Uma questão de sorte?

Indo atrás de histórias de outros brasileiros que estudam no exterior, conversei com Derek, 25 anos. Aluno de medicina da Unesp, está fazendo um estágio de 1 ano no laboratório do Miguel Nicolellis (que, inclusive, é ex aluno do Band) na Universidade de Duke. Como sua história, para mim, é muito inspiradora e, acima de tudo, reforça a ideia de ”dar a cara a tapa” e sempre sonhar grande (sobre o que eu venho falando bastante ultimamente), achei que valia o espaço de um post.

Nicolellis sempre foi, para Derek, uma inspiração. Já havido lido sobre ele e se inteirado sobre seu trabalho quando, em 2012, o neurocientista foi dar uma palestra na faculdade de medicina de Botucatu, onde Derek estuda.
Ao final, entrou na fila de autógrafos, mas, quando chegou sua vez, pediu para conversar com ele em particular. “Sou apenas um aluno do segundo ano e faço iniciação científica só há 6 meses”, disse ele, receoso, mas sabendo que não tinha nada a perder. A empreitada saiu melhor do que o planejado e Derek manteve contato por e-mail com o laboratório do cientista até 2013, quando, viajando para apresentar um trabalho num congresso, aproveitou e passou para conhecer o lab no qual sonhava, um dia, poder trabalhar.

Derek no campus da Duke University

Derek no campus da Duke University

Contato mantido e interesse demonstrado por ambas as partes, em 2014, Derek,então quarto anista de medicina, resolveu que seria um bom momento para ir. Acreditou que o “Ciências Sem Fronteiras” poderia bancar seu estágio, porém, quando o edital para o ano de 2015 abriu, ele se deparou com uma notícia inesperada e desagradável: não haveria mais bolsas para os EUA para alunos de medicina (assim, sem mais nem menos).

É aí que a história fica interessante. Derek simplesmente não aceitou um não como resposta, não se conformou, e foi lutar por um jeito de realizar o que ele sonhava há tanto tempo. Entrou em contato com fundações filantrópicas brasileiras e norte americanas, mas todas afirmavam que ele não se encaixava em nenhum projeto. Recorreu ao crowdfunding, onde você divulga sua causa e pede dinheiro – a idéia é que muita gente se interesse para que, assim, pequenas doações se tornem significativas. Infelizmente, não conseguiu mais do que 4 mil reais, o que o sustentaria por apenas um mês no exterior.

Desesperado, porém não sem esperanças, decidiu que ia apelar até para celebridades. Cogitou até mesmo tentar contato com David Luis, por ambos serem crentes, achou que houvesse alguma chance de conseguir algum apoio financeiro. Essa parte da história pode parecer insignificante “nossa Carol, mas por que você tá contando isso?”. E eu respondo, sem pensar duas vezes: estou contando isso para mostrar o quanto o Derek, em momento algum, não teve medo de se arriscar, de ouvir um não (ou vários deles), o quanto ele não deixou de acreditar, mesmo quando a batalha parecia perdida (afinal o jogo só termina quando acaba, não é?).

Até que, um dia, foi a um almoço da empresa em que sua mãe trabalha e conheceu Thiago*, um empresário coincidentemente também muito interessado no trabalho do Nicollelis. Contou resumidamente da sua situação e viu que a história tinha causado comoção. Uma semana depois, foi chamado por Thiago para uma reunião. Revoltado com a situação (‘’como um aluno poderia perder uma oportunidade dessas” dizia), se ofereceu para pagar os estudos de Derek no exterior. Derek conta que Thiago, assim como ele, é um cara idealista e sonhador, muito interessado em saúde e educação e com o desejo não de sair do Brasil, mas sim de tornar o Brasil um lugar melhor. Essa reunião aconteceu no começo de janeiro de 2015, aos 47’ do segundo tempo e é assim que Derek está, hoje, há 6 meses estagiando no laboratório do famoso neurocientista. Sim, eu sei que muitos vão me dizer que ele teve sorte e, para vocês, eu respondo com uma famosa frase do Senna: “quanto mais eu treino, mais sorte eu tenho”.

*o nome foi mudado para manter a privacidade

Ciência e fé: choque ou conciliação?

