Complexo de vira-lata

Como eu já disse antes, meu intercâmbio se trata de um ano trabalhando em um laboratório em Harvard para termos um experiência mais aprofundada em pesquisa. Sendo assim, trabalho com muitos post docs e gente, em teoria, academicamente mais experiente que nós, alunos de graduação.

Quando eu conto para as pessoas, é comum ouvir “só tem gente muito boa trabalhando com você né?” ou “nossa, você consegue acompanhar?”. Essas duas frases exemplificam os dois assuntos sobre os quais eu quero escrever nesse post: o “complexo de vira-lata” do brasileiro e o fato de que, sim, até em Harvard tem gente não tão boa assim (eufemismo, por educação).

Como disse o dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues, o brasileiro se coloca, muitas vezes, numa posição de inferioridade frente ao resto do mundo – e a isso deu o nome de “complexo de vira-lata”. A expressão foi criada depois que o Brasil perdeu a copa de 50 para o Uruguai em pleno Maracanã e, a partir de então, foi usada em outros contextos. Ou como disse Guga, o tenista, em seu livro: “no Brasil, de maneira geral, convivemos com o hábito de depreciar nossas habilidades e nossos valores”, contando que, uma vez número 1 do mundo, tinha certa dificuldade em acreditar no seu sucesso, em acreditar que ocupava mesmo aquela posição.

Como assim “você está acompanhando?”. Óbvio que eu estou, e muito bem, obrigada. A gente não é menos capaz que ninguém aqui. É como a Syl disse no último post, é necessário ser humilde, mas, ao mesmo tempo, a gente tem que “se achar” um pouco. A gente tem que confiar em nós mesmos e saber que, sim, somos tão capazes quanto sonhamos ser. A gente não só é capaz como, muitas vezes, se destaca aqui entre os americanos e outros estrangeiros.

O outro ponto acaba se confundindo um pouco com esse. Talvez seja até uma relação de causa e consequência. A gente, talvez um pouco pelo “complexo de vira-lata”, acaba achando que tudo no exterior é melhor, que em Harvard só tem gente muito boa. Mas não é assim não. Às vezes a gente até se pergunta “o que essa pessoa está fazendo aqui?”. Ai eu penso que Harvard é ótima, sim, palestras incríveis, aulas excelentes, alunos dedicados, mas, de uma forma ou de outra, é uma instituição como outra qualquer e, portanto, tem pessoas como outras quaisquer.

No meu laboratório, por exemplo, tem alguns que não entendem nem inglês direito. Só para exemplificar o nível do inglês (ou a falta de nível), vou contar uma história. Nosso mentor foi apresentar um palestrante para uma post doc do lab e disse “she already has 2 papers”, ao que ela respondeu “no, only one baby”. Ela confundiu “baby” com “paper” e nem ao menos se perguntou por que raios o palestrante iria querer saber quantos filhos ela tem.

A outra post doc nunca organiza os materiais antes de começar um experimento. Ai chega no meio e ela percebe que não tem o suficiente de X ou Y. Seria mais ou menos como começar a fazer um bolo sem checar se você tem farinha ou o número suficiente de ovos.

Óbvio que tem muita gente extremamente competente, que temos aulas incríveis, que, em vários aspectos, eles estão muito a frente do que nós. Mas não é por isso que a gente tem que se achar menos ou se iludir que por aqui tudo é perfeito.

Acho que como recado desse post ficam duas mensagens: se você vem ou pretende vir fazer um intercâmbio, espere encontrar problemas e coisas ruins, não se iluda que aqui tudo é perfeito. Mas, mais do que isso, acredite em você, não deixe ninguém te diminuir ou dizer que você não pode, que você é menos. Sonhar é preciso e, para realizar os sonhos, acreditar e confiar em nós mesmos é necessário.

Outono na Nova Inglaterra

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Chegou o outono! Folha secando “de fora pra dentro” (eu pelo menos achei legal pois nunca tinha visto isso no Brasil)

Para quem não sabe, Boston e suas redondezas pertencem a uma região dos EUA conhecida (informalmente) como a “Nova Inglaterra”… isto é devido tanto ao background histórico (muitas destas cidades foram colonizadas por ingleses) quanto ao contexto atual: o clima, o jeito das pessoas, muitos traços de cultura e várias outras coisas que remetem à “Inglaterra Clássica”. Uma das coisas que mais me surpreendeu por aqui é como as pessoas gostam de manter as tradições e, ao mesmo tempo, incorporá-las aos novos costumes. Não sei porque, mas especialmente agora no outono várias destas tradições específicas vieram à tona. Decidi fazer um post sobre tudo isto pois, além de apresentar algumas “curiosidades” que (assim como eu) muitos brasileiros não sabiam que existiam, também acredito que estes são os tipos de detalhes que ninguém vai parar pra contar aos outros, a menos que exista um blog sobre o seu cotidiano e suas experiências – o que é o caso rsrsrs… Estas experiências são o tipo de coisa que fazem um intercambista “abrir a cabeça” e descobrir a existência de um mundo com coisas que jamais passaram pela sua cabeça.

