A Era Trump

Olá! Como estão as coisas por aí?

Antes de mais nada, o objetivo do post dessa semana não é fazer propaganda política. Pretendo simplesmente te contar o impacto do governo Trump na vida de uma moradora de Boston, e tentarei me manter o mais imparcial possível.

Logo que a vitória eleitoral de Donald Trump foi anunciada, em novembro do ano passado, vários amigos me perguntaram preocupados como isto afetaria o meu ano em Boston. Naquela época, eu tinha plena convicção de que o novo presidente dos Estados Unidos não teria o menor impacto na minha vida. Afinal, quantas vezes já presenciamos trocas de poder no Brasil que não surtiram nenhum reflexo no nosso cotidiano? Mas desde o primeiro dia em Boston, eu percebi que estava errada. Ah, como eu fora inocente…

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Manifestação logo no meu primeiro dia em Boston

Vamos direto ao ponto: Donald Trump parece estar por toda a parte. É impossível passar um dia em Boston sem ler ou ouvir algo sobre o novo morador da Casa Branca. O estado de Massachusetts, do qual Boston é a capital, é conhecidamente democrata, e Hillary teve uma vitória expressiva por aqui, conquistando mais de 60% dos votos. Logo, não é de surpreender que a população bostoniana esteja bem insatisfeita com seu atual presidente. O que me impressionou, contudo, foi a enorme quantidade de protestos que eu presenciei aqui. Durante os últimos dois meses, foram no mínimo oito protestos. Veja bem, oito protestos vistos por mim, não estou contando todos que ocorreram.

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O mais marcante deles foi no dia 29 de janeiro, quando as pessoas protestavam contra a proibição da entrada nos EUA de cidadãos do Iraque, Iêmen, Irã, Síria, Líbia, Somália e Sudão. Trump também havia suspendido por 120 dias o recebimento de qualquer refugiado. Eu havia saído de casa para passear e me deparei com o centro de Boston completamente tomado por pessoas de todas as idades e origens, protestando de forma pacífica, organizada e, ao meu ver, emocionante.

Crianças, adultos, idosos e até animais de estimação participaram do movimento

Crianças, adultos, idosos e até animais de estimação participaram do movimento

Mas as manifestações contra o governo Trump não se resumem apenas a grandes protestos que fecham as ruas da cidade: a insatisfação é intrínseca às pequenas coisas do cotidiano. Eu estava em uma aula sobre asma no Brigham and Women´s Hospital, quando o palestrante, um médico extremamente conceituado, na frente de uma plateia de mais de 100 pessoas, foi sutilmente mudando o assunto de asma para política e falou abertamente que é preciso lutar para resistir às mudanças impostas pelo novo governo. Lembre-se: era uma palestra sobre medicina!

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Vamos a mais alguns exemplos de que Trump faz parte ativamente das vidas dos moradores dos EUA. O panfleto mostrado na foto abaixo está preso na porta do elevador da Harvard School of Public Health. As top 5 notícias de todos os principais jornais americanos de hoje (The Washington Post, The New York Times, etc) são sobre Donald Trump. O bonequinho mais vendido nas lojas é do atual presidente, desbancando até o super ídolo do futebol americano (e marido da nossa querida Gisele Bündchen) Tom Brady. Toda essa visibilidade tem beneficiado enormemente Ivanka Trump, filha de Donald, cuja marca de roupas epônima registrou recorde de vendas no último mês.

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Em suma, acho que você pode perceber que o presidente Trump definitivamente não passa despercebido, pelo bem ou pelo mal. Realmente torço para que os bostonianos tenham cada vez menos motivos para protestar. No fim, a beleza de tudo isso é perceber que o povo de Massachusetts não assiste calado ao que julga incorreto. Eles se organizam e vão à luta.

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Até semana que vem!

Carol Martines
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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“Na improvável história que é a América, nunca houve nada falso sobre a esperança.” (Barack Obama)

Você tem dúvidas ou sugestões para o próximo post? Então mande um email para dobandaharvard@gmail.com!

A estátua de John Harvard

Oi! Bem-vindo de volta!

Essa semana, vou te contar sobre a estátua de John Harvard e sobre o processo seletivo que me trouxe até Boston. Você deve estar se questionando: mas o que uma coisa tem a ver com a outra? Prometo responder essa pergunta até o final do post.