Infelizmente, já ouvi de algumas pessoas, falando com “todas as letras”, sobre um preconceito/estigma na sociedade de que “religião é coisa de gente pobre e burra”. Vim para Harvard sem saber muito o que esperar em relação a isso. Num ambiente de “elite social e intelectual” do mundo, altamente científico, racional e objetivo: ainda assim haveria espaço para fé e religião? Seria possível conciliar a fé com a razão? Para minha surpresa, me deparei com um expressivo e respeitoso movimento de estudantes e professores em torno deste tema!

Basicamente, pude observar duas características bem importantes no ambiente em que estou: “fé não é um taboo” e “respeito/receptividade”.

Em primeiro lugar, pude ver por aqui um esforço e um movimento ativo para assegurar que o assunto religião não seja um taboo. Um dos maiores exemplos que encontrei disto foi um fórum promovido no qual dois de seus professores falariam abertamente sobre suas experiências religiosas, permitindo que os alunos enviassem suas perguntas simultaneamente. Uma das primeiras frases que o organizador do fórum falou foi que “a proposta não era ser um debate para ver qual religião era a melhor mas, sim, uma conversa para suscitar questões importantes e ouvir diferentes pontos de vista”. Foi uma experiência bem interessante, principalmente para os alunos, que puderam ouvir e interagir com os seus próprios professores de Harvard explicando o papel que a fé tem na vida deles.

Um argumento de um dos professores que chamou a minha atenção foi que “a ciência é empírica, baseada em evidências; e a fé, também” (por mais que pareça contraditório)! Por exemplo, um dos princípios básicos da Física é a lei da gravidade, que foi descrita mediante a observação de fenômenos visíveis (alusão à “maçã de Newton”), mas a gravidade propriamente dita nunca ninguém viu…o que podemos observar são apenas os efeitos e as “ações” dela. A mesma coisa acontece com a fé: por mais que não possamos ver a Deus ou o mundo espiritual propriamente dito, nós podemos observar visivelmente os efeitos e as ações dele e as “leis invisíveis” que atuam no mundo físico/concreto, assim como a gravidade. Aliás, dado que “fé é a certeza daquilo que se espera e a prova daquilo que não se vê”, até mesmo para acreditar que a gravidade existe é preciso ter fé, não é mesmo? A “fé científica” e “religião empírica” parecem ter uma argumentação válida.

Um outro argumento que também achei muito interessante foi a comparação entre a fé e a matemática. Muito – aliás praticamente tudo – do nosso mundo tecnológico de hoje só existe porque a matemática existe. Não há dúvidas de que a matemática funcione muito bem mas, para começar a construir uma linha de raciocínio em cima dela, é necessário assumir algumas premissas iniciais que, até hoje, nunca ninguém conseguiu provar (quem entende bem de matemática sabe bem do que estou falando). O mesmo acontece com a fé. Há algumas suposições iniciais que não são provadas, mas há muito que pode ser construído a partir delas que permite a construção de um “mundo” com funcionamento muito bom!

O segundo ponto que achei digno de nota foi o respeito e receptividade à discussão, a ouvir outros pontos de vista. Um grande exemplo do qual participei foi um grupo chamado GIG (Groups Investigating God) que todo semestre se organiza em diferentes “unidades” da Harvard – por exemplo, Business, Law, Medical, Education Schools. São alunos que se encontram 1 vez por semana durante 4 semanas para discutir sobre “temas importantes na vida”, tomando como ponto de partida uma história da Bíblia. O grupo, porém, é composto por pessoas com todo e qualquer ponto de vista – desde cristãos e muçulmanos até ateus e agnósticos. A proposta é criar um ambiente livre de pressão, para que todos se sintam à vontade de questionar e suscitar dúvidas. Ouvir e compartilhar, sem querer convencer os outros do seu próprio ponto de vista, é uma experiência extremamente enriquecedora!

Bom, ao que tudo indica, até mesmo na minha vivência em Harvard, ter uma “fé que pensa” e uma “razão que crê” é perfeitamente possível!

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Conversa de bar

Na onda do sonhar é preciso, aqui é a terra das oportunidades e do não deixe ninguém te dizer que você não é capaz, eu lhes apresento conversa de bar.

Como eu disse em “vamos nos permitir”, toda quinta eu vou ao mesmo pub, onde um toca um cantor que eu adoro. Com o tempo, fui ficando amiga dele e, na última quinta, passamos uma hora conversando depois que o show terminou. A história dele é simplesmente incrível e digna de um post.