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Apple Picking!

Há alguns fins de semana atrás participei de uma das atividades favoritas dos moradores da “Nova Inglaterra” no outono: o “apple picking”! Eu nunca tinha ouvido falar disto no Brasil…mas basicamente o “apple picking” (traduzido como “colheita das maçãs”) consiste em reunir os amigos para – obviamente – colher maçãs (rsrsrs). Num primeiro momento parece algo bem estranho, mas na verdade é bem divertido. Nesta época da colheita, os produtores de maçãs abrem suas fazendas para visitação e consumo. Na entrada, você paga pelo tamanho da sacola na qual você vai colocar as maçãs que colher pra levar e, enquanto estiver colhendo, pode comer quantas maçãs quiser. É bem legal, há inúmeros tipos diferentes de maçãs e é uma experiência única comer uma fruta que acabou de ser colhida naquele exato momento, além de se divertir com seus amigos.

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Crianças brincando nas abóboras

Além das maçãs, é também época das abóboras. Há abóboras em TODOS os lugares. Abóboras dos mais diversos tipos e tamanhos. Além do famoso “pumpkin craving”, as crianças também amam brincar com as abóboras.

 

 

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Caramelized apple cider donuts

Além do divertido “apple picking”, também tive a oportunidade de experimentar os tradicionais e deliciosos “caramelized apple cider donuts”. O “apple cider” é tipo um suco de maçã mais concentrado (já que há TANTA maçã, os americanos têm que inventar vários jeitos de dar vazão a elas). Os donuts normais já são uma delícia…mas estes são ainda mais especiais, pois são regados a apple cider e cobertos por uma calda de caramelo deliciosa. É uma sobremesa “sazonal” (assim como o Panettone no Brasil).

Conheci também as Alpacas – animais bem estranhos que parecem uma mistura de girafa com poodle:

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Como se não bastassem tantas experiências novas e diferentes quanto a programas e comidas, algo que me chamou MUITO a atenção foi a beleza espetacular da paisagem. Além do clima que, pra mim, é perfeito (um friozinho gostoso, “a la Campos do Jordão”), as folhas ficam em tons bem vivos de amarelo, laranja e um vermelho-rosado, mas são cores que eu nunca tinha visto em folhas no Brasil. No fim de semana fui para um acampamento que ficava mais ao norte (onde as árvores começam a mudar de cor mais cedo) e, lá, presenciei uma das paisagens mais bonitas que já vi em toda minha vida. Aí vão algumas fotos pra mostrar do que eu estou falando:20151010_174419-01FB_IMG_144461794622320151010_174833FB_IMG_1444715611045

É uma beleza estonteante!

Bom, se existe apple picking, pumpkin craving, apple cider donuts e folhas vermelhas na “Inglaterra Clássica” eu não sei… mas sei que isto tudo na Nova Inglaterra faz este lugar ser apaixonante!

Do mundo a Harvard

Tenho recebido algumas perguntas do tipo mas, Carol, eu não faço a mesma faculdade que você, há outros meios de chegar em Harvard/nos EUA?; Há alternativas se a minha faculdade não tiver nenhum programa como a sua?. Pensando nisso, resolvi ir atrás de outros brasileiros que moram aqui nos Estados Unidos, que fazem ou fizeram intercâmbio, não só em Harvard, mas em outras faculdades e contar a história deles.

Vou contar, nesse post, a história de dois meninos que, cada um da sua forma, acabaram em Harvard.

Yuri, hoje com 28 anos, começou cedo seu percurso até aqui e jamais imaginou que o desfecho seria esse. Joga tênis desde os 13, quando morava em uma academia no interior de São Paulo. Em 2004, com 17 anos, conseguiu uma bolsa para jogar e morar em Murray (Kentucky). Começou, então, seu undergrad, com major em biologia e minor em computer sciences.

