Protesto da Univer(sal)idade

Lá estava eu, em uma ensolarada tarde de quinta feira, indo para o curso de Imunologia, quando, de repente, me deparo com uma manifestação de estudantes na Harvard Square.20150416_172608

Curiosa que sou, certamente quis saber do que se tratava. Cartazes espalhados por todos os lados, banners, pessoas com camisetas “personalizadas” com identificação dos manifestantes, nem mesmo a estátua do John Harvard passou ilesa (aliás, ele era o ponto “central” da manifestação). Lá tinham pessoas de todos os tipos: estudantes que iam e vinham em blocos, cantando todos juntos o mesmo “brado”, curiosos tirando foto e filmando, policiais vigiando. No começo, fiquei um pouco receosa de chegar perto pois não sabia qual era o “tom” da manifestação e, dadas recentes as manifestações no Brasil, preferi ir com cuidado. Mas depois de observar por um tempo, vi que, apesar da aglomeração, era um protesto pacífico.

Aos poucos, fui me aproximando. Perguntei a um policial o que estava acontecendo e ele me disse que os estudantes estavam lá protestando dia e noite desde o início da semana, que eles fecharam um dos prédios e que alguns deles estavam até mesmo “acampando” lá durante a noite…mas que, apesar de tudo, ainda assim era pacífico. Sem entender muito bem o motivo daquilo tudo, fui me aproximando cada vez mais…queria saber o que estava acontecendo.

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Prédio que foi fechado pelos estudantes. Na porta, um dos estudantes que estava “acampando” na manifestação

Quando me dei conta, eu já estava lá no meio de todo mundo e, de repente, encontrei o nosso amigo Tim (o holandês que citamos em alguns posts atrás)! Perguntei a ele qual era exatamente o propósito daquilo tudo mas, como ele também não estava tão inteirado, decidimos perguntar para um dos manifestantes que estavam vestindo a camiseta de identificação. Resumidamente, ele me explicou que Harvard tem, todo ano, um endowment gigantesco e que uma parte considerável do dinheiro tem sido investido em fontes de combustível não renováveis e o motivo IMG_20150416_193739do protesto era justamente este. Os estudantes querem que a Harvard (uma instituição de tão grande porte e famosa pelo pioneirismo) dê o exemplo e investa, sim, em fontes de energia renováveis! Considerei uma causa plenamente justa e, por fim, os apoiei. Eu, inclusive, estava com minha bicicleta e decidi tirar uma foto com oJohn Harvard como forma de apoio à idéia da maniestação. Posso dizer que Boston ajuda sendo uma cidade “bike-favorável”, mas com certeza vou querer usar mais minha bicicleta ao invés do carro quando voltar pro Brasil!

Enfim… voltei para casa pensando… por que os protestos no Brasil (inclusive na USP) têm um caráter tão diferente? Quando estava nos primeiros anos, presenciei um debate grande sobre se deveria haver polícia militar no campus ou não. Algum tempo depois, o prédio da reitoria foi invadido, vários prédios foram fechados e os portões de entrada na Cidade Universitária foram fechados inúmeras vezes. Os motivos foram dos mais diversos. Mas a esmagadora maioria dos assuntos eram assuntos internos. Desde protesto por um dos prédios ter sido demolido sem consulta aos estudantes, até por problemas com o reitor e crise financeira. Mas por quê? Por que os estudantes brasileiros também não se manifestam por assuntos globais e pelo “bem comum”? Não estou nem falando se as “nossas” causas são justas ou não. Acho que, sim, é importante também lutar pelos propósitos e questões internas às nossas universidades. Mas…e a universalidade? Quantos estudantes lutam por assuntos como investimento em energia renovável no Brasil? Abrir a cabeça, ver que existem outras questões tão importantes quanto as nossas no mundo afora deve se20150416_172120r um motivo de preocupação de todos nós! Será que nossos próprios problemas são tão grandes, importantes e imediatos que nos impedem de enxergar além? De fato, não sei. Não sei se os estudantes de Harvard protestam acerca dos investimentos da faculdade pois “sobra tempo e energia”, já que não têm que protestar contra uma crise financeira. Não sei se os estudantes brasileiros não protestam por fontes de energia renováveis pois “não sobra tempo e energia”, já que têm que protestar por intervenção (ou não) da polícia no campus devido à assustadora violência que lá existe. Mas acho que uma coisa não impede a outra. Podemos e devemos, sim, lutar por assuntos universais, independente do nosso status interno. A proporção demandada por cada assunto pode ser diferente, mas a administração de “tempo e energia” também deve fazer parte do planejamento. Não podemos querer resolver todos os nossos próprios assuntos primeiro para, só depois, começar a pensar no restante do mundo. Será que não tem alguém em volta de nós que também precisa de ajuda? Será que não há nenhuma outra causa que mereça a nossa atenção a não ser as nossas próprias causas?