Comecemos conversando sobre o processo seletivo. Há em média sete laboratórios na Harvard School of Public Health que aceitam alunos da Faculdade de Medicina da USP, por meio de uma colaboração da USP e de Harvard que existe há 10 anos. Seis destes laboratórios realizam seu processo seletivo conjuntamente em junho, a fim de escolher os alunos que participarão do intercâmbio no ano seguinte. Apenas um dos laboratórios faz a seleção individualmente, em julho, pouco depois dos outros seis, mas a estrutura do processo é basicamente a mesma do anterior.

Prédio da Harvard School of Public Health, onde ficam os laboratórios

Prédio da Harvard School of Public Health, onde ficam os laboratórios

A seleção é feita em duas etapas. Na primeira, o aluno precisa preencher uma application por meio de um formulário online, respondendo a algumas perguntas e anexando certos documentos, como o currículo, histórico escolar e carta de motivação (texto no qual o aluno explica porque acha que merece ser aprovado). O aluno também deve, no processo seletivo de junho, indicar sua ordem de preferência entre os seis laboratórios. A grande maioria dos candidatos está no terceiro e quarto anos. É um formulário consideravelmente longo que leva alguns dias para ser submetido.

As applications são então analisadas por uma equipe, que seleciona os alunos que realizarão a segunda fase, com base nos documentos enviados e na média geral do aluno na faculdade (a nota de corte varia entre 7 e 8). Por fim, vem a segunda etapa, que é composta por uma série de entrevistas individuais com professores de Harvard por videoconferência (em inglês, obviamente). Alguns dias depois, chega o tão esperado e-mail com a resposta final e, se esta for positiva, o laboratório a que o aluno foi designado.

No meu caso, eu prestei pela primeira vez em 2014, quando estava no terceiro ano da faculdade. Infelizmente, por motivos que hoje eu não compreendo, eu demorei para decidir que queria mesmo Harvard (quem em sã consciência pode não querer estudar na melhor universidade do mundo?), então perdi o processo de junho e apenas prestei o de julho. Havia somente duas vagas, e eu não passei.

Aquilo me marcou. Por mais que fosse um processo assaz exigente, no qual eu estava competindo com outras pessoas que também haviam passado na Fuvest, eu havia falhado. Contudo, aquilo me marcou de um jeito extremamente positivo, de um modo que só me fez querer ainda mais estar onde eu estou hoje, de uma maneira que me fez lutar muito mais. Então, passei um ano melhorando meu currículo, minhas notas, minha carta de motivação: eu queria tornar impossível eu não ser aprovada. Em 2015, prestei novamente o processo. O resultado você já sabe: fui selecionada, e na minha primeira opção de laboratório.

Naquele mesmo julho de 2014, quando prestei Harvard pela primeira vez, eu vim para Boston visitar grandes amigos, e eles me levaram ao famoso Harvard Yard, no centro do qual fica a estátua de John Harvard (finalmente falamos dela!). Reza a lenda que tocar os pés de John Harvard dá sorte, tanto que as pessoas fazem longas filas para tal. Eu, evidentemente, não pude deixar de seguir a tradição. Naquele dia de verão inesquecível, ao tocar a estátua, eu fiz um pedido. Algumas semanas atrás, assim que cheguei a Boston, um dia de inverno igualmente inesquecível, eu repeti o mesmo ato. Só que dessa vez, ao invés de pedir, eu só consegui agradecer: o meu desejo, voltar pra lá como aluna de Harvard, se tornara realidade.

À esquerda, em 2014, o pedido. À direta, em 2016, o agradecimento.

À esquerda, em 2014, o pedido. À direta, em 2016, o agradecimento.

Voltemos enfim para a pergunta que você se fez logo no começo desse post: o que a estátua de John Harvard tem a ver com o processo seletivo? Eu te respondo com uma só palavra: determinação. E agora, eu me dou ao direito de te perguntar: o que VOCÊ pediria ao tocar a estátua de John Harvard? Qual seu maior sonho? E, acima de tudo, o que você está fazendo para torná-lo realidade?

Até a próxima.