Yuri jogando tênis pela sua universidade

Yuri jogando tênis pela sua universidade

Aqui cabe um parênteses para explicar, mais ou menos, como funciona o sistema de ensino nos Estados Unidos. Acabando o high school, o próximo passo é fazer o College, onde você escolhe um major e um minor. São 4 anos e, depois disso, você pode ou não escolher fazer um grad. Se essa for a escolha, você tem que passar pelo processo de seleção de novo. Com medicina, por exemplo, são 4 anos de undergrad e 4 de grad (a medical school propriamente dita).

Ele conta que, no final do 3º ano, já sabia que não seguiria a carreira de tenista. Quando se formou, foi para a Universidade da Flórida fazer um P.H.D. em bioquímica. Durante o P.H.D., percebeu que o assunto “ doenças e sintomas” lhe trazia muito mais interesse do que bioquímica propriamente dita. Decidiu, então, que queria entrar na faculdade de medicina. Assim, começou a se dedicar a certos pré requisitos que ele sabia que dele seriam exigidos para ter sucesso.

Aqui cabe outro parênteses. O sistema de seleção deles é bem diferente do nosso. Não existe o tão temido vestibular. Existe, sim, uma prova, o MCAT, mas não é a única coisa. É um sistema mais completo, em que seu histórico escolar é analisado, assim como atividades extracurriculares. Um personal statement (uma espécie de carta motivacional) também é exigido. A fase final é uma entrevista. No caso de Harvard, 7 mil pessoas, mais ou menos, se inscrevem, das quais 900 em média são chamadas para entrevista e, apenas 160 são selecionadas.

Yuri conta que, para se preparar, se dedicou a atividades como trabalho voluntário e acompanhar médicos no hospital, mas acha que o fato de ter feito um P.H.D. ajudou muito, pois, segundo ele, o foco da Harvard Medical School é mais medical research (pesquisa) e não tanto primary care (clínica) Na entrevista, conta que foi valorizado o “de onde ele veio e onde ele chegou”, o salto que ele deu. Hoje ele está começando o segundo ano dos 4 da medical school, se considera adaptado e não pensa mais em voltar ao Brasil. Quando perguntado sobre as dificuldades, diz que, no começo, pensou muitas vezes em desistir, principalmente quando morava em Kentucky, onde acredita que havia bastante preconceito.

Igor, 22 anos, nasceu em Vitória e, atualmente, mora no Rio de Janeiro, onde faz medicina na Universidade Federal Fluminense. Terminou o 3o ano da faculdade e conseguiu uma bolsa pelo “Ciências Sem Fronteiras” para vir estudar nos Estados Unidos. Pelo programa, não é possível escolher a universidade, apenas o país em que se vai estudar; Igor foi selecionado para passar um ano em Reno, na Universidade de Nevada.

Aqui, era aluno de undergrad, então não podia escolher matérias da medical school. Como sempre se interessou por saúde pública, mas nunca teve muito espaço para se dedicar a tal no Brasil, achou que aqui seria uma boa oportunidade. Escolheu, então, matérias como Introdução à saúde coletiva, epidemiologia e ‘American health system: management and admnistration’.

Aqui cabe, também, um parênteses para contar um pouco do que ele me contou sobre o undergrad. É bem diferente do sistema brasileiro; aqui a carga horária em sala de aula é menor e os professores pedem que os alunos já leiam o conteúdo do dia antes, para que cheguem preparados para discussões em sala de aula. O guideline diz que para cada hora de aula em sala de aula é exigido 2 horas de trabalho/estudos em casa.

Igor na Universidade de Nevada

Igor na Universidade de Nevada

Chegando em maio, quando acaba o ano letivo, o “Ciências Sem Fronteiras” tem como opção manter as bolsas para um estágio de verão. A questão é que o programa não ajuda os alunos a encontrar um estágio, apenas fornece as bolsas, cabendo ao aluno conseguir o estágio. Entrou em contato com professores, secretarias de saúde e pesquisadores e foi indicado pelo seu professor de epidemiologia, por ter se destacado no curso, para fazer um estágio de verão em pesquisa aqui em Harvard (uma revisão sistemática sobre aids nos adolescentes no Brasil).