Enfim, acredito que defender também as causas da “universalidade” seja o “sal” que, de fato, falta adicionar às causas das nossas universidades!

 

Confira alguns vídeos da manifestação:

E, de repente, tudo mudou 

Até sexta, Boston era uma cidade cinza, fria, ainda com neve, com poucas pessoas na rua. Quando muito, tinhamos um ou outro dia de sol e temperaturas positivas, o que já nos deixava muito felizes. E eu, mesmo assim, já estava adorando o intercâmbio.

jogo de Lacrosse Harvard x Pennsylvania no Harvard Stadium

jogo de Lacrosse Harvard x Pennsylvania no Harvard Stadium

A previsão do tempo para o final de semana era acima de dez graus, mas eu não botei muita fé, porque afinal né..

corrida em volta do lago 

corrida em volta do lago

Mas aí, de repente, não mais que de repente, eu acordei em um lugar totalmente diferente. Os termômetros marcavam mínima de 12 com máxima de 19. O céu não tinha uma nuvem. As ruas, lotadas de pessoas; passeando com o cachorro, praticando atividade física, usando vestidos e shorts, parecia uma cidade nova.

Aproveitei o tempo bom para ir assistir um jogo de Lacrosse, esporte popular na costa leste dos EUA e Canadá. Apesar de eu não entender nem um pouco sobre o jogo, foi muito divertido e valeu muito a pena, simplesmente pelo fato de ver pessoas de regata, tomando sorvete, usando óculos escuros.

Não da pra explicar o quanto o clima mudar torna os dias melhores, a gente só percebe isso depois de passar 3 meses vivendo com neve e temperaturas muito abaixo dos 0 graus.

No domingo, fui correr em volta de um lago maravilhoso e, mais uma vez, foi um dia ótimo.

Ontem, VINTE E UM graus, sensação indescritível, e eu não estou exagerando, apesar de parecer. E foi assim, de um dia pro outro, de repente, não mais que de repente..

Welcome Spring!

Pois é… o horário de verão já mudou faz um tempinho… mas o frio não parecia querer colaborar… a neve ainda estava nas ruas, as luvas, os cachecóis e os 5363 casacos ainda não eram dispensáveis. Porém, de alguns dias pra cá, parece que finalmente a primavera está começando a entrar em vigor…e nós, claro, o nosso vigor tem se fortalecido juntamente com ela! Obviamente que ainda não há belas árvores carregadas, jardins floridos e ramalhetes de rosas espalhados pelas ruas… mas pelo menos a previsão do tempo já não mostra mais o desconfortável sinal negativo antes dos dígitos! Ufa!

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Evolução do clima (fotos que tenho tirado periodicamente da janela da sala da nossa casa)

O fato de a neve já ter saído das ruas nos permite ter MUITO mais mobilidade pela cidade e, consequentemente, podemos conhecer um pouco mais dos arredores. Aproveitando a situação, eu finalmente comprei uma bicicleta (pela qual aguardei ansiosamente). A cidade é EXTREMAMENTE favorável para quem curte pedalar… é bem plana, quase não há declives, há ciclovias em muitos lugares e – o mais importante – os motoristas de carro respeitam os ciclistas!! É impressionante pois nas ruas em que não há ciclovia, a bicicleta pode ocupar o espaço de um carro – mas obviamente que se vc, como ciclista, puder facilitar para os motoristas e ficar mais à direita, eles serão gratos. Além disto, a cidade tem infinitos lugares espalhados onde estacionar a bicicleta enquanto você quer ir numa loja ou tomar um café, por exemplo…praticamente todos os prédios têm lugares onde estacionar, o que facilita muito!

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Indo de bicicleta para a Park Street Church (ao fundo)

No Brasil, em que as estações não são tão bem demarcadas, as mudanças passam quase que despercebidas… Aqui não…

Comemoramos que a primavera chegou! Que maravilha!