Filho de pai que passou quase toda a vida na cadeia, foi o primeiro dos 9 filhos a fazer colegial. Quando perguntei dos irmãos, ele me disse que todos já foram, pelo menos uma vez, presos – inclusive ele. Apesar de qualquer dificuldade e de assumir não ser nenhum santo, afirma que sempre gostou muito de estudar.

Quando tinha 10 anos, seu tio perguntou o que ele gostaria de ganhar de natal, ao que ele respondeu “um kit de química”. Seu tio, surpreso, disse “where the hell do you expect me to steal a chemistry kit?”. Como ele é muito piadista, todo mundo achou que fosse brincadeira, mas ele garantiu que não era não. Seu tio completou “I know where to steal a guitar, so that´s what you are getting for Chritsmas”.

E foi assim que ele começou a tocar, sem nenhum músico na família, sem nunca ter imaginado isso para ele antes. Logo viu que levava jeito e começou a se dedicar a isso. Quando tinha a minha idade, já tocava em bares e tinhas alguns shows para dar. Resolveu, então, que seria isso que ele faria da vida. Imediatamente ouviu que seria impossível ganhar a vida sendo cantor de bar.

O tempo passou, mas seu gosto pelos estudos, não. Quando completou 60 anos, decidiu que gostaria de entrar na faculdade. Mais uma vez, foi desencorajado a tentar e ouviu que já era tarde demais.

nós com as nossas carteirinhas de Harvard - ou como ele costuma brincar "just us Harvard kids hanging out together"

nós com as nossas carteirinhas de Harvard – ou como ele costuma brincar “just us Harvard kids hanging out together”

Hoje, com 61 anos, está cursando Harvard college com major em biology e minor em math; está casado, com casa própria e carrão e afirma jamais ter feito qualquer outra coisa para ganhar a vida além de cantar e tocar.

Por isso que eu digo, “vamos nos permitir”. Se eu não tivesse me permitido frequentar o bar na quinta feira, não teria ouvido essa história tão inspiradora. E, não preciso nem dizer né, não deixem que ninguém fale do que vocês são ou não capazes.

 

Pride and Prejudice (Orgulho e Preconceito)

A fase de vestibulares já chegou pro 3o ano e, com ela, a fase de ficar ainda mais esperto para escrever sobre os mais diversos temas nas redações. O ENEM há algumas semanas atrás escolheu um tema um tanto ousado: “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”. Não estou no Brasil, mas minha “timeline” no Facebook foi inundada por comentários com as mais diversas reações, a maioria delas bem “contundentes”. Mas por que incomodou tanto? Um tema importante, polêmico, atual e, infelizmente, às vezes ainda um taboo…mas arrisco até dizer que talvez um dos motivos pelos quais tenha incomodado tanto é porque muitos alunos não sabiam o que escrever, não tinham substrato suficiente pra argumentar…alguns foram “pegos de surpresa” pois simplesmente nunca param para pensar sobre este tipo de questão. Vestibulandos estão geralmente preparados para escrever sobre fontes de energia sustentáveis, prontos para relacionar o tema com “O Auto da Barca do Inferno” ou para fazer inferências citando Thomas Hobbes…Mas será que o tema da redação de outros vestibulares também terá a tendência de fugir do “clássico” e será tão “ousado”? Achei excelente o ENEM ter suscitado este tipo de discussão que se não se restringiu apenas aos “aspirantes a universitários” que prestaram a prova, mas que também se estendeu pra todo o resto da “rede social” – interessados ou não no tema. É bom, sim, que nós brasileiros – estudantes ou não – não vivamos alienados ou ingênuos, mas que tenhamos ciência dos problemas que nossa sociedade e o mundo ainda enfrentam. É bom estar inteirado do que tem acontecido, tomar referências e buscar substrato para sustentar as próprias opiniões sobre temas importantes e taboos, independente da necessidade de ter que se preparar para escrever uma redação no vestibular sobre isso.

Toda esta discussão me fez pensar em um assunto ainda muito delicado aqui nos EUA, mas que é igualmente importante: o preconceito racial. Se nos EUA tivesse ENEM, um tema de redação que teria igualmente um potencial para causar tanta polêmica seria “A persistência da discriminação racial na sociedade americana”. Da mesma maneira que, na teoria, a violência contra a mulher não deveria mais existir no Brasil mas, na prática, ainda existe, a discriminação racial nos EUA também.