Carol Martines
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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“Façamos o nosso futuro agora, e façamos dos nossos sonhos a realidade de amanhã.” (Malala Yousafzai)

“He gazes for a moment into the future, so dim, so uncertain, yet so full of promise, promise which has been more than realized.” (Descrição da estátua de John Harvard, autor desconhecido)

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Winter is here!

Oi! Tudo bem?

Na semana passada, conversamos sobre o alvoroço acerca da iminente chegada de uma super tempestade de neve. E tenho que te dizer que não foi só alvoroço: a tempestade, apelidada de Niko pelos meteorologistas, avassalou o Nordeste dos Estados Unidos naquela quinta-feira. Praticamente todo mundo foi dispensado da escola ou do trabalho, mais de 4 mil voos foram cancelados, estado de emergência foi declarado em Boston e na Filadélfia, e tristemente um homem até morreu em Nova York enquanto limpava a neve da calçada.

Apesar disso, para mim, a combinação de tempestade de neve com dispensa da faculdade só podia significar uma coisa: guerra de bolas de neve no parque principal da cidade, o Boston Common. Logo, contrariando as súplicas da minha mãe para que eu ficasse em casa (desculpa, mãe!), fui ao parque, arremessei bolas de neve, fiz anjinho, me joguei na neve e tudo o mais a que eu tinha direito. Afinal, a primeira tempestade de neve a gente não esquece!

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Você quer brincar na neve?

A cidade estava completamente parada e branca: parecia a cena de um filme. Foi divertidíssimo nas primeiras horas, mas depois o vento levou minhas luvas embora, o frio de -21 graus Celsius prevaleceu e optei por um cobertor e um chocolate quente.

IMG_8596Essa é a Boylston Street, uma das ruas mais movimentadas e importantes da cidade. No dia da tempestade, nenhum carro passava, e o único movimento era das poucas pessoas felizes e ligeiramente loucas que se divertiam com a neve que se acumulava.

No dia seguinte, as pilhas de neve trazidas por Niko contrastavam com um céu maravilhosamente azul, tornando impossível não pensar naquela velha história de “depois da tempestade, vem a bonança”. Poético, no mínimo. O fato é que a vida durante a tempestade é difícil, mas depois que ela passa, fica ainda pior. A locomoção torna-se muito complicada, as calçadas congeladas escorregam demais, e um trajeto que normalmente eu faria a pé em 10 minutos passa a levar o dobro. A neve demora dias para derreter, e aos poucos a brancura vai dando lugar a uma neve suja e cinza.

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O lindo dia depois da tempestade de neve

Agora, queria dividir com você algumas curiosidades sobre o inverno rigoroso de Boston que me surpreenderam bastante.

#1- Muitas vezes, fica tão tão frio que nem os celulares aguentam e desligam repentinamente por mais carregados que os aparelhos estejam, e não adianta tentar ligar depois. Isso ocorre principalmente aos celulares dos brasileiros – o que não tem absolutamente nenhum fundamento científico, mas pela quantidade de vezes que meu celular já fez isso, tenho certeza que ele é tão fã do verão quanto eu.

#2- Até quando neva em Boston? Aparentemente, ad aeternum. Já estamos no meio de março, e tem neve caindo lá fora nesse minuto. Em 2015, pasme: nevou até maio. Te conto quando parar de nevar, mas tem outra tempestade prevista para essa semana, então ainda deve demorar.

#3- Existem várias “modalidades” de neve. Além da neve clássica, que na minha concepção são os floquinhos de neve caindo e embranquecendo o chão, há o “sleet”: caem flocos de neve, mas estes derretem logo que alcançam o chão; também temos a “freezing rain”, que é o oposto do anterior: caem gotas d’água, tal como chuva, mas ao chegar ao solo, a água congela, o que pode ser muito perigoso. Tudo isso na linguagem daqui, talvez as professoras de Geografia possam verificar a acurácia dessas informações.

No final das contas, considero tudo isso um aprendizado e um privilégio muito grandes. Não posso dizer que amo o frio, mas eu não trocaria essa experiência por nada. Ademais, essa vivência me faz valorizar ainda mais nosso país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza.

Semana que vem, vamos conversar um pouco sobre o processo seletivo de Harvard e o que, afinal, eu estou fazendo aqui além de brincar na neve.

Tome um solzinho por mim e até semana que vem!

