Sobre sair da ilha e tomar café…

Começo este novo post justamente com a última frase da Carol no post anterior: É necessário sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saimos de nós (José Saramago). No úlitmo post a Carol falou sobre a saudade…sim, a saudade é forte…sim, ela bate…sim, às vezes é sofrido… Mas, além da saudade, há uma outra coisa por aqui que também tem aumentado: a distância.

Esta idéia tem vindo recorrentemente à minha mente nestas últimas semanas. A distância que tem aumentado não é a física (que, obviamente, continua a mesma), mas sim a distância das situações, a distância das pessoas, da vida que a gente costuma levar. Isto tem suas vantagens e desvantagens, claro. Como já falado, dá saudade, dá sim um aperto no coração. Mas, no fundo, eu acredito que isto tudo nos faz muito bem.

Essa distância nos pensar e repensar muitas coisas. Não estamos mais na fase em que tudo aqui é novidade e, com isso, a mente que antes estava ocupada em processar um turbilhão de novas informações, agora tem um pouco mais de tempo e espaço para “deixar a poeira abaixar” e começar a processar algo mais profundo, mais elaborado. Colocamos à prova os nossos valores, os ideais, os hábitos, os propósitos, o jeito de ser e de encarar a vida. Olhando de longe, de “fora da ilha”, como tem sido a vida no Brasil? O que dela é realmente importante? Como vai ser quando retomá-la? O que é considerado importante lá é importante aqui também? Será que continuará a ser importante para o resto da vida? Um problema considerado grande lá, será que continua grande olhando de longe? E nossa, um problema que eu não enxergava enquanto estava lá, agora eu enxergo! Quantas coisas se passam na mente! No meu balanço geral (pelo menos por enquanto), eu acredito que eu até esteja indo bem na “vida brasileira”…a questão é que as coisas que eu mais mudaria (e tenho mudado) não são as circunstâncias, não são as atitudes, mas sim a minha postura, o meu interior. Como exemplo, duas das lições importantes que tenho aprendido no momento são: “às vezes o PROCESSO constante é mais importante que o PROGRESSO constante” (esta foi e está sendo bem difícil de entender e “digerir”) e “é necessário ter moderação com tudo…até mesmo com a moderação” (também popularmente conhecido como “é bom ser meio doido de vez em quando” rsrsrs). Enfim, são pensamentos “pequenos” mas que na prática fazem toda a diferença porque motivam e direcionam todo o restante das nossas atitudes.

Acredito que todo este processo faça parte do tão famoso “amadurecimento” que todos falam que o intercâmbio proporciona. Ainda tenho cerca de 4 meses aqui mas, se eu voltasse agora, eu já seria diferente. Com certeza há muito mais pra amadurecer, pra pensar e pra mudar nos próximos meses. Sei que o amadurecimento é um processo (não necessariamente um progresso) constante e que não vai parar mesmo quando eu voltar para o Brasil. E vale pontuar que também faz parte desse amadurecimento “à distância” desenvolver melhor o “espírito crítico”, que é tão falado e desejado na medicina e no mundo profissional. Será muito bom voltar para o Brasil sabendo avaliar melhor os pontos positivos e negativos da nossa medicina, do nosso país. Sem espírito crítico não há mudança, não há processo, não há progresso!

Pode ainda haver a dúvida: será que é necessário estar em outro país para pensar em tudo isto? Todas estas reflexões e aprendizados não poderiam acontecer mesmo estando no Brasil? Acho que até seria possível…mas o amadurecimento em outro lugar tem um gosto diferente, tem as suas peculiaridades. É como café (desculpe, mas como uma boa aluna de medicina, eu sou uma “coffee lover” com orgulho rsrsrs)…o café em cada lugar do mundo tem um gosto característico, exclusivo. Um café do Kilimanjaro é diferente de um café da Itália, que é diferente de um café da Tanzânia. Pode-se tomar um excelente café brasileiro, mas ele ainda assim será diferente de um excelente café colombiano. Ambos podem ser igualmente bons, mas eles nunca terão o mesmo gosto. E só consegue diferenciá-los quem desenvolve um paladar mais apurado. Do mesmo modo, o amadurecimento no país de origem é bom, é válido e também tem uma mesma excelência em potencial. Mas o amadurecimento em outro país, imerso em outra cultura, não tem como ser exatamente o mesmo…há uma importante peculiaridade envolvida. E só consegue identificá-la e diferenciá-la quem “apura o paladar”.

