmão flutuando no líquido rosa? É com isso que realizamos o PCLS.

Nas primeiras semanas, eu e Paulo passamos por treinamentos nos quais aprendemos a realizar tais técnicas e análises, além de ajudarmos os outros pesquisadores no que podíamos. Também tivemos que ler e estudar muitos artigos científicos da área. Depois de muito preparo, fomos enfim designados aos nossos respectivos projetos, dos quais seremos os maiores responsáveis. E o meu, para minha imensa felicidade, terá o PCLS como carro-chefe.

A felicidade de trabalhar com o que você gosta!

A felicidade de trabalhar com o que você gosta!

Do que consiste esse projeto para o qual eu estou tão empolgada? O que eu faço na faculdade quando não estou no laboratório? E mais importante do que qualquer outra coisa… já parou de nevar em Boston? Essas e outras perguntas terão que esperar até as próximas semanas… mas já adianto que a resposta da última é NÃO, ainda não parou de nevar em Boston!

Neve...em abril!!

Neve…em abril!!

Até breve!

Carol Martines
_____________________________________________________________________________
Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“Toda a nossa ciência, comparada com a realidade, é primitiva e infantil – e, no entanto, é a coisa mais preciosa que temos”. (Albert Einstein)

Você tem dúvidas ou sugestões para o próximo post? Então mande um email para dobandaharvard@gmail.com!