Infelizmente, aqui ainda se vê o tipo de “discriminação afrontosa” – vide vídeo abaixo, com uma reportagem acerca da agressão racial por policiais:

https://www.facebook.com/jornaldaband/videos/429767100561381/?fref=nf

Porém, na maior parte das vezes a discriminação não é afrontosa, mas sim silenciosa e indireta. Por exemplo, recentemente uma americana estava me contando que é ainda é bem frequente quando há um negro dirigindo um carro, sozinho, em um bairro de brancos, ser parado pela polícia, a título de “apenas checar se está tudo certo”. Ainda mais discreta e indireta (mas também igualmente presente), é a discriminação socio-espacial. Explicando melhor: há um parque perto da minha casa em que há um campo enorme (com infra-estrutura para esportes como baseball, lacrosse, rugby) e duas quadras de basquete. Para aqueles que são minimamente observadores como eu, pode-se ver uma “sutil” segregação: no campo sempre há mais de 90% de brancos e, nas quadras de basquete, mais de 90% de negros. O campo e as quadras são DO LADO uma das outras…brancos e negros não brigam, não se xingam, não impedem que cada um jogue onde quiser, não há nem um “confronto direto”… mas eles silenciosamente ainda hesitam em se misturar e se engajar na mesma atividade! Talvez isto também ainda reflita um pouco do histórico conturbado da escravatura dos negros nos EUA: esportes como lacrosse, baseball, rugby, por exigirem mais equipamentos e infra-estrutura, eram considerados esportes dos “brancos ricos”…enquanto esportes como basquete, futebol, eram mais acessíveis à toda a população e, portanto, os negros também poderiam jogar. É claro que, muito felizmente, hoje em dia não é mais assim! Mas será que, na prática, ainda não vemos alguns traços discretos desta antiga divisão, como o exemplo do parque?

Além de toda esta questão sobre o tipo de discriminação (“afrontosa” vs “silenciosa”), é ainda mais intrigante que o “discriminado” e o “discriminador” podem ser pertencentes a qualquer uma das raças. Sendo mais clara, não há apenas um preconceito por parte dos brancos com os negros, mas também um preconceito por parte dos negros com os brancos (e este conceito aplica-se a qualquer outra raça também…estou falando mais sobre brancos e negros simplesmente porque aqui é mais comum ter contato com situações como essas). Fiquei chocada ao ouvir de uma amiga americana uma outra história que aconteceu recentemente: uma conhecida dela é uma professora branca e ensinava numa escola cuja maioria dos alunos é negra…em uma reunião de pais, ela foi abordada pelos pais de 3 de seus alunos…eles simplesmente pediram a sua saída pois não queriam que os filhos deles fossem ensinados por uma professora branca!

Isto tudo me remete ao famoso drama “Orgulho e Preconceito”, da escritora britânica Jane Austen. Não era apenas a sociedade aristocrática do início do século XIX na Inglaterra que enfrentava o dilema “afinal, quem é o orgulhoso e quem é o preconceituoso?”…nós também enfrentamos! Minorias também se tornam preconceituosas e orgulhosas contra as “preconceituosas e orgulhosas” maiorias. Como vi em comentários sobre o tema do ENEM na semana passada, muitas feministas, na luta a favor da “igualdade entre gêneros”, se tornam preconceituosas e orgulhosas contra os homens. Muitos negros, na luta a favor da “igualdade entre gêneros”, se tornam preconceituosos e orgulhosos contra os brancos. Muitos homossexuais, na luta a favor da “igualdade entre opções sexuais”, se tornam preconceituosos e orgulhosos contra os heterossexuais. Muitos pobres, na luta a favor da “igualdade social”, se tornam preconceituosos e orgulhosos contra os ricos.

Machistas e Feministas, Brancos e Negros, Homossexuais e Heterossexuais, Ricos e Pobres, e por aí vai: quem são os preconceituosos e quem são os orgulhosos? Já pensou nisso? Quais são os seus “orgulhos e preconceitos”? Quais são os “orgulhos e preconceitos” do contexto social no qual você está inserido? Quais são os “orgulhos e preconceitos” que o nosso mundo como um todo está vivendo? É bom pensar nessas coisas…não apenas porque pode cair como tema de redação de algum vestibular… mas será que talvez pensar sobre isto também não faça parte da solução desses problemas?