No final da entrevista, contando um pouco sobre suas impressões e sentimentos, Igor relata que nunca se imaginou chegando onde chegou e que, talvez a sua maior lição seja que “tendo iniciativa dá para conseguir muita coisa”. Disse que aprendeu a acreditar, a ser proativo, a “dar a cara a tapa”. “E dai que nenhum amigo seu tá fazendo isso?” disse ele sobre a coragem de se arriscar, ao que completou com “se você quer chegar longe, tem que pensar antes da massa, ter atitude e não ter medo de quebrar a cara”. No fim, completou a entrevista com uma frase que eu sempre uso “você cria suas oportunidades”.

e, depois, em Harvard

e, depois, em Harvard

São duas histórias bem diferentes mas com uma mensagem parecida: é preciso acreditar, se arriscar, ter iniciativa, sonhar grande. Nunca deixem que te digam que é difícil demais. A gente precisa desistir do medo; até para errar é preciso coragem. Ou como disse Mia Couto: “Uma coisa eu aprendi na vida, quem tem medo da infelicidade nunca chega a ser feliz”.

O que você está fazendo aí?

Já fizemos vários post sobre os mais diversos e curiosidades que se passam na vida de um intercambista…mas muitos ainda devem estar se perguntando: “mas, afinal, o que você faz aí em Harvard?”. Por isto, este post é para esclarecer aos curiosos que tipo de coisa fazemos por aqui.

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Trabalhando no laboratório

Como já dito antes, eu e a Carol estamos passando 1 ano como intercambistas-pesquisadoras no departamento de Environmental Health (Saúde Ambiental) da Harvard School of Public Health (Escola de Saúde Pública de Harvard). Cada uma de nós trabalha em um laboratório diferente, no qual há uma equipe composta por: um PI (Principal Investigator – vulgo “chefão”), PhDs (Pós Doutorandos), pesquisadores associados e nós (intercambistas). Nem todos os laboratórios aceitam intercambistas e, em geral, todos os labs têm mais de 1 PhD.

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Trabalhos “in vivo” com ratinhos

No início do ano, nós recebemos vários treinamentos com os PhDs e com os pesquisadores associados para aprendermos os procedimentos realizados no laboratório. Aprendemos desde como pipetar corretamente e protocolos de segurança para radiação e risco biológico até mesmo como executar experimentos envolvendo reações enzimáticas, contagem e diferenciação celular e cirurgias em ratinhos. Conforme o tempo vai passando, nós vamos aprendendo mais minuciosamente cada uma das etapas, adquirindo segurança e conquistando a confiança dos pesquisadores. Hoje nós já temos autonomia e experiência suficientes para realizarmos os experimentos sozinhas. Os projetos em si variam de laboratório para laboratório, mas estas são regras gerais para todos.

Particularmente no meu laboratório, os temas envolvem estudos com toxicidade, imunologia e pneumologia. Desde o início do ano eu tenho trabalhado em 2 projetos maiores: o primeiro envolvendo “toxicidade em PCLS” e o segundo envolvendo insulina inalável.

Deixe-me explicar melhor:

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Técnicas de análise de metabolismo celular “in vitro” e “ex vivo”

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Demonstração de um dos resultados de testes de metabolismo celular que fizemos. As unidades mais escuras continham células com menos Zinco – e, portanto, mais células vivas – e as unidades mais claras, células que sofreram mais pela toxicidade do Zinco.

O PCLS (Precision Cut Lung Slices) é uma técnica de estudo utilizada em toxicologia, na qual pulmões de ratinhos são cortados por uma máquina (chamada “vibrotome”) em fatias bem finas (250µm). Posteriormente, são feitos estudos com as fatias para avaliar como o tecido se comporta diante de diferentes concentrações de substâncias tóxicas. No caso do meu laboratório, o tóxico mais utilizado é o ZnCl2 (cloreto de zinco) e o laboratório tem um histórico de grande experiência com Zinco. O PCLS é extremamente vantajoso pois permite que apenas um pulmão forneça inúmeras fatias que podem ser utilizadas para diferentes concentrações tóxicas e vários testes. Este princípio de estudo é chamado “ex-vivo“: um meio termo entre estudos “in-vivo” (com animais vivos) e “in-vitro” (com cultura de células). Estudar o tecido inteiro é melhor do que estudar apenas um tipo de célula in vitro pois simula melhor as interações entre os diferentes tipos de células e considera também o meio em que as células estão inseridas. Este método ex vivo é melhor também que o in vivo no que se refere à quantidade de animais: enquanto no método ex vivo apenas um ratinho fornece material para incontáveis testes, se fôssemos fazer os mesmos testes in vivo considerando um teste para cada ratinho, teríamos que usar centenas deles.