E por que estou falando tudo isto? Por que expôr meus pensamentos e meu mundo interior, e não apenas contar os fatos que ocorrem num intercâmbio? A resposta é porque justamente esta é a proposta deste blog: tornar conhecido aos alunos tudo o que se passa com um intercambista, mostrar tudo o que se transforma, todos os processos que ocorrem, inclusive as percepções mais subjetivas.

Portanto, eis a conclusão disto tudo: se puder sair da ilha, saia. Mesmo que seja para voltar para a ilha depois de um tempo. Sempre que puder, tome “cafés” diferentes para apurar o seu “paladar”. Você, estudante, que pensa em fazer um intercâmbio, é bom que saiba (e espere) que certamente voltará diferente…não apenas as circunstâncias da sua vida exterior e sua “bagagem cultural” vão mudar, mas VOCÊ também vai mudar. E isto é maravilhoso, com certeza vale a pena.

 

 

A hora que a saudades bate…

É, pessoal, acho que essa hora chega para todos. Mesmo eu, a maior defensora de se fazer intercâmbio, aquela que só vinha postando sobre as vantagens, viagens, novidades, até eu assumo que, às vezes, a saudades chega.

Não mudei de opinião sobre nada do que eu escrevi até aqui e continuando defendendo com unhas e dentes que intercâmbio é uma experiência maravilhosa. Mas, falando a verdade, to até feliz de escrever um post falando um pouco sobre o outro lado. Há muito tempo penso em escrever um post chamado ‘por outro lado..’ falando sobre os problemas que a gente enfrenta quando se mora um tempo fora. Parece que quem só ve o lado bom de tudo tem menos credibilidade até mesmo para falar das coisas boas né, afinal, nada na vida tem um lado só. Toda vez que tentava começar esse post, esbarrava num problema limitante: qual seria o conteúdo? Não ia escrever só por que achava que deveria mostrar o outro lado, queria realmente acreditar no que eu estava escrevendo, então, toda vez que eu começava, acabava deixando a tentativa de lado.

Mas, hoje.. ah, hoje eu estou com saudades! Saudades de sala de aula, de entrar no hospital, ver meus pacientes, aprender medicina mesmo, sabe? Jamais vou negar a importância da pesquisa, tanto na minha vida como pra sociedade e pra melhora da medicina, mas, por outro lado, como laboratório consegue ser entediante. Todo dia a mesma coisa, seguir os mesmos protocolos.. E é por isso que se chama REsearch, se não só se chamaria search, como eu ouvi uma vez.

Está chegando aquela época do ano em que as novidades já passaram mas, que, ao mesmo tempo, ainda está longe do fim. Não, eu não queria que estivesse perto do fim. Continuando amando Boston e a experiência que eu estou tendo, é só um dia de saudades mesmo.
Saudades daquele arroz, feijao, bife e farofa.

Chegando a hora de escolher a data da passagem de volta: quero passar o natal aqui, mas, no fundo, estou com saudades. Saudades daquele aconchego de estar perto do pai e da mãe.

Acredito que nada na vida é 100% vantajoso ou 100% desvantasojo. Tudo pode, pelo menos, servir para aprendermos algo. Minha experiência, aqui, é muito mais do que isso, eu amo cada (ta, não todos) minuto aqui. Mas acredito que, hoje, já consigo ter a maturidade de ver que há muitos desafios, alguns momentos difíceis e, acima de tudo, muitas coisas boas.

Comida da vó faz falta, colo de mãe faz falta e, um dia, a saudades bate. Um dia você se sente desamparado, como se você estivesse sozinho num país desconhecido. E é um pouco isso mesmo. Mas ai, rapidinho isso passa, por que você lembra de tudo que você está vivendo e aprendendo, o quanto você está crescendo. Você lembra que as experiências que você está tendo, você não teria estando em casa, no Brasil, na sua zona de conforto. Como disse José Saramago “É necessário sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saimos de nós”.

Competição: não gosto. Como lidar?

Competição. Sou só eu ou mais gente também sente um friozinho na barriga quando ouve esta palavra? Aprender a lidar com a competitividade. Que tarefa difícil, que desafio!