Carol Martines

“Quando neva, você tem duas opcões: limpar a neve com uma pá ou fazer anjos de neve.” (Autor desconhecido)

“Nothing burns like the cold.” (George R.R. Martin, A Game of Thrones)

Winter is coming

Oi! Bem-vindo de volta.

A primeira pergunta que 11 em cada 10 amigos me fazem sobre o intercâmbio é tá muito frio?. Logo, nada mais justo do que conversarmos sobre isso também. E a resposta é: MUITO frio.

Eu sempre amei o verão, o sol, o Brasil. Passei 21 anos da minha vida sem ver neve e, apesar de ter sim uma pequena vontade de passar as férias em um lugar com neve, quem em sã consciência trocaria uma praia, um biquíni e um coco gelado por uma montanha fria, 3 casacos e um chocolate quente? Talvez você discorde de mim, mas definitivamente eu não trocaria. Quando contei isso para um dos pesquisadores da faculdade, ele me olhou, sério por fora mas rindo por dentro, e disse: “o que você veio fazer em Boston então?”. Preferi não tentar responder.

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Carolina em seu habitat natural: o mar, a praia e ninguém esquentando a cabeça dela além do sol

Nos meus primeiros dias na cidade, o tempo estava o que os bostonianos chamam de “spring weather” (clima de primavera): temperaturas um pouco acima de zero mas jamais acima de 8 graus e nada de neve pelas ruas – alguém precisa urgentemente ensinar o conceito paulista de primavera para as pessoas de Boston. Todavia, a sensação térmica para o meu corpo acostumado com os nossos deliciosos 30 graus era de que eu estava vivendo dentro do congelador. E, para complicar, o aquecimento da minha casa não funcionava. Em suma, era muito frio, mas dava para sair na rua com um pouco de boa vontade e bom humor. Mal sabia eu que dava para piorar, e muito…

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Como sair de casa no “spring weather”: 2 calças, 4 blusas, bota, luvas, cachecol e gorro

Não nego que a primeira vez que eu vi neve foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida. Foi logo no meu primeiro dia na faculdade. Eu estava em uma palestra de boas vindas aos novos alunos, e um dos responsáveis pelo programa estava discursando lindamente: “Tenho dois conselhos para vocês. O primeiro é: cometam um erro novo todos os dias, e descubram porque o fizeram. O segundo, façam o seu melhor sempre, mas especialmente quando ninguém estiver olhando.” Meus olhos já estavam marejados, já que esses discursos motivacionais mexem muito comigo. Eis que nesse momento o professor para de falar por um instante, olha pela janela, sorri, e continua: “Ah, olhem só. Está nevando. Agora sim, bem-vindos a Boston.” Acompanhei o olhar dele e vi, caindo pelo céu feito mágica, floquinhos de algodão embranquecendo a cidade inteira. Tentei segurar uma lágrima discreta em nome da postura profissional, mas quem disse que eu consegui? Alguns minutos depois da palestra, sai do prédio para sentir a neve, e se apossou de mim uma felicidade tão grande e tão genuína que juro para você que eu nem senti frio. A experiência foi muito marcante, mas em poucos minutos a neve deu lugar à chuva e os flocos presentes no chão derreteram.

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Quando uma foto diz mais que mil palavras: o sorriso de quem está vendo nevar pela primeira vez na vida

E assim se passaram alguns dias: eu, ainda maravilhada com aquela visão da neve, sobrevivendo ao “spring weather”. Até que… chega um e-mail na minha caixa de entrada informando que a faculdade seria fechada no dia seguinte por conta de uma tempestade de neve. Alertas em todos os jornais: os meteorologistas previam uma tempestade que pararia boa parte da costa leste dos Estados Unidos. Uma tempestade tão forte que tinha até nome: Niko. (Lembra do furacão Katrina em 2005? Os americanos gostam de nomear eventos climáticos importantes, e Niko seria um deles.) E o mais assustador de tudo para mim: a sensação térmica chegaria a -21 graus Celsius.

Ao amanhecer do dia 9 de fevereiro, apreensiva, eu não sabia o que esperar. Mas o resto dessa história fica para o próximo post!

Até lá!

Carol Martines

“A primeira neve é como o primeiro amor. Você se lembra da sua primeira neve?” (Lara Biyuts)

“Still… in this world only winter is certain.” (George R.R. Martin, A Dance with Dragons)