Na prática do dia a dia, o meu trabalho vai desde sacrificar um ratinho (sim, tudo é feito eticamente conforme as leis de defesa dos animais), insuflar seu pulmão com agarose, até trabalhar com as fatias dos pulmões, incubando-as em placas de petri com ZnCl2 (cloreto de zinco) para avaliar o comportamento diante de diferentes concentrações. Isto exige muito tempo e paciência pois as análises têm de ser feitas calculando um tempo pré determinado (24h, 6h, 4h, 2h, 1h) e muito cuidado com as fatias, que são bem sensíveis e, se não tratadas com o devido cuidado, podem ser contaminadas com bactérias ou simplesmente morrer pelos mais diversos fatores. Mas no final do dia, é bem satisfatório conseguir ler os resultados e ver que os testes realmente funcionaram. Agora mais para o final do ano, estamos em vias de publicar um artigo científico com o nosso aprimoramento desta técnica do PCLS.

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Fisico-Química: sim, vc ainda vai utilizá-la mesmo que faça medicina!

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Contagem diferencial de células com as lâminas que fizemos a partir dos experimentos “in vivo” com os ratinhos

O outro projeto (e que eu pessoalmente acho até mais legal) é com insulina inalável. Sim, insulina, essa mesma que é usada para diabéticos, ao invés de ser administrada com injeções subcutâneas (como classicamente é), agora também está sendo disponibilizada por via inalável (um mecanismo parecido com a “bombinha” para asmáticos). Imagine só como deve ser maravilhoso para um diabético poder trocar suas injeções diárias por uma “bombinha”! Pois é, é justamente por isto que fico tão empolgada com este projeto…tem um impacto direto na qualidade de vida dos pacientes! Na verdade esta “bombinha” de insulina já foi aprovada e disponibilizada para uso clínico, mas alguns médicos (e pacientes) ainda se sentem um pouco receosos em utilizá-la devido ao fato de ser um medicamento novo e, portanto, ainda sem muito background de pesquisa para comprovar seus potenciais efeitos adversos. E é justamente aí que entra a nossa pesquisa. Fizemos um projeto bem grande envolvendo mais de 100 ratinhos, nos quais duas vezes por dia fazíamos instilações intra-traqueais de insulina (o equivalente à simulação da “bombinha” para os humanos…a “grosso modo” isto significa chegar ao pulmão de cada ratinho pela boca com uma agulha comprida de ponta circular e injetar a insulina com uma seringa acoplada à agulha diretamente dentro do pulmão). Isto requer uma logística bem organizada e muita atenção pois, além do risco do procedimento em si, para fazer estas instilações os ratinhos têm de ser anestesiados e a anestesia pode gerar uma depressão respiratória grande…ou seja, eles podem morrer durante o procedimento…e fazer isto cerca de 40 vezes por dia exige muito esforço e trabalho em equipe. Ao final de 12 dias repetindo o procedimento 2x por dia (sim, isto inclui um fim de semana trabalhando a cada “batelada” de experimento), os ratinhos foram sacrificados e nós coletamos amostras de plasma e soro do sangue deles e – o mais importante – enviamos os pulmões para análise metabolômica. Esta análise consiste em avaliar se os produtos do metabolismo (funcionamento) dos pulmões foi diferente entre os ratinhos que receberam doses mais altas ou mais baixas de insulina em relação àqueles que não receberam nada. Isto permitirá que tenhamos mais substrato para afirmar se a insulina inalável altera (ou não) o funcionamento normal das células pulmonares e, assim, dar mais segurança (ou não rsrs) aos médicos e pacientes que fazem uso desse novo recurso. Ainda não sabemos estes resultados (precisamos esperar as análises ficarem prontas), mas estamos ansiosos para as próximas conclusões.

Para os próximos meses, os projetos envolvem conciliar estes dois temas: PCLS e insulina inalável. Será que conseguimos avaliar os efeitos da insulina nas fatias de PCLS ao invés de utilizar o Zinco? Bom, isto é tema para os próximos capítulos rsrsrs… enquanto isto, vamos trabalhando em outros projetos um pouco menores (mas não menos importantes).

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Ratinhos dormindo – não dá pra não achá-los bonitinhos…

Como eu já disse em um post anterior, pesquisa é semelhante a um jogo de “batalha naval”…em meio a muitas tentativas “água”, o PCLS com Zinco foi um “fogo” (rendeu uma boa publicação)…a insulina inalável muito provavelmente será outro “fogo” (é, às vezes tem um leve “atraso” entre atirar e saber se é “água” ou “fogo”)… agora, será que PCLS com insulina inalável podem estar no mesmo barco? Hm, pra saber só atirando de novo várias vezes… Já que está na “minha vez de jogar”, que comece mais uma semana de tentativas!