Eu nunca gostei muito de competições. Por exemplo, eu adoro jogar futebol…mas não gosto tanto de jogar futebol para competir, com aquele pensamento “fazer gol, fazer gol, fazer gol”. O que eu gosto mesmo é de simplesmente jogar, dar e tomar uns dribles, sem nem mesmo contar quanto está o placar. Sempre fui estudiosa, mas não com o objetivo ser melhor que os outros…eu estudava para ser uma boa aluna, “eu e eu mesma”. Porém, infelizmente, a vida não é assim. O vestibular é uma competição (e uma competição VORAZ), você goste disto ou não. São mais de 100, mais 200 alunos aplicando para apenas 1 vaga, isto é fato. Ou você “compra a briga” e encara o problema, ou você não tem como entrar numa faculdade. E, depois do vestibular, as competições não param: competir dentro da faculdade por uma vaga em extensões acadêmicas, competir por uma vaga de intercâmbio, competir para entrar na residência, competir no mundo profissional por uma vaga de trabalho, e por aí vai… É, infelizmente não tem como fugir da competitividade se vc não quiser ficar estagnado na vida.

Durante o processo seletivo pelo qual passei para vir para Harvard, tivemos que passar por 3 entrevistas “cegas” com pesquisadores americanos. Um dos entrevistadores me perguntou “Qual foi a sua maior dificuldade na faculdade?”. Eu pensei por alguns instantes e respondi “A competitividade…este é um ambiente altamente competitivo e eu não gosto muito de competições”. A segunda pergunta (e que me pegou ainda mais “de surpresa”) foi: “E como você superou esta dificuldade?”. Meu pensamento acelerou, voando, buscando uma resposta plausível e, ao mesmo tempo, sincera…mas não demorou muito e a resposta veio: “Eu fiz da competitividade a minha motivação”.

O mais legal de tudo isto é que, na verdade, eu já entrei na faculdade sabendo como lidar com isto…esta lição de “saber lidar com a competitividade” e “fazer dela uma motivação” foi algo que inconscientemente aprendi com o Band! Da 1a à 8a série eu estudei em um colégio construtivista – um método de ensino que tem diversas qualidades, mas de forma alguma incentiva a competitividade. Chegando no Band, encontrei classes divididas por notas, explanações das classificações de como foi seu desempenho nas provas em relação à turma e em relação ao restante do Colégio, nota do simulado “classificatória” para o curso de aprofundamento em medicina, etc… tudo isto, numa primeira vista, pode parecer para alguns ser um monstro assustador, um “terrorismo”, uma pressão desmedida da escola… mas eu sei e muito bem o quanto tudo isto foi IMPORTANTÍSSIMO para que eu aprendesse a lidar com essas questões da vida.

A vida É competitiva. Ponto. Você pode até decidir não entrar pra competição, mas também não ganhará nenhum “prêmio”. Você pode escolher não correr uma maratona, mas também não pode querer ter a chance de subir no pódio. Eu só consigo ver isto hoje, olhando para trás. No momento em que eu estava passando por toda pressão no Colégio, eu não tinha consciência do quanto isto estava me moldando e me ensinando a ser mais forte, a ser mais resiliente, a encarar melhor o “baque” da competição que existe de maneira tão “dura” na vida real. Nem sempre – aliás, na maioria das vezes – você não vence a competição. E não necessariamente precisa vencer. O mais importante nem sempre é o resultado e – sim – o processo. O quanto você aprende durante a trajetória é, em geral, até mais importante que o resultado em si.

E é por isto que escrevo este post. Imagino que, assim como eu, muitos alunos tenham a sensação de que essa questão do Band de estimular a competitividade seja mais uma fonte de pressão. Sim, de fato, é mais uma fonte de pressão. Mas ela não é desnecessária. É uma pressão que tem todo potencial para ser produtiva no seu aprendizado de vida. Tome isto como uma motivação, não como um motivo de desânimo.

Responder àquelas perguntas do entrevistador no “susto” não foi fácil…eu dei uma “gelada”, meu coração bateu mais forte e meus pensamentos viraram um turbilhão. Eu ainda sou a mesma…ainda não gosto de competição e de pressão, e esta continua sendo uma dificuldade para mim, com a qual eu tenho que lutar a cada dia. Mas eu APRENDI a lidar com isto, o que é mais importante.

O Band oferece todos os dias uma nova oportunidade pra você aprender a lidar com a competição de uma forma produtiva. Encare o desafio. Vale a pena!

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